10 de ago de 2016

As Olimpíadas são o último ato da era Lula-Dilma


Se o espírito anti-olímpico contra a crise econômica e, obviamente, o impeachment, rendeu a corrida da tocha mais didimocózistica da história, a abertura  —  e o que parece se seguir a ela  —  das Olimpíadas foi o suspiro final da era Lula-Dilma, iniciada em janeiro de 2003 e a se encerrar, provavelmente, no dia 29 de agosto de 2016, data prevista do julgamento final da presidente afastada.

Se as benesses e mazelas do projeto lulista podem ser debatidas (e seguem sendo, afinal) por décadas, existe um impacto psicológico difícil de mensurar porém importante na auto-imagem nacional. Foi a primeira vez que um governo federal se propôs, ativamente e com êxito, a integrar mesmo que parcialmente os setores marginalizados da sociedade brasileira. Para além da inclusão pelo consumo e a redistribuição tímida de renda, os governos Lula-Dilma se esforçaram num projeto de criar um país que não vinculasse sua cultura e povo ao “atraso” econômico, numa tentativa de reverter o vira-latismo latente do discurso médio nacional.

Das cotas à história geral da África, da Lei Maria da Penha ao slogan “Brasil, país de todos”, descobrimos que o melhor do Brasil é o brasileiro, todos eles, e que talvez, como disse o Mateus Potumati um tempo atrás, o “reginacaseísmo” venceu o “forastierismo”. O maior exemplo do quão paulatina porém revolucionária foi essa mudança pode ser visto na grita com a qual a reforma ministerial do governo Temer foi recebida, rechaçada em seu fisiologismo, filisteísmo, misoginia e racismo. Uma década atrás esse recorte branco, macho, etc num gabinete ministerial brasileiro não teria sido nem percebido.

A abertura das Olimpíadas é o exemplo mais bem acabado desse recorte de inclusão. Paulinho da Viola no hino nacional, Gil, Anitta e Caetano no medley final, bateria de samba com enredo pra ganhar na Sapucaí, 14 Bis, portugueses acabando com o mato, Drummond de Andrade, Gisele e Niemeyer, a mini-pira e a ~sustentabilidade~, e só música boa. Só filé mesmo, Tóquio tá fodida nesse aspecto, por sinal. Isso com metade da grana de Londres: só a gambiarra salva. Até os vira-latas podem se orgulhar, a imprensa internacional amou. A dissonância entre o que foi apresentado no gramado do Maracanã e a figura funesta de Michel Temer, ladeado por dois de seus papagaios de pirata mais proeminentes  —  a raposa velha Eliseu Padilha e o colhedor de maconha Alexandre de Moraes  —  era maior que a vaia que ele tomou no anúncio do início da competição. Temer escolheu não ser mostrado no telão e nem anunciado formalmente, tamanho seu medo de enfrentar a rejeição pública. Mas no fundo, também não faria sentido: aquela festa não era feita por ele, nem para ele, e o cálculo político era claro.

Da mesma forma que a abertura só foi “surfada” (num oceano de cocô) pelo governo interino, o resto da competição precisa também estar na conta de Lula-Dilma, para o bem ou para o mal, do apoio aos atletas (dos Correios ao Exército) aos desalojamentos para a criação das obras olímpicas. Isso não é de Temer, é de todos nós, construído de um jeito torto por uma democracia frágil numa era onde ainda, pelo menos, se respeitava o voto popular. Assim como nosso primeiro ouro, de uma atleta raçuda da Cidade de Deus que parecia ter perdido tudo depois de 2012, mas que voltou por cima da carne seca. Rafaela da Silva é a cara do Brasil, em todos os aspectos.

Portanto, amigo ex-governista à beira do boicote das Olimpíadas, com aquele medo irracional da Copa de 1970 e sua promessa do eterno governo militar, do meiaoitismo do “futebol é o ópio do povo”, pense bem antes de esbravejar contra nosso renovado espírito olímpico. Grite contra o golpe nas arquibancadas (agora pode), xingue o futebol masculino (tá osso), vibre com as conquistas que ainda vão se amontoar, relembre do desprezo de Lula-Dilma pela causa indígena e da falta de compromisso com aqueles desalojados pelas obras, mas não dê a Temer o gosto de ser dono de um evento que, como o Brasil, foi construído com nosso sangue, lágrimas, suor e muito jeitinho. Na verdade, estamos vendo a história de um mundo que se acabou antes de ter se transformado em algo melhor e maior, e que, pelo visto nas delegações internacionais afora (especialmente as de Terceiro Mundo), inspirou todo o planeta. Essa não é a Olimpíada do Temer, ela é sua e minha, é a tragédia e a promessa de uma nova vida que talvez nunca mais se concretize, mas que pode ser boa de sonhar ainda  —  e quem sabe, como a flor de Drummond, possamos ultrapassar o tédio, o nojo e o ódio para furar novamente esse asfalto.

Atualizando abaixo com momentos para lembrar que “a Olimpíada é nossa”:



Amauri Gonzo é jornalista radicado em São Paulo. Foi editor do Noisey (portal de música da Vice), da +Soma, foi repórter do G1 e redator na Conrad Editora.

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