13 de jul de 2016

E se Marco Feliciano testasse a “cura gay” em si próprio?

Ele
No “debate” entre Marco Feliciano e o vlogueiro Felipe Neto, um dos momentos mais estapafúrdios entre tantos momentos estapafúrdios foi quando Feliciano declarou conhecer “mais de 5 mil” gays.

“Desses 5 mil, 90 por cento deles passaram por abuso sexual na sua infância. Foram abusados por algum adulto. Noventa por cento. Os outros dez por cento que sobraram tiveram transtorno com a figura do pai, transtorno com a figura da mãe. Foram violentados”, disse.

Feliciano e a bancada evangélica têm uma obsessão sinistra com o tema, que desemboca nas iniciativas mais disparatadas.

Em 2013, Marco Feliciano aprovou na Comissão de Direitos Humanos e Minorias um projeto de lei de um colega propondo a “cura gay”. A coisa acabou não indo adiante, já que todas as entidades médicas rechaçam essa pilantragem.

Mas ele não desiste. Garante que conhece várias pessoas que “largaram” de ser homossexuais.  Em junho do ano passado, convocou oito pessoas que afirmavam ser ex-gays para dar um depoimento.

Deputados obscurantistas ainda não descobriram uma cura para a estupidez, a paranoia, o ódio, a hipocrisia, a roubalheira ou a preguiça.

O próprio Feliciano deveria passar por esse tipo de tratamento antes de prescrevê-lo aos outros. Algumas das técnicas usadas na chamada cura gay:
  • “Profissionais” ligam eletrodos na genitália e passam filmes pornôs gays. Dependendo da reação, choque.
  • Um emético é servido aos “pacientes” durante a exibição de — novamente — pornôs gays. O sujeito vomita enquanto assiste.
  • Um outro método conhecido: reza. Ou, como fanáticos chamam, “intervenção espiritual”. Há sessões de “descarrego”.
  • Em abril de 2012, o escritor Gabriel Arana descreveu sua experiência: o terapeuta culpou seus pais por sua homossexualidade e pediu-lhe para se distanciar de suas melhores amigas.
  • Um jovem americano processou seu psicanalista depois que ele pediu que ele se despisse e se tocasse para se “reconectar com sua masculinidade”.
Nos EUA, Obama pediu a extinção dessa picaretagem. “Partilhamos da preocupação a respeito dos efeitos devastadores sobre as vidas de trangêneros, gays, lésbicas e bissexuais”, disse a assessora da Casa Branca, Valerie Jarret. Foi uma reação ao suicídio de Leelah Alcorn, transgênero de 17 anos que se atirou na frente de um trator.

Lá como cá, essa empulhação é uma obsessão da direita religiosa. Desde 1990 a Organização Mundial da Saúde não considera a homossexualidade uma doença.

Para além da burrice, do atraso e da demagogia, está a velha vontade de ganhar dinheiro. A proposta da cura gay mudaria  uma resolução no Conselho Federal de Psicologia. “É direito do profissional conduzir sua abordagem conforme a linha de atuação que estudou e prefere adotar”, diz o autor do projeto, deputado João Campos.

Em 2013, pelo menos seis clínicas brasileiras ofereciam serviços de “conversão” — todas elas, evangélicas. Dependendo do que Feliciano conseguir, eis mais um filão a ser explorado por oportunistas em nome de Jesus.

Kiko Nogueira
No DCM

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