1 de jul de 2016

Galeria dos corruptos de estimação

http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/?p=8781

Maluf, o decano

O imaginário popular é como o Congresso Nacional em processo de impeachment: não se preocupa com provas. No caso, não por interesse, mas por seguir a sua sabedoria: onde há fumaça, há fogo. Simples assim. A margem de erro é reduzida. Nas galeria dos corruptos do imaginário popular, Paulo Maluf é o decano. O velho safado reage:

– Eu não sou corrupto.

– Mas descobriram outra conta sua num paraíso fiscal…

– Essa conta não é minha.

– Mas tem a sua assinatura…

– Eu nego.

Paulo Maluf está na cena política brasileira há décadas. Foi interventor do regime militar em São Paulo (governador) de 1979 a 1982. Administrou a capital paulista de 1969 a 1971 e de 1993 a 1996. Como diria Leonel Brizola, um filhote da ditadura, à sombra da qual enriqueceu. Em 1985, concorreu, na eleição presidencial indireta, contra Tancredo Neves. Perdeu. Com a morte de Tancredo, deveria ter acontecido uma nova eleição. Nos bastidores, correu forte o boato:

– Maluf vai ganhar.

– Então, é melhor deixar o Sarney assumir. Dos males, o menor.

Procurado pela Interpol, Maluf já escapou de muitos processos. Quanto mais é acusado, menos é condenado. Símbolo do “rouba, mas faz”, sempre tem votos para se eleger deputado federal. Em 2005, foi preso preventivamente sob acusação de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Descobriram uma nulidade no processo e ele acabou inocentado. Maluf é um gato de 77 vidas. Quanto mais suja a sua ficha, menos ele confessa ou perde a pose. Inimigo da esquerda, apertou a mão de Lula numa aliança inédita e ganhou novo ânimo. Em 2012, passou honrosamente a integrar a lista do Banco Mundial dos 150 casos internacionais de corrupção mais importantes e insolúveis.

Nos seus áureos tempos, agora sombreados por corruptos mais em voga, Maluf era personagem de programas humorísticos e contribuía para o enriquecimento da língua portuguesa. Graças aos seus feitos, surgiu o verbo “malufar”: eu malufo, tu malufas, ele malufa, nós malufamos… Quem não malufa na política brasileira? Dado que a justiça brasileira não tem pressa em condená-lo, a francesa foi mais rápida. Em 2016, a 11ª Câmara do Tribunal Criminal de Paris condenou o decano da corrupção brasileira em atividade a três de prisão e a devolver 1,8 milhão de euros. No Brasil, entre muitas façanhas, Maluf é suspeito de ter faturado com a “construção da Avenida Água Espraiada, atual Avenida Jornalista Roberto Marinho. Ele é acusado do crime de corrupção passiva e crimes contra o sistema financeiro. A suspeita é que o prejuízo aos cofres públicos seja de US$ 1 bilhão”.

Por essas e outras, Paulo Maluf é considerado pelo imaginário popular como o mais famoso corrupto de estimação do Partido Progressista (PP) e do país. Além disso, tem senso de humor: “Vou cumprir este mandato de deputado federal em 2018, aos 87 anos. Se estiver com boa saúde, não preciso fazer campanha para deputado. É só dizer que sou candidato que estou eleito. Executivo não tem mais. Ser deputado é tranquilo: trabalho terça, quarta e quinta metade do tempo. Faço de conta que estou trabalhando”. Maluf sempre malufa.

Lula, o inesperado

Na galeria dos corruptos do imaginário popular há espaço para todos os partidos. Se Paulo Maluf é o mais famoso corrupto de estimação do Partido Progressista (PP), Lula já é o mais querido corrupto de estimação do Partido dos Trabalhadores (PT)? Nada destinava Lula, o retirante, o sindicalista, o operário, o primeiro presidente da República vindo de muito baixo, a um lugar de des(honra) no panteão dos corruptos, ainda mais que o PT, fundado por Lula, nasceu disposto a combater a roubalheira e a ser campeão de ética, moral e bons costumes. O que deu errado? Quando tudo mudou?

Lula é, de fato, corrupto ou existe uma campanha movida por ódio de classe contra ele? Nas redes sociais, Lula e sua família aparecem como bilionários. Um deles seria dono da Friboi. Outro, seria dono de todas as terras de Alegrete. Acusações formais não faltam. Uma capa da revista Forbes, jamais feita pela publicação, apresentava o ex-presidente como um dos homens mais ricos do Brasil. Nas operações policiais, ele é acusado de ser proprietário de um sítio em Atibaia, presente ilícito de empreiteiras, e de possuir um tríplex no litoral paulista, mimo dado por um empresário amigo em agradecimento pelos bons negócios realizados com o Estado graças à ajuda do petista. Lula nega. Garante ter ganhado muito dinheiro com palestras. Afirma ter feito o que qualquer presidente norte-americano faz: ajudar as empresas do seu país a realizar negócios no exterior.

A situação de Lula se complicou quando o senador petista Delcídio Amaral foi gravado tentando convencer o delator Nestor Cerveró a deixar o país em troca de ajuda financeira. Lula seria o mandante. Ficou pior quando um grampo flagrou a presidente Dilma enviando-lhe um salvo-conduto, o termo de posse como ministro, que poderia livrá-lo de um mandado de prisão. Lula chegou a ser conduzido coercitivamente para depor em São Paulo. O fato de não ter sido intimado antes lançou suspeita sobre essa ação, que seria política.

Há muito, porém, que a inocência de Lula deixou de ser uma crença genuinamente nacional. Destruir Lula parece ser uma obsessão dos seus inimigos, que temem uma vitória dele nas eleições de 2018. Reduzir tudo a uma conspiração, no entanto, não cobre os enormes buracos abertos na biografia do mais importante líder popular da história recente do Brasil. O poder obrigou Lula a fazer um pacto de classes cujo preço teria de ser pago. Para além disso, Lula se encantou com as facilidades do sucesso? Cedeu à pressão de filhos sedentos de um lugar privilegiado ao sol dos mais ricos? Deslumbrou-se com o acesso à mesa e ao cofre de banqueiros e empreiteiros?

Seria Lula vítima do clichê: o poder corrompe? Parte da esquerda ainda resiste à ideia de que Lula seja corrupto. Outra parte, desespera-se. A direita, quase indiferente à corrupção dos seus, sonha com o dia em que verá Lula preso. Por que tanto ódio? Por ter sido a corrupção do chamado lulopetismo a maior da história brasileira? Ou por ressentimento contra esse intruso no banquete dos poderosos? Lula navega entre o passado e o futuro. Sem presente.

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