5 de ago de 2016

As duas histórias do Almirante Othon


Há duas formas de contar a história do almirante Othon Luiz Pereira da Silva, o herói do programa nuclear brasileiro condenado a 43 anos de prisão por um juiz entreguista e vaidoso cujo nome não vale a pena mencionar. A primeira é simples e direta: o Almirante, segundo o juiz, é um cleptomaníaco pervertido que não suportou a tentação de pegar uma propina da Andrade Gutierrez, construtora de Angra 3, no valor divulgado de 4,5milhões de reais. Assim, por esse ato de corrupção explícita, atirou no lixo os registros de uma notável carreira militar e de uma carreira científica ainda mais destacada, relatadas com inigualável acuidade pelos jornalistas Mauro Santayana e Luís Nassif em vários sites na internet.

A outra história é a seguinte. O Brasil, país ainda em desenvolvimento, se meteu, à revelia e contra as imposições dos Estados Unidos, a desenvolver um programa nuclear de primeiro mundo do qual resultou uma tecnologia de ponta em centrífugas para gerar urânio enriquecido, um produto nuclear ultrasensível. Para o comando dessa tarefa designou o Almirante Othon, por sua notória especialização na área. Ele saiu-se maravilhosamente bem. Os americanos, através da Agência Internacional de Energia Atômica, quiseram bisbilhotar as centrífugas já que, com todo o potencial científico que tem, dispõem de uma tecnologia de enriquecimento menos eficiente. O Brasil recusou-se a abrir a exibir a tecnologia das centrífugas e os norte-americanos, pacientes como são, decidiram ficar de tocaia.

Com os recursos do seu poderoso sistema de informação, a espionagem norte-americana, que há muito vinha seguindo, sem sucesso, a trilha do Almirante Othon no mercado negro de peças e equipamentos da indústria nuclear, necessários para o desenvolvimento do programa nuclear brasileiro, obviamente só possíveis de serem compradas com caixa 2, encontrou no Judiciário do país um sócio perfeito para revelá-la. De fato, a Lava Jato não tem nada a ver com Angra 3, e a extensão das investigações a esta última só foi possível porque informações paralelas de Curitiba foram vazadas para ela. E, claro, tudo isso tinha uma rede básica de informação a partir da espionagem norte-americana: os “amiguinhos” do juiz Sérgio Moro, que frequentemente o cumulam de honrarias.

Qual desses dois roteiros é mais plausível? Esse último, conforme os italianos, si non é vero é bene trovatto! Pessoalmente, rejeito a primeira hipótese, a de corrupção. Não se encaixa na biografia do Almirante. E estou convencido de que, caso o Almirante tenha pedido “propina” às empresas construtoras de Angra 3, seu objetivo era formar com esse dinheiro um caixa 2 para comprar para as centrífugas equipamentos nucleares no mercado negro, já que os países monopolistas da tecnologia nuclear não os vendem de forma regular. Claro que o Almirante não poderia dizer isso aos empresários que estava fazendo um caixa 2 para ajudar o Brasil a desenvolver a tecnologia nuclear. Estaria revelando um segredo de Estado. E não pode revelar também para o juiz porque não se revela esse tipo de segredo a ninguém inconfiável.

O lado ainda inexplicável dessa história é o papel desempenhado pela Marinha e as outras Forças Armadas. Elas deveriam ter levantado imediatamente a bandeira do segredo militar quando o Almirante foi preso pela primeira vez. A conclusão é que ou estão todos comprometidos com segurança para os norte-americanos, ou são desatentos com a Defesa brasileira. A propósito, o contra-golpe na Turquia, que interpretei corretamente aqui antes que qualquer outro comentarista, revelou a estreita cumplicidade do sistema judiciário turco com a CIA e o Pentágono. Não sei se é também nosso caso. Entretanto, os caminhos perseguidos pela Lava Jato e pelo processo de Angra, com a agressividade da condenação dos que não fazem delação premiada (ou revelam segredos de Estado), nos deixam em profunda suspeição.

P.S. Um criminoso de guerra a serviço dos nazistas, Werner Von Braun, recebeu total cobertura do governo norte-americano para escapar da Alemanha e da forca, nos últimos dias da guerra, pelo simples fato de ser um cientistas de primeira linha e não obstante milhares de vítimas de suas V1 e V2 lançadas sobre Londres. Nos EUA, chefiou o programa de mísseis que, na parte civil, levou o homem à lua. Tornou-se herói nacional. É assim que os EUA fazem com os homens de ciência que servem ao interesse nacional. Aqui, recompensam-nos com 43 anos de prisão!

J. Carlos de Assis - Economista, professor, doutor pela Coppe/UFRJ.
No GGN

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