25 de jul de 2016

O “príncipe eletrônico”: a Globo contra o Povo Brasileiro em dois atos


Octavio Ianni enxergava longe

Inspirado nas ideias dos pensadores Nicolau Maquiavel e Antonio Gramsci, o grande sociólogo brasileiro Octavio Ianni cunhou, ao final do século passado, a expressão “príncipe eletrônico”.

Então envolvido com os seus estudos relativos aos processos da globalização — isto é, a expansão da civilização capitalista no mundo, após o fim da guerra fria —, Ianni apropriou-se e redesenhou a figura meio mítica, meio conceitual do “príncipe”.

Para o antigo filósofo florentino, o “príncipe” referia-se a um líder individualizado, condutor de vontades e eventual construtor de estados. Na perspectiva bem posterior de Gramsci, o “príncipe” consistia em singular ator coletivo: o partido político.

Das reflexões de ambos, Octavio Ianni, em contexto histórico que nos é mais próximo, salientava o papel desempenhado pelos conglomerados de comunicação, enquanto principais agentes formuladores de ideias e galvanizadores de vontades mundo afora.

Ianni tinha razão em observar um fenômeno que ficou demasiadamente claro em nossos dias: o “novo príncipe”, o “príncipe eletrônico”, deslocou as figuras dos líderes individuais e dos partidos na conformação de visões de mundo, na mobilização e canalização de esperanças e angústias e na adoção de políticas públicas.

O novo tipo de “condottiere” é coletivo, eletrônico, internacionalizado e profundamente entrelaçado com os poderosos interesses que dão sustentação ao capitalismo mundial.

No Brasil, as organizações Globo projetam, inequivocamente, a imagem do “príncipe eletrônico”. Atendendo a agenda de parasitas rentistas e de corporações multinacionais, preconiza uma adaptação da sociedade e do Estado brasileiros aos requisitos do capitalismo global, visando a ampliação das condições de acumulação e lucro.

O “condottiere” midiático brasileiro, até o momento, está atuando em dois atos. O primeiro, praticamente encerrado com a destituição da presidente Dilma Rousseff (PT), pode ser chamado de “negativo”.

Tinha em vista especialmente a organização de vontades e expectativas reacionárias, entreguistas, difusas na sociedade, para se opor e afastar o governo democraticamente eleito. O foco era negar qualquer credibilidade ao governo Dilma.

O segundo ato, digamos “construtivo”, que envolve a veiculação de propostas e ideias para o Brasil, começou há pouco e já possui certos traços programáticos, preconizando um verdadeiro desmonte de históricas conquistas nacionais e populares.

O primeiro ato da Globo no golpe

O governo da presidente Dilma era acentuadamente débil, do ponto de vista de um programa de esquerda? Mal arranhava os interesses do grande capital? Sem problemas.

Em função da história e das bases do PT, para a Globo, precisa(va) ser afastado porque era (é) visto como embaraço às possibilidades de atender ao projeto de “atualização histórica” do país (cf. Darcy Ribeiro), ou seja, aos requisitos do capitalismo global.

Empresas estatais e legislação trabalhista sob a limitação, senão de bloqueio às mudanças, pelo petismo hoje apeado do governo, ao menos de morosidade nas mudanças pretendidas?

Uma circunstância inadmissível para o “príncipe eletrônico” do Jardim Botânico, que organiza, articula e expressa as vontades empresariais, nacionais e forâneas, assim como as frustrações e os sentimentos de privilégios de setores medianos da sociedade.

Mas, os partidos de oposição à direita do petismo são frágeis e desmoralizados, sem capacidade de mobilização contra a presidente (destituída). Para a Globo, problema algum. Ela toma o lugar dos antigos e depreciados partidos ultraconservadores.

Produzem-se enquadramentos noticiosos que privilegiam exclusivamente a “corrupção” petista e convocam-se, ao vivo, as pessoas para participarem de protestos nas ruas.

O líder é “eletrônico”, midiático. A capacidade de mobilização, de interpelação e convencimento dá-se por intermédio das telinhas.

O sagrado direito de voto deve ser violado? Para as organizações Globo não há problema. Articulam-se com as instituições do Estado uma máscara de legalidade e se toca o barco antidemocrático.

Nessa primeira etapa do golpe e da subordinação desenfreada do Brasil aos ditames externos, o que mais ficou evidente foi o perfil de “opinião pública” não apenas defendido, como posto em prática pela Globo.

Refiro-me à opinião com viés publicista e elitista, em que somente a voz da Globo e dos setores empresariais e políticos aliados é reconhecida legitimidade para falar sobre o país.

A tímida e limitada expressão opinativa do povo por meio do voto, em uma versão de opinião pública institucionalizada, foi jogada no lixo.

A distopia da etapa “construtiva” que se apresenta

Passado o momento da desconstrução, a Globo paulatinamente tem veiculado o seu programa que visa ser implementado no país. Para não me estender mais, restrinjo-me a três bandeiras reverberadas pelas organizações Globo.

A primeira é a redução dos direitos trabalhistas. Segundo editorial de O Globo (12/06/2016), as leis do trabalho no Brasil são antigas e deve prevalecer o negociado sobre o legislado.

Ao contrário do que esposa a Globo, importa frisar que a antiguidade da legislação deveria implicar, no mínimo, em redução da jornada de trabalho, sem afetar os salários.

Isso porque o nível de produtividade, com o incremento técnico alcançado durante longo tempo, desde os anos 1940, foi elevado, sem a devida distribuição dos frutos no aumento da geração de empregos e em maior distribuição da riqueza nacional em benefício dos trabalhadores.

O que a Globo deseja é a negociação entre o pescoço do trabalhador e a corda do patronato, almejando aumentar os lucros empresariais.

Um segundo ingrediente do programa reacionário, antinacional e antipopular da Globo é a defesa, latente, da velhíssima ideia de que o Brasil possui “vocação agrária”. Há dias tem sido exibida uma chamada corporativo-publicitária, com apoio da Globo, que busca conferir status de “mudernidade” ao capitalismo rural do país.

A chamada televisiva afirma que “Agro é Tech, Agro é Pop, Agro é Tudo”. Sobre os problemas implicados na estrutura fundiária brasileira sugiro a leitura do artigo de Gustavo Noronha, economista do Incra (2).

Todavia, somente acentuo que essa versão televisada e laudatória da produção agrícola adentra o universo da “ideologia do colonialismo”, como bem classificava o historiador Nelson Werneck Sodré aos adeptos de pretensa incapacidade industrial do país. Uma visão que restringe as virtudes e possibilidades do país à natureza.

Uma perspectiva que remonta ao período anterior a era Vargas e que tem como mote chumbar a nação em uma posição subalterna e hiperdependente na divisão internacional do trabalho, além de apostar única e exclusivamente no “desenvolvimento para fora”, via exportações de commodities.

O antigo papa do liberalismo econômico brasileiro, Eugênio Gudin, colunista de O Globo nos anos 1950/60, ficaria muito feliz com tal ideia. Afirmava que a indústria no Brasil vivia a base de “protecionismo”.

Hoje, praticamente entregue ao capital estrangeiro, como o próprio Gudin defendia, a indústria vive às custas de acintosas isenções fiscais e de financiamento público orçamentário.

Por fim, editorial de O Globo publicado nesse domingo (24/07/2016) defende o fim do ensino público e gratuito das universidades (3). Considerando os dois itens programáticos anteriores, seria o “coroamento” de um coerente programa de desmonte do país.

Desmonte de qualquer capacidade de engenho e domínio criativo sobre a produção e o saber, além de ampliar a exclusão social e a subserviência aos interesses internacionais.

Não tenho dúvidas em afirmar: as organizações Globo são as maiores inimigas do país e do povo brasileiro! Consistem em um intelectual e em um príncipe coletivo, que organiza, mobiliza e galvaniza vontades e interesses de setores que querem acabar com qualquer traço de soberania, de liberdade e de igualdade para o povo brasileiro.

Mas, e o governo Temer? Basicamente, só se mantém porque o vende pátria “príncipe eletrônico” do Jardim Botânico assim o quer. Só está no Planalto para cumprir o programa advogado pelas empresas da família Marinho.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

No GGN

Publicado no Diário Liberdade.

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