5 de jul de 2016

Por que Moro não prende o Lula?


O sonho da direita brasileira e de seus mentores da extrema-direita norte-americana é eliminar a possibilidade de Lula ser candidato a presidente da República em 2018. Aliás, de ser candidato a qualquer cargo — como tudo ainda está indefinido ele pode muito bem decidir candidatar-se a governador de São Paulo, para derrubar o continuísmo tucano no Palácio dos Bandeirantes, que já dura mais de vinte anos.

O problema, no entanto, é que nenhum caminho é bom para a direitona, no rumo deste objetivo. Se matarem o Lula (e tenho certeza que ninguém na direita teria um desejo tão anticristão, talvez apenas o gurú Olavo de Carvalho e sua seita, que equiparam Lula ao demônio encarnado…) a comoção social seria tamanha que afastaria os conservadores, liberais e, principalmente os fascistas, do poder por uns trinta anos, no mínimo. Nossos mussolinis e berlusconis ainda não se esqueceram de Getúlio Vargas e do quebra-quebra e ódio à direita que resultou daquele suicídio. Com Lula seria pior, pois o país urbanizou-se e as comunicações permitem mobilizações populares muito maiores. Não sobraria uma lente intacta na Globo, por exemplo.

Se o Moro mandasse prender o Lula, além de uma instabilidade geral, com povo nas ruas e estradas. Os juristas condenariam a manobra pois ainda que Lula fosse suspeito de alguma irregularidade, a prisão, por lei, só ocorre depois da condenação, apesar de Moro se esforçar para provar e exercer o contrário. Até o acovardado STF poderia dividir-se, e a supremacia de Moro sobre todo o Judiciário brasileiro poderia ser abalada por um ministro qualquer, do tipo Marco Aurélio ou Barroso, que às vezes mostram-se inconformados com o papel de juízes-auxiliares a que foram relegados pela Comarca de Curitiba. (Eu adoro Curitiba, mas um famoso escritor que lá nasceu disse: “Depois de profundas pesquisas filológicas, descobri que ‘ritiba’ quer dizer ‘do mundo’….)

Além disso, com Lula preso aconteceria aquilo que o jornalista e blogueiro “sujo” Paulo Henrique Amorim já previu: “A dona Marisa sai de uma visita e diz prá imprensa: ‘o Lula pediu para votarem em…..” E — diz mais o PHA — se Moro prender também a Dona Marisa, e também seus filhos e netos (já que para Moro os Lula da Silva devem ser extintos até a quinta geração, suas casas demolidas e os terrenos salgados), o blogueiro cadeirante Ênio Barroso visitará o Lula e trará da masmorra o mesmo recado: “O companheiro Lula acha que devemos votar em….” Mais uma vez, o sonho da direitona desaba, pelo menos pela via normal, aquela dos países civilizados, que são as urnas.

Dizem aqui e ali que Moro já tem tudo pronto para a prisão de seu eventual adversário. A Globo de sobreaviso para chegar um pouco antes das dezenas de viaturas, dos policiais federais com farda camuflada daquelas de guerra de selva, cães treinados, helicópteros (talvez alguns agentes desçam pelas cordinhas, prá dar mais emoção ao espetáculo,aquele toque de SWAT que as TVs de todo o mundo irão destacar), e para coroar o momento de rara coragem de Moro, Lula será algemado e arrastado aos pés do herói da Veja e dos irmãos Marinho (também da CIA mas, como diria o nosso mestre Joel Santana, interpretando literalmente nosso magistrado favorito “this don’t come to the case”). Seria uma apoteose para a “operação golpe-a-jato”, que na verdade já dura mais de dois anos.

Porém, acredito que Moro não fará nada disso, apesar de sua vaidade lhe aconselhar “vá em frente, vá até o fim” a cada vez que se olha no espelho (e são várias vezes ao dia, já perceberam como seus cabelos mantém-se rigorosamente alinhados?). Justifico: é que desde o começo de 2016, o Datafolha tem colocado o nome de Moro nas suas pesquisas de preferência dos eleitores para a eleição de 2018. Aliás, chegou a colocar o nome de Moro como candidato pelo PSDB, um ato premonitório da equipe do imparcial Otavinho Frias (veja o detalhe no gráfico: “Com os três tucanos (PSDB)” E, logicamente, Moro aparece muito bem colocado, nos primeiros lugares – estar apenas na frente do Serra não é nenhuma vantagem, mas ele quase vence o Aécio, ameaça Marina Silva (aquela do jatinho, aquela do Banco Itaú) e em março já tinha a metade dos votos do veterano Luis Inácio!


Moro vibrou com a notícia (por dentro: por fora ele tem que fazer cara de mau, os amigos da Globo recomendaram). Mas logo percebeu que tem que escolher: ou alimenta a mosca azul que o picou e assume de vez sua carreira política, até agora um tanto obnubilada pela toga; ou vai até o fim no plano em que se engajou junto com a direitona cabocla e gringa, e manda logo prender o perigoso pré-candidato dos comuno-bolivarianos-petistas.

Embora o destino de Moro dependa de uma conjunção de fatores, alguns deles imprevisíveis como quase tudo em Política (até a audiência da Globo e alguma delação contra tucano ou peemedebista graúdo são determinantes para o cronomograma da Lava-Jato e, por isso, para a possível pré-campanha presidencial do juiz supra-instâncias, neste momento eu ponho 80% das minhas fichas nesta aposta: Moro não prenderá Lula, porque ficará impossibilidade de disputar tendo eliminado seu principal adversário antes da luta começar.

Seria como desafiar o Mohammad Ali na sua melhor forma, mas exigir que ele fosse representado pelo seu quarto sparring.Apesar que até um quarto “reserva” de Lula mete medo em qualquer aventureiro…

Antonio Barbosa Filho é jornalista, editor do blog Valepensar.com, e autor de “A Bolívia de Evo Morales (2008).

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