31 de jul de 2016

Tirolês estilizado

– Preciso confessar uma coisa, Rejane,

– O que, Moreira? Algum pecado terrível? Uma ofensa a Deus que só Deus sabe?

– Não, não. Bom...dei um pum durante minha primeira comunhão. Mas não é isso.

– O que é então?

– Eu ia a baile de carnaval vestido de tirolês estilizado.

– Sim. E?

– É isso, Rejane. Meu segredo é esse.

– Você ia a bailes de carnaval fantasiado de tirolês estilizado. Certo. Antes de nos conhecermos.

– Muito antes. Eu era criança.

– Sim, e daí?

– Não. Entende? Sei lá.

– Pronto, você já desabafou, já botou o tirolês pra fora, agora pode levar uma vida normal.

– Eu sabia que você não ia entender. Talvez eu tenha superestimado a importância da coisa. Ou subestimado você.

– Desculpe, Moreira, mas eu... É o significado simbólico, é isso? A infância pedida, a inocência, o que o tempo faz com a gente, coisa e tal?

– É. Não. É isso, mas é mais do que isso. Você consegue me imaginar de tirolês estilizado?

– Com essa barriga, não.

– Pois toda vez que penso no meu tirolês estilizado, me pergunto o que é a vida. Que coisa horrível é isso que nos acontece, que acontece com todos, e que a gente só se dá conta quando tem essa perspectiva. Lá no fundo, todo o mundo tem um tirolês estilizado. Você não pode saber que eu já fui um tirolês estilizado e continuar achando tudo normal.

– Moreira...

– Nós somos a primeira geração a enxergar, filosoficamente, o contraste, entre o tirolês estilizado e o que somos, no que nos transformamos. Meu pai talvez tenha se fantasiado de tirolês estilizado na infância, mas no seu leito de morte, se pensasse no seu tirolês estilizado, não estranharia. Se reconheceria nele. Eu não me reconheço. Somos a geração que carrega a lembrança do seu tirolês estilizado como um segredo, quase como um inimigo. A geração que fez coisas que nenhum tirolês estilizado seria capaz. Uma geração de crápulas. Todo homem da minha idade que se vestiu de tirolês estilizado quando criança é um resumo vivo das distorções do século.

– Moreira, você não é um crápula.

– Sou. Mas já fui um tirolês estilizado. Entende?

Luís Fernando Veríssimo

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