10 de jul de 2016

Shakespeariamente

Shakespeare: Quem sois, que me acordais de um sono tão longo que nas pálpebras pesa a remela?

Elizabeth: Sou a rainha.

Shakespeare: Elizabeth?

Elizabeth: Ela.

Shakespeare: Então eu não morri, e 400 anos de túmulo foram o sono de um segundo, e o declínio da Inglaterra o devaneio cruel de um cérebro vagabundo?

Elizabeth: Não, vos suplico, não erreis a dedução. Sou Elizabeth, sou rainha, mas não sou aquela não. A Inglaterra está mudada, o mundo, uma anarquia, mas ainda vive a monarquia.

Shakespeare: Agora, vejo com clareza, sois muito diferente. Uma rainha assim, sei lá, com cara de tia da gente.

Elizabeth: Mas o reino é o mesmo, a mesma ilha coroada. A mesma raça de reis, e a coroa o mesmo fardo. Só nos falta...

Shakespeare: Já sei, um bardo. Não quereis meus ossos nem minha carne, não é a ressurreição que me acenas. Quereis meu espírito — e minha pena.

Elizabeth: Sim! Lembrai ao mundo do que somos feitos, um império sem defeitos. O mundo já tremeu sob as nossas botas, hoje somos alvos de chacotas.

Shakespeare: Contai-me, rainha, tudo que inspire minha verve. Para um bardo, qualquer coisa serve. Quem fez o que com quem, sem esquecer um pajem. Quem foi incompetente, quem só fez bobagem.

Elizabeth: Seu nome é Cameron, meu primeiro-ministro. Ou, como nós o chamamos em casa, primeiro-sinistro.

Shakespeare: Ah, pressinto um personagem. Conspira, transpira, se esgueira? Queima com a chama terrível do eterno enjeitado?

Elizabeth: Não, é até meio apagado.

Shakespeare: E os príncipes? Estes inspiram a nação? Qual deles é o guerreiro? Qual o alegre fanfarrão? Algum filósofo? Algum esteta? Pelo menos um mau poeta? Qual o carneiro, qual o lobo?

Elizabeth: Todos puxaram ao pai, que não faz nada o tempo todo.

Shakespeare: Nessa corte só tem bobo!

Elizabeth: Ajude-nos, bardo, a recuperar nosso esplendor?

Shakespeare: Com esse time? Por favor. Tente Coward, Wilde, Shaw. Os três juntos ou um só. Pois os tempos são elizabetanos, mas não são nada shakespearianos.

Luís Fernando Veríssimo

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