14 de jul de 2016

Dilma ao Cafezinho: os grandes meios de comunicação foram protagonistas do golpe

Presidenta Dilma Rousseff durante Entrevista para Miguel do Rosário, O Cafezinho no Palácio da Alvorada.
Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Fim de tarde, quarta-feira, 13 de julho de 2016.

O sol declinava rapidamente em Brasília, vazando uma luz fraca pela imensa janela da biblioteca do Palácio da Alvorada, onde eu aguardava a presidenta para uma entrevista exclusiva para o blog O Cafezinho.

A presidenta entrou com seu andar levemente gingado, quase dançante, mas firme. Num homem, diríamos que é um andar enérgico, viril. O seu toque feminino está justamente na ginga, no balanço sutil dos ombros para lá e para cá, e que lhe confere um jeito moleque, atrevido, brasileiro.

Ela vem sorrindo, mas um pouco abatida. A minha entrevista fora marcada para as 15 horas, depois adiada para as 17, por causa de reuniões de urgência entre a presidenta e alguns senadores. A entrevista começou enfim pouco depois das 18:00, quando a presidenta devia estar naturalmente cansada após mais um dia exaustivo. Além disso, parecia — como se percebe pela voz — um pouco resfriada.

Antes de ligar a câmera (na verdade, meu celular), mostrei à presidenta o seguinte gráfico, tirado da íntegra do relatório da última pesquisa CNI/Ibope sobre aprovação de governo. Esse gráfico, por razões óbvias, não apareceu na grande mídia. A íntegra do relatório foi publicada discretamente no site do Ibope há alguns dias, e ninguém o comentou, com exceção do Cafezinho.

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Como se vê, a partir de junho de 2015, a mídia brasileira passou a agir em "modo golpe". O noticiário sobre o governo passa do altamente negativo para o histericamente negativo, atingindo picos de 75% e 76% às vésperas da votação do impeachment na Câmara.

Assim que a presidente é afastada, porém, as notícias negativas desabam para 40%, enquanto o noticiário positivo vai a 18%, o maior nível desde março de 2014.

A partir desse gráfico, a gente começou a conversar.

Parte 1: o papel da mídia no golpe.



Dilma: O grau de consciência da sociedade sobre como a mídia distorce a realidade, eu não sei se é razoável. Agora, acredito que, a partir desse golpe, temos uma massa crítica, para discutir o papel da mídia no Brasil. Pra discutir as distorções desse papel. Aí o debate é possível, porque está baseado numa realidade concreta. Se haverá correlação de forças para alterar alguma coisa, no curto ou médio prazo, isso é algo que está para se ver. Mas agora a gente tem massa crítica para tentar a discussão, pelo menos.

Agora, você tem hoje um grande argumento sobre o qual você pode discutir bastante.

Miguel do Rosário: A senhora que a mídia foi um agente protagonista no golpe de Estado?

Eu vou falar das grandes empresas. Dos grandes conglomerados de mídia, que tem uma orientação única. Eu acredito que, sem sombra de dúvida, houve por parte desse segmento uma participação protagonística, ou seja, não agiram a reboque de ninguém, foram sujeitos atuantes na estruturação e na organização no processo do meu afastamento. Não tenho dúvida de que participaram da articulação desse golpe.

Parte 2: as diferenças entre o golpe de hoje e o de 1964; e a questão do petróleo no Brasil.



Eu acho que o golpe de hoje é diferente. Não é possível pensá-lo com os mesmos instrumentais do golpe militar. Primeiro porque o mundo mudou. E a crise que levava a um certo tipo de ruptura, quando havia guerra fria, não existe mais dessa forma no mundo. E mais: eu não acredito que as forças internas oligárquicas, ou financeiras, ou midiáticas, que organizaram o golpe, precisam da interferência internacional. Então eu faço essa distinção clara. Eu acho que é um golpe parlamentar, de tipo novo, que se parece muito mais a um ataque às instituições por dentro, utilizando as suas fragilidades. Acontece o seguinte: do ponto de vista internacional, esse golpe, não por conta da interferência deles, mas por conta das opções ideológicas e políticas daqueles que deram o golpe, pode beneficiar sim interesses geopolíticos estranhos à nossa soberania. Mas isso é outro departamento. Aí está na responsabilidade deles. Quando, sem pedir reciprocidade, eles pegam 100% da aviação comercial do Brasil, e abrem para o capital estrangeiro, desnecessariamente, não é porque o capital estrangeiro os obrigou, é porque eles se comportam assim, de forma submissa ao capital estrangeiro. Tradicionalmente como é que ocorre nos outros países? Pede-se reciprocidade. Nem isso foi pedido. Reciprocidade, ou seja, se eu abro aqui, eles abrem lá. Essa é uma troca.

No caso, por exemplo, do petróleo, não é possível supor que a sociedade brasileira vai deixar que se comprometa o modelo de partilha.

Porque o que está em questão, na verdade, em relação ao petróleo, é o modelo de partilha.

Porque o modelo de partilha te deixa claro, à diferença do modelo de concessão. No modelo de concessão, você não sabe onde tem petróleo, você não sabe a qualidade do petróleo, você não sabe quanto petróleo tem. Então quem explora, corre um grande risco, financeiro, tecnológico, etc. E aí, qual é a regra: quem achou petróleo, é dono do petróleo, e paga ao Estado royalties e participações especiais. O petróleo é dele.

No modelo de partilha, você tem um polígono, que é o pré-sal, onde você sabe que tem o pré-sal. Tem uns que chamam de polígono de ouro, outros chamam de polígono de prata, porque ali se sabe que estão os recursos principais do Brasil. E aí, porque o modelo é de partilha? Porque você sabe onde está o petróleo, você sabe a qualidade dele e você sabe que tem muito.

Daí porque quando você acha o petróleo, o petróleo não é de quem acha. É de quem? Entre 70 e 75% é da União. Não é de nenhuma empresa. É da União, do Estado nacional brasileiro. Os outros 25% são distribuídos entre as empresas que vão assumir o processo de produção.

Então, o que que significa? Na concessão, a parte do leão é de uma empresa, privada ou pública, a Petrobrás ou outra empresa. No caso da partilha, a parte do leão é do Estado. É pública. E isso considerando a parte da Petrobrás afastada disso. A Petrobrás tinha 30% em Libra. 30% em 25%, ou 7%,5%. E as outras empresas tinham também esses valores.

O modelo de partilha é que dá o controle do governo brasileiro sobre o pré-sal.

É o modelo de partilha!

É a forma de repartição.

Por que? Onde está o grande lucro do petróleo. Sabe onde? Na venda do petróleo. Porque você extrai por um custo, e vende por outro.

É aí que está o grande lucro do petróleo.

E quando você cria o fundo social, você coloca uma parte grande dele para ser investido em educação e saúde. Isso significa um passaporte para o futuro.

Que eles tem interesses geopolíticos em qualquer petróleo do mundo, as grandes empresas, as grandes potências, é óbvio que tem.

Agora, eles hoje não estão na fase de fazer intervenções em países como o Brasil para pegar esse petróleo.

Não estão nessa fase.

Mas o que pode ocorrer é que as elites locais, ou queiram vender esse petróleo a preço de banana, ou mudar o regime de exploração, e criando um regime de concessão, produzindo imediatamente grandes lucros para as empresas. Não precisa de intervenção militar. Não precisa de intervenção política.

É só você ter uma ideologia extremamente pouco séria em matéria de soberania nacional.

Parte 3: Sobre a Lava Jato e a destruição de empresas nacionais.



O que é absurdo é a instituições brasileiras deixarem empresas de engenharia, de construção, serem destruídas, por contra de operação de investigação de corrupção. Vou me explicar: eu sou francamente favorável às investigações, e barrar a corrupção no Brasil. Acho que ela é nefasta para o povo mais pobre e para a classe média e só beneficia quem a pratica. Ela é nefasta.

Agora, todos os países do mundo tem processo de corrupção. Essa história de que aqui é o reino da corrupção não é real. Você teve recentemente um exemplo no mundo de um processo gravíssimo que foi a crise financeira, a quebra do Lehman Brothers, e toda a especulação baseada no uso de derivativos e de processos de enriquecimento ilícito e indevido, de poucas pessoas na área financeira. Porém como eles se comportaram lá? Eles deram multas, mas não impediram as empresas de continuarem operando. Deram crédito às empresas. Não acabaram com os empregos nem destruíram as empresas. Aqui no Brasil, por um pretenso moralismo, se ataca quem não se deve atacar. Tem que se punir os corruptos. Tem que se investigar e punir os executivos. Mas não se pode quebrar a empresa. Não se pode destruir inclusive um conhecimento que se expressa na empresa.

Não é porque internacionalmente alguém bolou. É porque as nossas instituições são frágeis. Nós temos de pegar o nosso destino nas nossas mãos! Somos nós que temos de defender as empresas nacionais! Somos nós que não podemos deixar que a cadeia de petróleo e gás, responsável por 2 a 2,5% do PIB, se dissolva. Somos nós!

Nós é que temos de criar as instituições e as legislações que impeçam isso!

A senhora acha que seria muita teoria da conspiração a gente pensar que houve uma intenção deliberada de quebrar essas empresas para se criar caos econômico e instabilidade política, para se gerar uma atmosfera propícia ao golpe?

Olha eu vou te dizer que eu não acredito numa conspiração tão lógica. Não acho que tenha essa lógica tão cartesiana, tão rígida. Agora, quem se beneficia com isso você tem de se perguntar, porque faz parte de qualquer análise você se perguntar isso.

Agora eu não acho que leva a alguma coisa, a gente deixar de perceber que foram nossas contradições que levaram a essa situação. Perceber que são nossas contradições que levaram a isso é fundamental para a gente poder reverter. Porque, veja, eu vi cálculos dizendo o seguinte: o efeito da Lava Jato, sobre a cadeia de petróleo e gás e sobre a cadeia de construção pesada, do outro lado, equivale de 1,5 a 2,3% do PIB. Isso é muito grave! Então você tem de tomar sim providências.

Parte 4: Sobre o plebiscito.



Sobre o plebiscito. Temos a votação do impeachment depois das Olimpíadas, e há um debate na sociedade sobre qual argumento pode convencer os senadores que ainda estão indecisos, para votarem contra o impeachment, e o argumento seria o plebiscito. Qual a opinião da senhora sobre isso?

Eu acho que a questão do plebiscito é uma afirmação. Diante do que? Duas coisas. Primeiro diante do fato de que esse processo de impeachment sem crime de responsabilidade, que nós chamamos de golpe, ele é uma espécie de eleição indireta. Ele tenta normalizar algo contra o qual nós lutamos, que era as eleições indiretas tradicionais, para presidente, governadores, prefeitos de capital, que havia na ditadura militar.

Nós temos de ser contra qualquer método de levar ao poder dirigentes políticos do Brasil sem consultar o povo, sem passar pelo povo.

E além disso, você tem um problema seríssimo de governabilidade.

Fernando Henrique tinha necessidade de três partidos para fazer maioria simples, e de quatro para fazer absoluta. Absoluta que é dois terços. O Lula, oito e onze, respectivamente. Eu, catorze a vinte, e ainda sim dependendo... porque nem os partidos têm unidade interna.

Então você tem uma fragmentação, e uma imensa capacidade de haver processos de cooptação ou até de corrupção de parlamentares, como esse denunciado outro dia pelo jornal O Globo, mas já dito por outros jornais várias vezes. Isso é gravíssimo! Você não terá um Brasil mais avançado, e mais evoluído, nós não sairemos da crise para uma situação melhor, se a gente não tiver uma reforma política, que trate não só do financiamento de campanha e das condições dele, mas do sistema eleitoral, etc...

Miguel do Rosário
No Cafezinho

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