24 de jul de 2016

Por dentro das redações: o papel dos donos em decisões como a do Datafolha

O patrão sabe de tudo previamente
Vi algumas pessoas se perguntando quem é o responsável pela fraude da Folha no Datafolha.

O editor executivo Sérgio Dávila ou o editor e dono Otávio Frias?

A pergunta traduz um desconhecimento de como funcionam as empresas jornalísticas.

As decisões realmente importantes, no campo da política e da economia sobretudo, são todas elas dos donos.

Isso quer dizer que a culpa no Datafolha foi de Otávio Frias. Dávila foi, é verdade, cúmplice. Mas não mais que isso.

Muitas vezes os proprietários fingem que não têm nada a ver com certas decisões que provocam repulsa.

Roberto Civita gostava de atribuir maldades da Veja aos “meninos” da redação. Essa desculpa era costumeira quando RC ia a Brasília pedir favores do governo e topava com queixas sobre absurdos que a revista publicara.

Mas, como Dávila, os meninos eram apenas cúmplices. Nenhuma decisão editorial relevante da Veja, principalmente nos anos de jornalismo de guerra contra Lula e o PT, foi tomada por alguém que não fosse Roberto Civita.

Os editores jamais o afrontaram. Praticaram invariavelmente a famulagem.

João Roberto Marinho, da Globo, faz a mesma coisa. Num trecho de uma conversa gravada, ele é citado como tendo atribuído aos jornalistas da Globo certas coisas.

Não é verdade. A linha editorial da Globo é controlada rigidamente pela família Marinho, e por ninguém mais.

Numa reunião semanal, João Roberto conversa com os principais editores e jornalistas da casa. Nesse encontro são definidos por João Roberto, em nome de seus dois irmãos, os parâmetros da cobertura política da Globo.

Deste papel — o de definidores das diretrizes — os barões da mídia nunca abdicam. Os jornalistas que os cercam sabem que não sobreviverão se desafiarem as vontades dos patrões.

No jornalismo de guerra que caracterizou a imprensa brasileira pós-PT, a obediência aos Marinhos, Frias e Civitas virou um atributo obrigatório entre chefes de redações.

No caso do Datafolha, para voltarmos ao princípio da conversa, são zero as chances a fraude não ter sido vista e aprovada previamente por Otávio Frias.

Dávila, o editor executivo, oscilou apenas entre a cumplicidade e a famulagem.

Paulo Nogueira
No DCM

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