2 de jul de 2016

Um estorvo chamado Cunha

Quantas denúncias mais a Procuradoria Geral da República terá que fazer para que o deputado Eduardo Cunha, presidente afastado da Câmara Federal, deixe de ser um dos mandachuvas desta Nação interina? Com as tramoias envolvendo o Porto Maravilha, a Friboi e Hypermarcas, ele atingiu o placar de três denúncias.

Anteriormente, o procurador Rodrigo Janot havia apoquentado o parlamentar pelas traquinagens na compra de uma plataforma da Mitsubishi e depois pelo envio de recursos para uma conta na Suíça, devidamente, camuflada em um truste sediado num paraíso fiscal.

Não se pode negar que o ministro do STF e relator da “Lava jato”, Teori Zavascki, vem tratando das estripulias de Cunha com denotada parcimônia. Há seis meses, os brasileiros de boa índole aguardam para ver Cunha ser conduzido às gélidas cadeias de Curitiba.

Michel temer e eduardo cunha
À sorrelfa, o mercador Cunha e o presidente usurpador, Michel Temer,
costumam se reunir no Palácio Jaburu.
Na encolha

Ocorre que Cunha — político que nas horas vagas também se dedica a vender carne enlatada para africanos — parece ser um osso duro de roer. Não foi encarcerado. Continua dando as cartas junto ao bando de corruptos que tomou o poder em Brasília na mão grande. Teme-se (não é trocadilho) que ele abra o bico e conte coisas que Zavascki, Janot, Moro e os delegados da Polícia Federal ainda não sabem.

À sorrelfa, o mercador Cunha e o presidente usurpador, Michel Temer, costumam se reunir no Palácio Jaburu, em Brasília. Num dos encontros descoberto pelos jornalistas, no último domingo de junho, os dois repassaram medidas que deverão ser tomadas para que a pele de Cunha seja salva e de como irá se processar a sua substituição na presidência da Câmara.

Os telejornais, os jornais impressos e as revistas semanais não se cansam de apostar na prisão do nobre deputado. Não se sabe, exatamente, o motivo. Todos, porém, são unanimes em prever que “na próxima quarta-feira”, ele receberá a tão esperada voz de prisão.

Como se viu, a razão de tanto temor (sem trocadilho) e obsequiosa deferência com Cunha é uma só: ele sabe dos podres de toda a República. “Se cantar como um pintassilgo, mandará o País pelos ares”, asseveram aliados e inimigos, entre eles, o deputado Beto Mansur (PRB-SP), primeiro secretário da Câmara Federal. O mesmo já se falou do empreiteiro Marcelo Odebrecht. Por enquanto, o dono de um dos maiores grupos econômicos do País, ainda não piou.

fabio cleto
Fábico Cleto, ao ser nomeado vice-presidente da Caixa, assinou seu
pedido de exoneração em três vias, forma de ser pressionado a
atender os interesses do corretor de valores Lúcio Funaro e do
deputado Eduardo Cunha
A papelada apresentada e o vídeo da delação premiada recém-oferecida pelo ex-vice-presidente da Caixa Econômica, Fábio Cleto, tem cheiro de pólvora pura. O jovem ex-pupilo de Cunha entregou desvios de mais de R$ 200 milhões no projeto “Porto Maravilha”, no cais do Rio, cujas obras pagas com uma engenhosa troca de terrenos da União na área saíram por algo em torno de R$ 9 bilhões.

Formigas 

A cúpula golpista do PMDB anda apreensiva. É muito caos para ser contornado. Nem com um desparrame de gastos públicos de quase R$ 200 bilhões conseguirá conquistar a simpatia do Senado Federal para mandar a presidente Dilma para casa; esconder Cunha debaixo da cama e, ao mesmo tempo, alavancar a combalida economia brasileira.

Cunha se transformou naquele tipo de bode que, mesmo sendo retirado da sala, continua exalando mau cheiro. Por pura vingança ele deflagrou um processo que apeou Dilma da presidência. Daqui mais alguns dias, certamente, dará um abraço de afogado em Temer e seus companheirinhos do PMDB.

Há um século e meio, o naturalista francês Saint Hillaire andou por aqui e profetizou: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. É uma frase magistral até hoje reverenciada nos para-choques de caminhões que transitam pelas estradas deste País.  Sem querer ser fatalista, Cunha e a corrupção viraram a saúva do Brasil.

É bom, contudo, não se iludir. Colocá-lo a ferros é apenas um gesto carregado de simbolismo. Ainda há muito que fazer para acabar com a corrupção. Só que para ter continuidade a limpeza do salão precisa que esse estorvo seja removido, o mais rápido possível.
E que também varram junto com ele toda a camarilha que tomou de assalto o Palácio do Planalto.
Arnaldo César é jornalista
No Marcelo Auler

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