21 de jul de 2016

Sobre a fraude do DatafAlha

Método Datafolha

Pesquisa DataFolha
Você gosta de ovos no café da manhã?

Não: 68%

Sim: 32%

Se você gosta de ovos no café da manhã, como você os prefere?

Mexidos: 50%

Cozidos: 30%

Outras maneiras: 20%
Manchete da Folha de S. Paulo:


Vinicius Romanini
No Esquerda Caviar



http://noticias.r7.com/blogs/ricardo-kotscho/acusada-de-fraude-folha-defende-pesquisa-datafolha/2016/07/21/

Acusada de fraude, Folha defende pesquisa Datafolha

O uso que vão fazer dela depois é algo que foge à alçada do pesquisador. Não foram poucas as vezes em que, ao abrir o jornal no domingo, para citar apenas datafolha Acusada de fraude, Folha defende pesquisa Datafolhaum exemplo, me deparei com manchetes do tipo: "20,0% da população contra Tancredo", quando a mesma pesquisa indicava que 23,9% da população eram inteiramente a favor dele e 21,4% moderadamente a favor.

(Mara Nogueira Kotscho, socióloga e pesquisadora, que participou da criação do instituto Datafolha, em 1983, na apresentação do seu livro A cabeça do brasileiro — Uma análise das pesquisas de opinião pública (Editora Vozes, 1986), com prefácio de Francisco Weffort.

* * *

Em política e no jornalismo, não tem jeito: tudo que você tem dificuldades para explicar e para se defender é causa de antemão perdida.

Ao tentar se defender nesta quarta-feira da acusação de fraude contra a última pesquisa Datafolha publicada no domingo, a Folha recorre a um subterfúgio logo no título: "Perguntas feitas em pesquisa Datafolha causam polêmica". Na verdade, não foi bem polêmica que o instituto de pesquisas causou, mas uma grande indignação registrada nas redes sociais, desde que o site "The Intercept" publicou, na noite de terça-feira, texto em que denuncia a Folha de "cometer fraude jornalística com pesquisa manipulada visando alavancar Temer".

Na matéria assinada por Glenn Greenwald e Erick Dau, o site diz com todas as letras que após a divulgação do relatório completo e das tabelas do Datafolha, que não foram publicadas pelo jornal, "tornou-se evidente que, seja por desonestidade ou incompetência extrema, a Folha cometeu fraude jornalística".

O que motivou a denúncia foi a omissão da pergunta e da tabela sobre o que a população acha da convocação antecipada de novas eleições presidenciais, que registrou 62% de brasileiros a favor (em abril, na pesquisa anterior, o índice tinha sido de 63%). A pergunta do Datafolha:

"Uma situação em que poderia haver novas eleições presidenciais no Brasil seria em caso de renúncia de Dilma Rousseff e Michel Temer a seus cargos. Você é a favor ou contra Michel Temer e Dilma Rousseff renunciarem para a convocação de novas eleições para a Presidência da República ainda neste ano?".

Como quase dois terços dos entrevistados declararam-se a favor, esta poderia ter sido a manchete do jornal, mas a Folha omitiu esta informação, dando destaque ao resultado de outra questão da pesquisa sobre quem deveria ficar na presidência:

"Na sua opinião, o que seria melhor para o país: que Dilma voltasse à Presidência ou que Michel Temer continuasse no mandato até 2018?".

Nesta pergunta da pesquisa estimulada, 50% optaram pela permanência de Temer e 32% pelo retorno de Dilma ao cargo, com apenas 3% declarando espontaneamente preferência por novas eleições.

É nesta discussão sobre diferenças metodológicas entre pesquisa estimulada e espontânea que a Folha se apega para defender a edição que fez dos resultados do Datafolha. "Não há erro, e tanto a Folha quanto o Datafolha agiram com transparência", justificou Alessandro Janoni, diretor de pesquisa do instituto.

Na mesma linha, o editor executivo, Sérgio Dávila, afirmou que é prerrogativa da redação escolher o que acha jornalisticamente mais relevante no momento em que decide publicar a pesquisa:

"O resultado da questão sobre a dupla renúncia de Dilma e Temer não nos pareceu especialmente noticioso, por praticamente repetir a tendência da pesquisa anterior e pela mudança no atual cenário político em que essa possibilidade não é mais levada em conta".

O que permanece evidente, no entanto, é que, tanto na pesquisa anterior como na última, a ampla maioria do eleitorado não quer nenhum dos dois no cargo de República, e isto o jornal omitiu — eis a questão central.

A forma como a pesquisa Datafolha foi montada e divulgada deixou o instituto e o jornal numa situação, no mínimo, constrangedora.

Não é de hoje que institutos de pesquisa são acusados de manipular os números para beneficiar determinados políticos e partidos em detrimento de outros.

Por isso, este episódio poderia servir, pelo menos, para a Justiça Eleitoral estabelecer regras mais rígidas e fiscalizar melhor os procedimentos dos institutos, desde a montagem dos questionários até a divulgação dos seus resultados.

É sempre melhor não deixar dúvidas quando se trata de pesquisas que podem influenciar o cenário político e econômico do País. Depois, não adianta tentar explicar, o estrago já está feito.



A canalhice e o descaramento da Folha


A Folha é tão canalha que tem o descaramento de dizer que a "polêmica" (não seria o caso de falar em "leve discrepância"?) entre o percentual de 3% e 62% favoráveis a uma nova eleição diz respeito singelamente ao fato de a primeira porcentagem ter sido resultado de manifestação espontânea e a outra, de pergunta específica.

OMITE, em primeiro lugar, o FATO de que a pergunta sobre nova eleição NÃO FOI INCLUÍDA no primeiro relatório publicado pelo DataFolha em seu site. O que ficou evidente com a reportagem do Greenwald no Intercept. Mas a matéria da Folha finge que tudo foi publicado desde sempre.

O diretor de pesquisa do DataFolha tem o DESCARAMENTO de dizer que "Não há erro, e tanto a Folha quanto o Datafolha agiram com transparência".

Sim, sim, total transparência. Omitir informações da própria pesquisa realizada, com certeza, é indício de transparência.

A quem esse sujeito pensa que ilude?

Em segundo lugar, mas não menos importante, a matéria OMITE o fato crucial de que essa exclusão teve o sentido preciso de favorecer a distorção evidente, que chocou todos quantos acompanham minimamente o noticiário político, da "informação" publicada na primeira página da edição de domingo, com a "arte" que botava o vampiro como a preferência de metade da população brasileira. "O que é melhor para o país"? "Temer continuar", 50%. "Dilma voltar", 32%. Na capa do jornal. Na cara de todo mundo.

OMITE a pergunta, que propunha APENAS A OPÇÃO entre o retorno de Dilma ou a permanência de Temer (nessa ordem: como se sabe, crianças — e pessoas com idade mental de crianças — tendem a concordar com a parte final da pergunta, mas isso é fichinha perto do encadeamento das perguntas da pesquisa, como se pode ver aqui: Tijolaço). Porque, como é óbvio, se o relatório da pesquisa tivesse publicado os dados corretos, ficaria evidente a singela discrepância entre os 3% e os 62%.

É claro que isso era de conhecimento do diretor de redação da Folha, mas isso não lhe pareceu jornalisticamente importante.

Claro que não era. Porque, se fosse, derrubaria a matéria que enfatizava a preferência de metade da população brasileira pelo vampiro usurpador.

A matéria termina com a informação de que "a íntegra do levantamento pode ser conferida aqui)".

Não, não pode.

Se na primeira publicação eles espertamente omitiam as perguntas 11 (que traziam 37% de entrevistados acusando o desrespeito às regras democráticas no processo de impeachment) e 14 (sobre os 62% que preferem novas eleições), agora continuam a omitir perguntas: há um buraco entre a pergunta 14 e a 21.

Ou seja: MENTEM até no momento em que são chamados a se explicar.

Sylvia Moretzsohn
No Esquerda Caviar

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