7 de ago de 2016

A vergonha da vaia ou a vaia da vergonha?


Sequer uma nota de obituário! Nada!

Isso não se faz! Com golpe ou sem golpe é o presidente e nada justifica o descaso da mídia brasileira ao passamento de Michel Temer.

Não importa até quando assombrará o Palácio do Planalto, mas na abertura dos Jogos Olímpicos, ainda que morto estava lá na condição de presidente. Morto, mas presidente.

Pela falta de notificação da nossa imprensa, ninguém se comportou como se fosse presidente. Tampouco com a circunspecção e respeito devido a qualquer defunto. O único circunspecto foi o próprio defunto enquanto à sua volta uma multidão se desabria.

Um cadáver totalmente ignorado e presidente ou não, se comportou devida e irretocavelmente como cadáver. Com toda a naturalidade de um morto. O que impressionou foi a falta de sensibilidade mundial àquela morte.

Qualquer outro cadáver, sobretudo de presidente, seja de fato ou por golpe, normalmente impediria, interromperia a festa. Mas ali no Maracanã o que se sobrepôs foi a obstinação de todos, nacionais e estrangeiros, pela alegria.

E o morto foi esquecido, abandonado a mais completa insignificância, sem a menor solenidade. Nem mesmo um olhar compungido pela morte ou aceno por algum reconhecimento à sua condição de presidente.

Afora a inequívoca condição de morto, não se pôde nem mesmo distinguir o que realmente o mundo ignorou: se ao presidente ou ao defunto.

Todas as autoridades, todos os presidentes, representantes de reinos e repúblicas, primeiros-ministros e primeiras damas dos mais distintos e distantes países, dos próximos também, fizeram não perceber que o morto, mesmo que momentaneamente é a autoridade máxima da nação que os recebe com toda a cordialidade.

Para os nacionais foi como se o presidente não estivesse morto ou se o morto não fosse presidente. Para estrangeiros, como se o morto fosse nada. Coisa alguma. Sequer morto.

O maior estádio nacional do mundo lotado como nunca antes esteve, pois além dos camarotes e das arquibancadas também no campo. Em cada metro quadrado não havia espaço para mais ninguém, mas todos fizeram questão de deixar claro não haver cabimento para o morto que, contudo, estava ali, apequenado em um acento como se abrisse espaço às ausências realmente notadas e sentidas. Tentando provar de não ser por sua culpa a não presença dos mais desejados, dos que melhor justificariam suas presenças.

O principal responsável que resgatando a depreciada imagem internacional do país fez o Comitê Olímpico escolher a cidade do Rio de Janeiro, garantindo a realização da festa. A da que superando todas as especulações preparou a cidade para o sucesso da grande festa. E a do brasileiro maior atleta mundial de todos os tempos, infelizmente adoecido.

Todos caberiam naquele acento e seriam aclamados. Menos o morto.

Com todos espocariam spots e se posaria para fotos. Do morto não se quis qualquer lembrança nem se concedeu a menor comiseração. Total alheamento correspondendo à defunta impassibilidade à euforia que lotou o Maracanã, como convêm à dignidade dos mortos.

O hipotético maior aliado, secretário do Departamento de Estado dos Estados Unidos, manteve a câmara do seu celular dirigida à festa., comportando-se como se o morto ou o presidente não existisse

O presidente do Comitê Olímpico distribuiu abraços e sorrisos num esforço para ofuscar a palidez mortuária, impedindo-a de embasar o brilhantismo de tantas luzes e cores.

Desnecessário, pois a negação do morto se confirmou por geral altruísmo à tônica da mais alegre das festas da história das Olimpíadas.

Ninguém escondeu a disposição de ignorar a morte ou o presidente. Nem mesmo o Secretário Geral da ONU a quem a natureza do cargo requer esforço diplomático. Ban Ki-moon se despiu do atávico formalismo oriental e a despeito da fúnebre presença, foi um menino totalmente alheio à circunspecção ao seu lado.

Do começo ao fim do evento, Michel Temer não existiu. Inexistiu. Ausência absoluta!

Sem dúvida, melhor assim. Perceptivelmente foi uma morte planejada. Estratégica.

Morto ou vivo qualquer um precisa encontrar um momento de dignidade, sobretudo um golpista. E Temer e sua equipe sabem que, em meio à realização da Olimpíada Rio 2016, o único reduto para alguma dignidade de suas presenças seria mesmo a ausência.

A surreal ausência de corpo presente.

Todas as ausências percebidas e lamentadas estão vivas. A única sequer notada foi a ausência de corpo presente. E morta.

Corpo morto, conforme voluntariamente se comprovou, sem qualquer outra possibilidade perante a negação de sua existência. Mas presente.

Alegria, descontração, sorrisos, empolgação, entusiasmo, exaltação foram as emoções tomadas pelas câmeras de todas as emissoras de TV do mundo. Eventual e inevitavelmente focavam a solitária e impassível circunspecção do morto para imediatamente fugir da imagem do contrassenso à mais alegre e descontraída festa de abertura em toda a história dos jogos olímpicos.

E a festa aconteceu. Grandiosa!

Até José Serra cantou! Sem qualquer expressão definida, mas como definir expressão em uma cara que sequer se defini como rosto? Ainda assim, cantou.

A festa aconteceu numa noite em que o mundo inteiro foi brasileiro. Todo o mundo alegre e descontraído como qualquer brasileiro.

Menos o morto em sua determinação de confirmar que o mundo dos mortos é outro e não se rebaixa ao dos vivos. Ao dos pulsantes e emotivos. Dos que aconteça o que acontecer, se agarram a inexorabilidade da vida. Do prazer de viver.

Situação tão surreal que se torna impossível afirmar qual a maior negação: se ao morto e ao presidente, ou se do presidente morto à vida no Maracanã e no Brasil.

Mas em um momento, sem citar nomes ou funções, uma voz anuncia pelos alto-falantes que serão abertos os jogos. Repentinamente as luzes focam a inegável presença do morto e sem tempo para o susto, o falecido fala: “Declaro oficialmente aberto os Jogos Olímpicos 2016”

Apenas isso. Somente isso. Mais nada, seguido de um mínimo, quase imperceptível instante de apreensão que explode na mais uníssona e estentórea vaia já ouvida de qualquer outra multidão.

Um Maracanã inteiro em uma única vaia de todos. Da plateia de todo o mundo, de todos os atletas do mundo, de todas as autoridades esportivas, diplomáticas e políticas do mundo. Todos, compulsivamente juntos.

Cariocas garantem que ecoou de Marechal Hermes ao Leblon, mas cidadãos de Mangaratiba afirmam que também chegou lá. Alguém escreve ter ouvido em Tóquio. Um italiano diz que repercutiu em Roma e Milão, e próximo à Glasgow espantou os visitantes de velhas ruínas. Entremeou-se também às insólitas estruturas de Gaudí, em Barcelona.

Nova-iorquinos dizem ter imaginado nova morte de um negro pela polícia ou outro crack de Wall Street. Enquanto isso em São Petersburgo o escritor se perdeu do enredo da história. Em Praga um pintor errou o traço, e em Guadalajara o mariachi desafinou no sopro.

Nas cabanas de aldeias em meio à savana africana, fez vibrar a pele de tambores. Tigres em extinção das encostas do Himalaia confundiram com o soprar dos ventos.

Aborígenes perscrutaram os céus da Tasmânia imaginando vinganças de seus deuses. Pesquisadores brasileiros na Antártica relatam que pinguins agitaram asas e focas bateram palmas.

A TV brasileira também se esforçou por, além da vaia, conferir palmas à fala do defunto expondo a imagem de três ou quatro assessores atrás do remoto recanto reservado para o cumprimento do protocolo que obrigou a única articulação mortuária em todo o evento: “Declaro oficialmente aberto os Jogos Olímpicos 2016”.

Há os que tentam comparar com a vaia orquestrada por César Maia na abertura dos Jogos Pan-americanos em 2007, mas então os ensaiados funcionários da prefeitura do Rio de Janeiro não perfaziam mais do que alguns metros quadrados de arquibancada. Também incomparável ao camarote do Globo na abertura do Campeonato Mundial de Futebol em 2014, quando Luciano Huck puxou grosseiras ofensas.

Não há nada com que se comparar à breve, porém definitiva vaia a um morto, por mais que tenha se esforçado pela própria ausência.

Ao Mussolini, depois de fuzilado, penduraram o corpo de cabeça pra baixo. Mas já não era um morto presente. À morte de Margareth Thatcher se festejou por três dias em todo o Reino Unido, mas também já não era uma morta ainda presente. Aqueles não insistiram, não resistiram às próprias mortes como Michel Temer.

Em que pese o esforço do cadáver interinamente presidente, não se pode considerar como real a ausência ou a presença de Temer à festa de abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Mas ainda mais surreal do que a reduzida fala do corpo destituído de vida, foi o geral alheamento à sua função. Talvez, também em sua primeira vez, as Olimpíadas são realizadas em um país onde sua real presidente tenha sido afastada, mas sem dúvida a primeira realizada em um país sem presidente ou qualquer autoridade reconhecida.

Impossível definir o que tenham aplaudido aqueles poucos assessores que acompanharam o féretro até o Maracanã, mas segundo o mundo o que compareceu ao Maracanã não foi um presidente. Realidade que a vaia global torna inequívoca e dela só resta uma dúvida: a vaia envergonha mais ao morto ou a vergonha é do mundo por ter vaiado um defunto?

Seja qual for a resposta, a conclusão é a de que assim caminha a humanidade desde os tempos de Luís XVI e Maria Antonieta. Ou antes.

Na história de usurpadores do poder ou poderosos usurpadores, muito antes.

O Maracanã, maior concentração de expectativas e esperanças dos brasileiros, tornou mais do que evidente de que em todo o mundo e entre os próprios brasileiros não há qualquer possibilidade de expectativa e esperança num país presidido por um morto.

Raul Longo

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