21 de jul de 2016

Rumo ao fundo

Titanic foi um musical da Broadway antes de virar filme. Seus produtores se arriscaram — onde já se vira, um musical sobre uma tragédia? Já tinha até gente desejando seu fracasso para ver a manchete “Titanic afunda de novo”. Mas os produtores tiveram o bom senso de confiar o roteiro e as músicas a Maury Yeston, que já fizera o ótimo Nine, e o resultado foi um belo espetáculo. 

O naufrágio do Titanic assumiu, com o tempo e a perspectiva literária, a dimensão de ponto final de uma era. Yeston se deu conta desse aspecto de epifania ocidental e fez uma retrospectiva do século 19 a caminho do desastre, com a orquestra de bordo tocando até o fim. Deve ter sobrado apenas um bêbado no salão, atribuindo o desnível do chão ao excesso de champanhe e fazendo o último pedido, prontamente atendido pela orquestra: “Toquem a valsa do adeus glub, glub, glub...”.

A orquestra. Imagino que o maestro tenha dispensado apenas o contrabaixista, na suposição de que, de todos os músicos, só ele poderia se salvar, agarrado ao seu instrumento. Os outros músicos ficaram em seus postos, ou porque seus instrumentos não boiavam ou porque o maestro os ameaçara com cortes no salário. Ou então porque tiveram uma noção da solenidade do momento e seu papel simbólico nele. Devem ter tocado como nunca, com nenhuma nota fora do lugar ou compasso perdido. E com o maestro gritando “Con brio! Con brio!” — enquanto as caldeiras explodiam e medusas entravam pelas janelas — porque a missão da arte é esta mesmo, a de dar um significado, ou pelo menos um fundo musical, à gratuidade da existência humana e aos acidentes da História.

Com a água pelo pescoço, o último trompetista deve ter dado a última nota da era que acabava, um último protesto diante dos deuses do acaso, antes de afundar também. Imagino o grande barco a caminho do fundo, uma harpa dourada caindo lentamente como um anjo subaquático no meio de uma formação de violinos, até o cortejo desaparecer no abismo.

Hoje, só temos tragédias insensatas, simbolizando nada. Epifanias vazias rumo a não se sabe bem que fundo. E, pior, com a orquestra tocando heavy metal.

Luís Fernando Veríssimo

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