23 de jul de 2016

Troca de cartas entre crianças e idosos em SP gera amizade entre gerações

Com as mãos atadas e sendo acarinhada por Daniela Oliveira Zanatta, 7, Angelina Giannini, 92, se entusiasma ao contar da experiência recente de trocar cartas e histórias de vida com a menina. A dupla fez parte de uma iniciativa inédita que tem unido, por meio de missivas escritas à mão, gerações diferentes para compartilhamento de aprendizado e afeto.

Durante dois meses, 19 idosos de um residencial de Pinheiros, zona oeste de SP, receberam e enviaram correspondências para 19 alunos de 7 a 9 anos do colégio Santa Amália, na Saúde, zona sul.

Para os que comandaram e viabilizaram o projeto, resultados positivos foram notados nas duas pontas. "O idoso tem um ganho de autoestima ao transmitir conhecimento, tem uma oportunidade de criar uma relação nova com alguém de uma geração diferente", diz Rosa Yuka Sato Chubaci, do curso de gerontologia da USP, de onde saiu a ideia.

Já para Adriane Ideta, coordenadora na escola, as crianças tanto puderam praticar um gênero textual com o qual não tinham familiaridade como tiveram a chance de obter mais informações sobre a velhice, suas necessidades e suas vontades.

Emoção

Alguns temas foram previamente selecionados para a correspondência, que começava da criança para o idoso: uma apresentação do autor e de sua família, um relato a respeito de momentos inesquecíveis da vida e planos para o futuro.

Os alunos usaram pseudônimos. Não estava no planos um encontro ao vivo entre os grupos, mas a ansiedade das duplas foi tão grande que, no final de abril, uma grande festa no Lar Sant'ana, onde residem os idosos, selou as amizades à base de abraços, beijos e lágrimas.

"Minha mãe só falava na Paz [apelido usado por Daniela] e queria demais conhecê-la. Não imaginei que as cartas seriam algo tão relevante como se tornaram: estímulos de valorização da vida e criação de respeito entre gerações", conta Maria Angélica Giannini Guglielmi, 53, filha de dona Angelina.

Segundo a mãe de "Paz", Cirlei Oliveira Zanatta, a garota não tem muitas oportunidades de conviver com pessoas idosas. O único avô mora longe de São Paulo. "No dia de conhecer a dona Angelina, mesmo não tendo ideia de como ela era fisicamente, a Daniela a reconheceu entre outras pessoas. Foi algo inesquecível. Elas criaram um vínculo verdadeiro", afirma.

Presentes

Mesmo depois do fim do projeto, com 120 cartas, algumas duplas resolveram seguir ativas na troca de mensagens, que continuam a ser escritas sem auxílio de tecnologia. Nessa nova fase de amizade, há também envio de presentes e visitas aos idosos.

"Me correspondi com o MiniPio [Guilherme Ferreira Biscolla, 7]. Ele foi uma graça e me contou que queria ser inventor. Incentivei ele a seguir firme em frente e ser feliz", afirma Maria Rita Ribeiro, 65.

As crianças do colégio também tiveram aulas e disputaram jogos com a temática da velhice. Em uma das oficinas, brincaram com super-heróis envelhecidos. Mostrando orgulhoso uma fotografia que tirou ao lado de sua correspondente, o médico John Kolb, 85, diz que a experiência foi "bonita".

"A lindinha [Bianca Laurini Zorello, 8] me deu alegria muito grande me escrevendo. Ela me disse que quer ser odontologista. Respondi que é uma boa carreira, mas que vai ter que estudar muito." A USP busca outras parcerias entre instituições de idosos e escolas para continuar aplicando a iniciativa.

"Naturalmente, o idoso acaba criando um sentimento de solidão. As crianças quebraram essa sensação aqui dentro", declara Cristiane de Paula Felipe, gerente de atividades no residencial.

Jairo Marques
No fAlha

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