7 de jul de 2016

Ibogaína pode ser o futuro da cura do vício em drogas - mas o caminho será longo


Aos 13 anos, Felipe Cruz tomou seu primeiro porre antes de ir para a escola. Aos 17, já tinha experimentado todo tipo de droga. “Usei praticamente de tudo: cocaína, crack, maconha, LSD, tudo que dava uma sensação de euforia e prazer, as coisas iam aparecendo”, conta. Dos 18 anos até os 26, passou cerca de 20 tipos de tratamento e internações. Saía de uma clínica, tomava muitos remédios para as crises de abstinência, mas acabava voltando para a rotina das drogas.

Em 2011, sua mãe descobriu uma pesquisa que testava o uso de ibogaína para tratamento de dependência química em uma clínica em Curitiba. Mesmo descrente, convenceu o filho a viajar de Ponta Grossa, cidade natal da família, no Paraná, para a capital do estado.

O tratamento do Felipe gerou um artigo publicado em 2014 no Journal of Psycopharmacology de Londres, na Inglaterra, por uma equipe da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Foi o primeiro estudo retrospectivo que analisou os efeitos da ibogaína para tratar do vício em crack e cocaína. A conclusão foi das mais animadoras: manteve, até o fim do acompanhamento, 72% dos pacientes abstinentes do vício. Felipe fora um deles.

Alçada desde então como nova esperança de cura para a dependência química, a ibogaína é extraída da planta Iboga, originária do Gabão, no oeste da África. Seu suposto poder de cura começou a ser falado nos anos 60, quando o americano Howard Lotsof, então com 20 e poucos anos e viciado em heroína, viajou para África e foi apresentado ao que julgou ser a viagem mais louca de sua vida por meio da ingestão de ibogaína. Depois de experimentar a substância, Lotsof não sentiu mais vontade de usar heroína e dedicou sua vida a entender esse efeito.

Quando voltou aos EUA, nos anos 80, Lotsof publicou uma série de pesquisas sobre a eficiência da ibogaína para o fim do vício em drogas. Só a partir dos anos 2000, porém, que o assunto foi resgatado por mais cientistas e levado aos laboratórios.

A partir das pesquisas recentes, sabe-se que, além de fazer a pessoa sonhar acordada, a ibogaína tem como efeito forte enjôo e tonturas. “É uma experiência desagradável, a viagem é ruim. O paciente vomita, sente tontura, os pensamentos ficam confusos”, explica Dr. Bruno Rasmussen, participante da pesquisa da Unifesp e um dos clínicos dos pioneiros em pesquisa com ibogaína no Brasil. "Esse efeito dura de quatro a oito horas. É muito desconfortável do ponto de vista físico, mas não do ponto de vista mental.”

A susbtância, no entanto, não é considerada alucinógena. O psiquiatra chileno Claudio Naranjo descreveu a ibogaína como um oniro frênico, uma substância que faz o cérebro sonhar, e não alucinar. “É um sonho acordado”, explica Dr. Rasmussen. “Você está acordado, mas você sonha."

O pó da ibogaína é colocado em cápsulas que são ingeridas durante o tratamento.
Psicologicamente, a viagem da ibogaína foi o que mudou a vida do Felipe. Ele me contou ao telefone que, apesar de ter passado muito mal, se sentiu muito bem. “Muita coisa mudou, era como se tivessem tirado meu cérebro sujo e me dessem um cérebro novo. Peguei gosto pela leitura, pelo estudo, e eu nunca gostei de estudar. Voltaram algumas coisas que eu tinha dentro de mim e que tinham morrido com a droga, que acaba com a pessoa”, relata.

A ibogaína tem efeito que os especialistas chamam de expansão de consciência. Segundo os pesquisadores, faz o paciente perceber quais são as coisas que estão prejudicando sua vida e o que pode fazer para melhorar. O biomédico Eduardo Schenberg, um dos autores da pesquisa da Unifesp e que agora conduz teste clínico com MDMA, explica que é como se a ibogaína mostrasse um filme de horror que faz com que o paciente tome consciência do seu caminho errante. O Felipe contou que é assim mesmo: “Tive muitas lembranças da minha infância, coisas que eu nem sabia, vi imagens assustadoras. Também vi coisas relacionadas à natureza, mas com formas e cores diferentes.”

"A ibogaína reequilibra os neurotransmissores e faz com que o paciente não tenha mais necessidade de usar droga”

No cérebro, o Dr. Rasmussen explica que a substância faz aumentar um hormônio responsável pela reconexão dos neurônios. “Isso reequilibra os neurotransmissores e faz com que o paciente não tenha mais necessidade de usar droga”, diz.

Segundo Dr. Schenberg, existem mais de três mil relatos na literatura médica de sucesso no uso da ibogaína no tratamento de dependentes químicos. Ele conta que o período de abstinência depois de ingerir a substância chega a ser de cinco a oito meses. “A gente entende que isso acontece porque a experiência é tão intensa, em alguns aspectos tão negativa e assustadora — alguns pacientes chegam a acreditar que estão morrendo de fato, mas é uma morte psicológica, um efeito psíquico, não físico — que a pessoa sai do ritmo e consegue dar uma pausa naquela vida”, afirma.

Em breve, os pesquisadores realizarão novo teste clínico com a ibogaína. Será, dizem, diferente do primeiro. De acordo com eles, o da Unifesp foi um estudo retrospectivo dos efeitos da substância. Nele, a avaliação dos pacientes era feita depois da ingestão. O novo estudo acompanhará os dependentes químicos desde o período de abstinência de 30 dias antes da tomada do medicamento e, depois, serão observados por um período de pelo menos dois anos. A expectativa dos cientistas é comparar o antes e o depois da ingestão da ibogaína para avaliar e entender melhor os seus efeitos.

Morte e recaída: os riscos sem acompanhamento médico

Existem também, no entanto, pelo menos 19 registros de óbitos entre os anos 1990 e o ano de 2008 após uso da ibogaína. Os pesquisadores alertam que as mortes acontecem quando a substância é ministrada fora do ambiente hospitalar e sem examinação prévia da condição clínica do paciente.

Do ponto de vista clínico, a ibogaína faz com que o coração acelere e a pessoa tenha uma arritmia — o que faz com que seja proibida a combinação dela com outro tipo de droga. Para ingerir a substância, o paciente deve estar abstinente por no mínimo 30 dias e não deve ter problema de saúde mental. “Uma substância psicoativa em um paciente com qualquer tipo de psicose é contraindicada, pode piorar o quadro, causar um surto”, diz o Dr. Rasmussen.

Os médicos explicam que a substância não é considerada remédio. Para que tenha efeito terapêutico, é preciso acompanhamento de um especialista em saúde mental. “A gente considera que ela facilita a psicoterapia. Se não tiver uma psicoterapia concomitante, não tem o que ser facilitado, não funciona", diz. "É importante que o paciente faça um pouco de psicoterapia antes da aplicação da ibogaína até para se preparar e descartar problemas psicológicos mais sérios.”

Depois de tomado o remédio, a psicoterapia é indicada para que o paciente não dê bobeira e caia de novo nas drogas. “Ajuda a digerir tantos pensamentos, tantos insights, e a lidar com essa nova situação, orientar ele sobre como ele deve se comportar quando ele estiver num ambiente onde ele tem facilidade de arrumar droga”, completa.

Muitas vezes, os pacientes voltam para as drogas por hábito, como foi o caso do Felipe. Depois de 45 dias abstinente graças à ibogaína, ele reencontrou velhos amigos e usou crack de novo. Bateu o arrependimento e ele tomou outra dose. “Desde então estou tranquilo”, garante. Hoje, ele coordena uma comunidade terapêutica em Ponta Grossa que acolhe adolescentes em situação de rua.

A dificuldade da expansão do tratamento

O sucesso dos experimentos com ibogaína chamou a atenção da prefeitura de São Paulo. Há tempos a cidade enfrenta o problema do crack na região da Cracolândia e, para alguns agentes de saúde, a planta poderia ajudar a diminuir o números de viciados. Algumas conversas aconteceram, mas os pesquisadores acharam que ainda não há infraestrutura necessária para tratamento adequado.

“Precisa de muito apoio, passar por uma experiência dessa e voltar a morar na rua ou com poucas condições, sujeito a violência policial, discriminação social, tudo isso pode ser muito arriscado, poderia levar alguém até a um surto psicótico", diz Dr. Schenberg. "A pessoa pode não dar conta de lidar com todo esse material psicológico de trauma, de sofrimento, arrependimento e culpa." (Procurada pelo Motherboard, a assessoria da prefeitura disse que não usa ibogaína no tratamento de dependentes químicos e não respondeu se pretende adotar iniciativa nesse aspecto.)

[Atualização: A Secretaria Municipal de Saúde informou que o tratamento com ibogaína para os dependentes de crack do programa De Braços Abertos foi cogitado, mas que "não fazia sentido qualquer imposição de abstinência", condição necessária por 30 dias para o tratamento proposto pelos pesquisadores. "Seria mais seguro que a prefeitura esperasse por mais evidências científicas para oferecer esse tipo de intervenção", afirma a secretaria em nota enviada por email]

De toda forma, a pergunta que não cala é se a ibogaína pode ser uma cura para o tratamento contra o vício em crack, um problema em muitas regiões do Brasil. O Dr. Rasmussen diz que não: serve, na verdade, como ferramenta para reequilibrar os pacientes. O que traz a cura, afirma, é a percepção do problema. “Todo mundo acha que a ibogaína é uma mágica que a pessoa vai tomar e vai resolver todos os problemas, mas a pessoa tem que avaliar as amizades, os relacionamentos”, opina Felipe.

Outra dificuldade para a popularização da ibogaína é a extração, feita por meio da raiz da planta Tabernanthe iboga. No Gabão, terra natal da iboga, ela está extinção e sua extração é proibida. Há plantas alternativas, como a Vocanga africana, que origina substância similar e que, manipulada, pode ter suas moléculas transformadas na ibogaína. Laboratórios canadenses usam essa técnica pra produzir cápsulas e exportar para outros países.

"A pessoa pode não dar conta de lidar com todo esse material psicológico de trauma, de sofrimento, arrependimento e culpa"

No Brasil, a importação é feita por pessoa física, não por meio das clínicas e laboratórios. A razão disso é que ainda não existe no país uma regulamentação para os tratamentos com a iboga. Em janeiro deste ano, o Conselho Estadual de Política sobre Drogas de São Paulo reconheceu a ibogaína como alternativa para o tratamento de dependência química e autorizou seu uso para investigação científica, mas não existe legislação específica sobre o assunto no país e o tratamento ainda é feito apenas em clínicas particulares e custa cerca de 8 mil reais. O custo, diz Schenberg, é a prova de que o vício não é um problema apenas das regiões pobres do país. “São pacientes de classe média, classe média-alta que buscam esse tratamento”, diz. "Esse é outro mito que rola na sociedade, de que o crack só rola entre os muito marginais e pobres. Não é verdade."

Nos Estados Unidos, a substância é usada em tratamento alternativo de dependentes de heroína e outros opiáceos, principalmente. O uso da ibogaína como parte de um tratamento não é regulamentado no país pelo FDA (Food and Drug Administration), por isso ainda é encarado como experimental e ainda sofre muito preconceito. Será preciso, ao que parece, muitos outros estudos para que a ibogaína possa ser confirmada como aliada ao tratamento de dependência química. Por ora, os resultados indicam que a raiz da cura pode estar por ali.

Letícia Naísa
No Motherboard

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