6 de jul de 2016

Privatizações: crise e velhas respostas


As grandes empresas de comunicação têm o hábito de reivindicar para si neutralidade e equilíbrio de opiniões. Apresentam-se como alheias a disputas políticas e a interesses. Não é muito difícil verificar a falácia de tal pretensão se tomarmos a prática cotidiana dos principais jornais no Brasil. Desde que assumiu interinamente a presidência, Michel Temer executou um programa de governo fundamentado em medidas impopulares, mas que tem recebido tratamento parcial nos grandes meios de comunicação. O discurso da retomada do desenvolvimento econômico abriu caminho, por exemplo, para a defesa da flexibilização das leis trabalhistas e o corte nos gastos públicos, sobretudo no que se refere aos programas sociais.

Há alguns dias, o Jornal Nacional veiculou uma notícia que exemplifica o viés presente na cobertura midiática em determinados temas caros aos interesses dos grandes grupos privados. Com 208 segundos de duração, a notícia “Moreira Franco quer acelerar concessões para atrair investimentos”¹ abordou a privatização de serviços públicos e mostrou ao público quatro perspectivas sobre a questão: (1) a do próprio Jornal Nacional, (2) o ponto de vista do governo, (3) o argumento contrário da oposição e (4) a análise de um especialista. Vamos ver onde está o equilíbrio dos pontos de vista.

Na notícia é possível constatar a disparidade na atenção dada aos aspectos em discussão, tanto pelo tempo dedicado à cada um dos lados, como pela caracterização do cenário político e econômico atual. Do total, apenas 27 segundos são reservados à manifestação de um ponto de vista crítico. O deputado Rubens Júnior (PCdoB), membro da oposição ao governo Temer, é entrevistado na matéria e tem 19 segundos de tempo de fala. Ainda assim, aparece na argumentação do político apenas a contrariedade em relação ao modo como as concessões à iniciativa privada estão sendo realizadas. Nenhum argumento claramente antagônico às privatizações em si é esboçado por ele. A colocação do ponto de vista crítico no conjunto da matéria, entre o depoimento de Moreira Franco e a chancela final de um especialista francamente favorável às privatizações, também revela a clara intenção de editorializar a opinião.

O anúncio da queda na arrecadação e da falta de dinheiro para investimentos dão início à notícia, que segue sinalizando que “o Brasil tem pressa para gerar empregos”, mas não tem como fazê-lo sem recorrer ao caminho das privatizações. O apelo à geração de empregos e à execução de obras fundamentais para o desenvolvimento do país, tal como em aeroportos, rodovias, ferrovias e portos, faz coro à defesa das concessões à iniciativa privada como único caminho possível à retomada do desenvolvimento, bem como do mercado como parâmetro para a definição dos termos a serem adotados. Outro fator sinalizado pelo jornal confere baixo prestígio à gestão pública das obras de infraestrutura, ao afirmar que a ferrovia Norte-Sul consome dinheiro público há três décadas.

Moreira Franco (32 segundos de tempo de fala, mais 31 segundos de introdução do jornalista) e o economista Otto Nogami (25 segundos de tempo de fala, mais 11 segundos de introdução do jornalista) ficam com os mais longos tempos de fala da notícia e ratificam o ponto de vista estabelecido pelo Jornal Nacional. Moreira Franco argumenta que é necessário acelerar os processos de concessão com a retirada das travas que os impossibilitam. Atração aos investidores, transparência e estabelecimento de regras claras dão o tom, tanto da introdução do jornalista responsável pela entrevista, como do secretário executivo do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) da Presidência da República. Franco ressalta que essas medidas são investimentos de longo prazo em infraestrutura e que objetivam mostrar aos investidores que o Brasil é um país sério. Na mesma direção, Otto Nogami relaciona a eficiência na gestão pública com a presença do governo apenas em áreas essenciais, tal qual a educação, a saúde e a mobilidade urbana. Nogami trabalha no INSPER, instituição de recorte fortemente neoliberal, e tem dado várias declarações públicas de apoio à equipe econômica do governo Temer. O bem-estar da sociedade aparece na fala do especialista como justificativa para que todos os outros serviços sejam transferidos à iniciativa privada. Não há espaço para neutralidade, nem mesmo para a ambivalência, com o veículo se posicionando em um lado do debate.

A privatização dos serviços públicos não é assunto recente no Brasil. Ela começou no governo Collor e ganhou força no período em que o PSDB esteve na presidência, quando muitas empresas estatais de grande porte foram vendidas. Desde então essa prática é objeto de opiniões controversas. Mobilizar minimamente os argumentos contrários e favoráveis a um assunto tão importante é o que devíamos esperar de uma mídia verdadeiramente democrática. Mas parece não ser esse o caminho escolhido pela grande mídia brasileira, aqui representada pelo programa de notícia de maior audiência na TV do país, o Jornal Nacional, da Rede Globo.



Marcia Rangel Candido e João Feres Júnior
No Manchetômetro

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