29 de jul de 2016

“Homem de causas célebres”: quem é Geoffrey Robertson, o advogado de Lula na ONU

Cristiano Zanin e Geoffrey Robertson na sede do Comitê de Direitos Humanos da ONU, em Genebra
Geoffrey Robertson, contratado pela defesa de Lula para representá-lo na Comissão de Direitos Humanos da ONU, já advogou para Julian Assange, dono do Wikileaks, para o ex-lutador de boxe Mike Tyson e para o autor indiano Salman Rushdie.

Robertson foi duro com Sérgio Moro. “Seus telefones, os de usa família e advogados estão grampeados. As transcrições, bem como o áudio das conversas, estão sendo liberados para uma imprensa hostil. O juiz está invadindo sua privacidade e pode prendê-lo a qualquer momento e, em seguida, pode ser julgado sem um júri”, disse ele.

“Na Inglaterra, nenhum magistrado poderia agir dessa maneira. Ele age como uma comissão anticorrupção de um homem só.” É a primeira vez que um brasileiro recorre a essa instância para questionar as instituições do país.

Quem é Geoffrey Robertson?

Resumindo, ele está do lado oposto ao de Moro no sentido profissional e filosófico. O Independent fez um bom perfil dele na época do imbroglio Assange. Destaco alguns trechos:
  • “A transparência conduz a um governo melhor.” Essas palavras poderiam ter vindo de Julian Assange, fundador do WikiLeaks, preso e detido em Londres, aguardando a extradição para a Suécia acusado de estupro. Mas elas podem ser encontrados nas memórias do homem que se mantém entre Assange e o processo no exterior: Geoffrey Robertson.
  • Aqueles que têm seguido a carreira de Robertson não ficaram surpresos ao vê-lo encurtando suas férias para vir defender seu compatriota australiano. 
  • Para Robertson, “a justiça é um grande jogo porque proporciona a oportunidade de ganhar do mais poderoso, do próprio estado. Isso não significa que Davi vai necessariamente matar Golias, mas as leis da batalha irão impedir Golias de matar Davi de maneira desleal”.
  • Geoffrey Ronald Robertson nasceu em 1946 e cresceu em uma casa confortável nos subúrbios de Sydney. Ele quis entrar para o direito depois de ler o processo de Lady Chatterley em 1 960 e de ver o desempenho do advogado de defesa, Gerald Gardiner.
  • Afligido por acne quando adolescente, ele não socializava muito e desenvolveu os hábitos de um workaholic. Robertson era um aluno sério, com, em suas próprias palavras, “uma perspectiva individualista e um pouco puritana”.
  • Ele chegou ao Reino Unido em 1970, achando que a bolsa de estudos em Oxford seria um “desvio agradável” antes de iniciar uma carreira em Sydney. Acabou ficando na Inglaterra. 
  • Iniciada em 1973, sua carreira no Reino Unido é notável, com várias causas célebres. Em 1978, ele defendeu dois jornalistas acusados de violar segredos oficiais quando entrevistaram um oficial de inteligência. A absolvição dos jornalistas foi uma vitória histórica para a liberdade de imprensa. 
  • O foco de Robertson se deslocaria para os direitos humanos e a responsabilização dos governos. Na década de 1990, ele defendeu os quatro diretores da fábrica de ferramentas Matrix Churchill acusados ​​de fornecer ilegalmente armas a Saddam Hussein. O julgamento entrou em colapso depois que o juiz rejeitou as tentativas por parte do governo de suprimir documentos-chave. Um inquérito judicial subsequente descobriu que ministros tinham realmente encorajado a venda de armas. 
  • Robertson esteve no centro das atenções novamente quando defendeu o jornal The Guardian num processo de difamação movido por Neil Hamilton, do Partido Conservador.
  • Houve outros casos menos famosos, mas não menos importantes. Como QC [Conselheiro da Rainha, cargo honorífico], ele processou o ditador malauiano Hastings Banda e defendeu dissidentes detidos por Lee Kuan Yew, de Singapura. 
  • A vida privada de Robertson tem sido tão agitada quanto a pública. Seu casamento com a romancista australiana Kathy Lette o manteve nos holofotes da mídia. Os dois se conheceram em Brisbane em 1990, quando participavam de um programa de televisão na Austrália. Ambos estavam em relacionamentos naquele momento, Robertson com a chef Nigella Lawson e Lette com o executivo de televisão australiano Kim Williams. “Os opostos se atraem” é a explicação de Robertson para a união improvável do advogado liberal com a autora de obras como “Atração Fetal” e “Homens – Um Guia do Usuário”. O casal tem dois filhos, Georgina e Julius. 
  • Robertson escreveu livros polêmicos. Um deles era um julgamento do papa e do Vaticano, outro um trabalho histórico acadêmico sobre John Cooke, o advogado que assumiu a tarefa de processar Charles I após a Guerra Civil inglesa.
  • Robertson não é para todos os gostos. Direitistas não gostam dele. Católicos ficam irritados com seu antipapismo. E o apoio de longa data ao intervencionismo militar humanitário como um meio de levar os criminosos de guerra e violadores dos direitos humanos à justiça levou-o a uma posição um pouco estranha sobre o Iraque. Na edição de 2006 de seu livro “Crimes Against Humanity” ele fala da “retidão moral de derrubar Saddam Hussein e a ilicitude dos meios utilizados para fazê-lo”, com a implicação de que o erro de George W. Bush foi apenas de usar a justificativa errada para o invasão.
  • Em suas memórias, ele descreve como, na sua opinião, a lei pode servir como uma “alavanca para a libertação”. É uma filosofia que orienta toda a sua carreira, seja na corte, no estúdio de televisão, ou nos livros. Seus hobbies são tênis, ópera e pescaria.
Kiko Nogueira
No DCM

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