27 de jul de 2016

Mensalão 2.0


A importância conferida às delações do marqueteiro João Santana e de sua esposa torna ainda mais evidentes e constrangedoras as dificuldades da Lava Jato em realizar seus objetivos políticos. E nada tem de gratuito o retorno, à operação, das táticas consagradas na época da Ação Penal 470.

A ideia, em resumo, é usar contra petistas e aliados certas irregularidades que a Justiça e a imprensa toleram há décadas, e continuam tolerando, cinicamente, nos outros partidos. Deu certo na suposta compra de apoio parlamentar que originou os justiciamentos do "mensalão". Vem dando certo nas picuinhas contábeis do impeachment golpista.

Apesar das somas vultosas, o enrosco dos Santana com a lei chega a soar pueril para quem conhece o meio. Caixa dois é o “trivial com fritas” das eleições nacionais. Sua generalização torna a própria lisura uma sandice estratégica, nessa selva pragmática e competitiva, dominada pela permissividade moral.

O mesmo diria um jornalista que aceita prestar serviços para seu veículo como “pessoa jurídica”, burlando a legislação previdenciária.

Sem meios técnicos nem vontade política para escarafunchar maquiagens contábeis na imensidão disponível, a Justiça Eleitoral exibe uma estranha competência em fiscalizar certas linhas partidárias. E, assim, neste país continental, com eleições a cada dois anos, os únicos marqueteiros presos foram Duda Mendonça e João Santana, exatamente aqueles que trabalharam para petistas.

Como ocorreu no dito “mensalão”, os nobres magistrados apenas buscam o recurso mais cômodo e certeiro para atingir seus inimigos circunstanciais. Passado o escândalo, obtidos os efeitos desejados, tudo voltará à promiscuidade normal de sempre. Inclusive no Judiciário.

O caixa dois é a munição que Sérgio Moro fornece a Gilmar Mendes para atingir a campanha de Dilma Rousseff na hipótese de o Senado absolvê-la. Espremendo os Santanacom suas técnicas policialescas, Moro saberá impedir que o casal aproveite o episódio para escancarar a hipocrisia do novo capítulo dessa farsa moralista.

Guilherme Scalzilli

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