11 de jul de 2016

Esquerda brasileira perdeu as ruas porque é ruim na internet, diz ativista digital espanhol

Toret foi uma das lideranças na rede do 15M
Foto: Guilherme Santos/Sul21
Convocadas por diversos movimentos sociais com atuação na internet, em 15 de maio de 2011, milhares de pessoas ocuparam a praça Puerta del Sol, em Madri, em protesto contra as políticas de austeridade impostas pelo governo espanhol. Após o ato, um grupo de pessoas decidiu passar a noite acampado no local, mas foi violentamente reprimido pela polícia. Vídeos da ação policial viralizaram na internet e novos protestos foram convocados para o dia seguinte, espalhando-se rapidamente pelas principais cidades da Espanha. Surgia assim o movimento 15M, também conhecido como Os Indignados, que nos anos seguintes realizaria grandes mobilizações de massa e daria origem a partidos que mudariam o cenário político espanhol, sendo o principal deles o Podemos, responsável por ameaçar a histórica alternância do poder entre apenas dois partidos, o PP (centro-direita) e o PSOE (centro-esquerda).

Por trás do 15M, estavam uma série de ativistas digitais e intelectuais que, sem espaço na mídia tradicional, aproveitaram as redes sociais para conquistar espaço e dar um sentido para as mobilizações de massa. Um deles, Javier Toret Medina, passou por Porto Alegre na última semana, onde participou de reuniões com a pré-candidata à prefeitura de Porto Alegre Luciana Genro (PSOL) e conversou com o Sul21.

Toret explica que o 15M surge em um contexto de efervescência de discussão política na rede que vinha desde a crise econômica de 2008, que gerou a explosão do desemprego de jovens, e também contra a chamada Lei Sinde, que levava o nome da ex-ministra da cultura Ángeles González-Sinde e regulamentou o download de arquivos na internet. “Criou-se uma massa crítica na internet”, explica.

Somado a isso, também havia as recentes revoluções que ficaram conhecidas como Primavera Árabe e tiveram início na Tunísia, em 2010, e se caracterizavam por grandes mobilizações de massa sendo convocadas e divulgadas primordialmente por redes sociais.

Quando explodiu o movimento do 15M, esse caldo já existente fez com que as mobilizações populares rapidamente ganhassem uma grande dimensão, mesmo não sendo noticiadas pela mídia tradicional. “As pessoas estavam conectadas, porque queriam saber como tinham sido as outras manifestações, se tinham sido grandes. Quando saiu a Acampada Sol [acampamento na praça de Madri], todo mundo estava olhando os streams e o Twitter. No momento em que despejaram as pessoas à noite, os vídeos virais do despejo “bombaram”. Então, as pessoas convocaram [nova manifestação] para o dia seguinte. A solidariedade ante o despejo e o ato legítimo que era estar lá fez crescer o movimento”, explica Toret.

Ao mesmo tempo em que as mobilizações tomavam as ruas, também ganhavam força páginas e perfis nas redes sociais dos movimentos que estavam organizando as manifestações. A página Democracia Real Já, da qual Toret fazia parte, era uma das responsáveis por passar informações e fazer uma espécie de “controle da narrativa”. Outra era o perfil Acampada Sol, que transmitia ao vivo por streaming os atos. “Lembro que, no dia que reocuparam a praça, as pessoas começaram a cantar: ‘Ha em-pe-za-do la revolución‘ [Começou a revolução, em tradução livre]. Vendo o streaming, ficamos todos loucos. Vamos ocupar todas as praças!”

Através desse processo de retroalimentação entre rua e rede, mais de 8,5 milhões de pessoas participaram de alguma forma dos movimentos do 15M, segundo Javier, o que abriu a oportunidade para a mudança da cultura política na Espanha. “Já não acreditávamos no bipartidarismo. Eles não nos representam”, diz Toret. “As pessoas odeiam os partidos. Eu também, apesar de ter montado três”, brinca.

Também foi aberta porta para novas lideranças entrarem na esfera institucional, gestadas a partir das pautas do 15M. “Havia uma crise muito grande das instituições. Partidos e sindicatos existentes perderam muita popularidade, com índices de 10%, 15% e 20% [de aprovação]”, diz Toret. Por outro lado, após os atos, as plataformas e movimentos vinculados ao 15M gozavam de 70% e 75% de aprovação.

O primeiro partido que tentou reivindicar o DNA do 15M foi o Partido X, que carregava uma aura de ciberativismo que remetia ao Anonymus e aos partidos piratas de outros países da Europa. Posteriormente, surgiu o Podemos, ocupando uma posição à esquerda do tradicional PSOE e que logo em sua primeira eleição para o Parlamento Europeu elegeu cinco eurodeputados. “Uma força que não existia três meses antes”, diz. “O Podemos, em seis meses, era a primeira força em intenção de votos. Mas o que aconteceu? O poder reagiu. Os bancos diziam: ‘precisamos de um Podemos de direita’. As empresas apoiaram o partido Ciudadanos. Colocaram muita grana”, afirma, referindo-se ao Ciudadanos, outro partido que surgiu nos últimos anos e hoje é a quarta força política da Espanha.

Em junho de 2013, o Brasil também teve protestos semelhantes ao movimento dos indignados. Apesar de, inicialmente, serem consideradas mobilizações à esquerda do governo do PT, as jornadas de junho, pelo menos até agora, não conseguiram fazer a transição de suas pautas das ruas para o campo político. Ao contrário, gradativamente, as ruas foram sendo disputadas e ganhas por movimentos conservadores e de direita.

Um dos motivos que explicaria o efeito seria a falta de organização na internet. Diferentemente da Espanha, a narrativa das redes sobre as manifestações não foram controladas por quem as estava organizando nas ruas. “Analisando os gráficos do Twitter sobre as mobilizações de junho, só aparece a direita. Das manifestações que ocorreram desde 2011, Primavera Árabe, Occupy Wall Street, Espanha, Turquia, Hong Kong, Paris, o único lugar onde os gráficos mostram a direita na liderança das redes é o Brasil”, afirma Toret. “Também porque os movimentos de esquerda daqui são inúteis na internet. São muito ruins”, dispara.

Como problema de atuação nas redes, Toret cita, por exemplo, que o Movimento Passe Livre, que pode ser identificado como o principal desencadeador das mobilizações, sequer tinha um perfil no Twitter para expressar suas posições ou ao menos criar hashtags para difundir os atos. “Se só tivessem perfil, sem ter tuitado, teriam milhares de seguidores. Mas renunciaram. A direita pensou: ‘perfeito'”, afirma.

Por outro lado, Toret diz que os movimentos que compunham o 15M tinham a preocupação de pautar diariamente a comunicação da mobilização e colocavam nessa tarefa os melhores ativistas digitais, o que incluía ele próprio. Também eram movimentos que carregavam a bandeira dos “sem partido”, mas existiam cabeças por trás e lideranças coletivas, segundo Toret. “Os perfis mais importantes foram uma escola para os demais”, afirma.

Da Espanha para a eleição de Porto Alegre

De ativista, Toret se transformou em um dos principais analistas de atividade política nas redes sociais de se país, com um relevante trabalho em análise e investigação de dados. Ele coordenou as redes sociais da vitoriosa campanha Ada Colau para prefeita de Barcelona, em 2015.

Uma das principais caras novas da política espanhola que surgiu na esteira do 15M, Ada Colau tinha uma trajetória de ativismo social a partir do início do século, mas sem ligação com partidos. Mesmo assim, logo em sua primeira eleição, como líder de uma coligação de partidos de esquerda, a Barcelona en Comú (BC), da qual o Podemos era o partido mais forte, conseguiu a vitória.

“Tivemos uma rede de ativistas digitais muito boa e trabalhamos muito para que a nossa base digital tivesse força na campanha. Cada ativista era um meio de comunicação. Nós tivemos cinco vezes mais menções e retuítes do que a segunda força em Barcelona. Tivemos 53 horas de trending topic em Barcelona e 47 na Espanha. O segundo partido de Barcelona teve uma hora”, diz Javier.

Surgida na onda do movimento 15M e com apoio de seus ativistas digitais, esta nova coligação de esquerda já controla sete prefeituras, incluindo Barcelona e a capital Madri, e, nas últimas eleições gerais, realizadas em junho, obteve 71 deputados — ainda insuficiente para assumir o governo da Espanha, mas capaz de se consolidar como uma força a ser ouvida no Parlamento espanhol.

Apesar de serem gestões novas, os governos de esquerda de Barcelona e Madri tem como uma das principais políticas a ampliação da participação popular pela internet. “São plataformas de democracia em rede e democracia digital que permitem que as pessoas façam propostas, possam debater e votar. No caso de Madri, precisa ter apoio de 2% do censo, 50 mil assinaturas, para que vá diretamente à votação no conselho municipal [equivalente à Câmara de Vereadores] e o governo de Madri assume o compromisso de apoiar essas propostas”, explica Toret.

Já em Barcelona, segundo Toret, o novo Plano Diretor da cidade está sendo moldado a partir de discussões em uma plataforma digital, tendo tido a participação de mais de 20 mil pessoas online e de 10 mil em audiências presenciais.

São estas experiências digitais, tanto em termos eleitorais quanto de gestão democratizada — um conceito que ele chama de tecnopolítica —, que Toret está trazendo para ajudar na campanha de Luciana Genro em Porto Alegre.

Luís Eduardo Gomes
No Sul21

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