4 de jul de 2016

Descartado, Cunha ameaça seus comparsas

Cunha antes e depois
A cena de Eduardo Cunha, solitário e cabisbaixo, na mesa de um hotel em Brasília durante entrevista coletiva na semana passada revela o quadro de isolamento do ex-todo-poderoso presidente da Câmara Federal.

Na ocasião, ele até tentou esbanjar valentia, garantido que não renunciará ao seu mandato e nem participará da “delação premiada” da Lava-Jato.

Mas seus comparsas no “golpe dos corruptos”, que deflagrou o impeachment da presidenta Dilma, não estão tão seguros destas bravatas.

Crescem os boatos de que o correntista suíço, temendo a sua cassação e prisão — e, principalmente, às represálias à sua esposa, Cláudia Cruz, ex-apresentadora da TV Globo — ligará em breve o ventilador no esgoto!

“Abandonado” e “deprimido”

A coluna Painel da Folha desta segunda-feira (27) confirma o receio do covil golpista com a possível “delação premiada” do achacador.

Segundo Natuza Nery, o peemedebista teria enviado “mais de um recado para que Michel Temer pense duas vezes antes de abandoná-lo”.

Já uma notinha postada na revista Época confirma que a valentia exibida na entrevista coletiva é pura encenação.

“O presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, está deprimido como nunca antes. Sente-se abandonado, sem saída e tem dificuldades até para contratar um advogado, pois todos defendem outros clientes e têm conflitos de interesse. Todas as opções políticas à frente de Cunha envolvem alguma saída criminal”.

Sua depressão piorou ainda mais nesta quarta-feira (22), quando o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, tornar o lobista réu por garfar R$ 5 milhões de propina em contas não declaradas na Suíça.

Esta é a segunda vez que Eduardo Cunha é derrotado no STF. Agora ele deve responder pelos crimes de corrupção ativa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas — e não somente por ter mentido sobre as suas contas no exterior. A sentença acelera o processo da sua cassação — o mais longo da história da Câmara Federal — e ainda pode agilizar o trâmite para o pedido de sua prisão.

Para complicar ainda mais sua situação, o STF também negou recurso da defesa e manteve a decisão de remeter ao juiz Sérgio Moro os processos contra a sua mulher, Cláudia Cruz, e sua filha, Danielle Cunha.

Até agora, porém, o “justiceiro” nem ouviu a jornalista, alegando não encontrá-la por duas vezes. Haja incompetência!

Caso o juiz cumpra a sua função — deixando de lado sua obsessão doentia contra o PT, que é alvo até da ação cinematográfica de policiais fortemente armados –, Cláudia Cruz finalmente poderá ser convocada para depor sobre as contas ilegais da família na Suíça. Isto é o que mais apavora o presidente afastado da Câmara Federal.

“Cunha autorizou gastos em lojas de luxo”

Na única vez em que foi ouvida pela Operação Lava-Jato, a jornalista não vacilou em responsabilizar o seu marido pelas mutretas.

“Cláudia Cruz afirmou em depoimento que a abertura de conta secreta no exterior foi sugerida pelo deputado e que o próprio autorizou os gastos em lojas de luxo. Ela disse acreditar que os recursos eram provenientes de atividades de Eduardo Cunha no mercado financeiro e empresarial e que nunca fez perguntas sobre a origem do dinheiro”, relatou a Folha, que acrescentou:

“O depoimento de Cláudia Cruz foi dado no dia 28 de abril, sob o acompanhamento de seu advogado. A filha do peemedebista, Danielle Dytz da Cunha, também prestou depoimento no mesmo dia. Numa linha de defesa para tentar voltar a ser investigada no STF, as duas tentaram reforçar que Cunha era quem comandava a vida financeiras delas… Publicitária e prestando consultorias na área de internet, Danielle afirmou aos investigadores que tem renda mensal entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, sendo ainda financeiramente dependente de Cunha. Ela também apontou que todos os gastos eram autorizados por seu pai e que não tinha conhecimento da conta no exterior”.

Temer e os favores ao Grupo Libra

A possível prisão de Cláudia Cruz e Danielle Dytz reforça a hipótese do valentão aderir ao programa de “delação premiada” da Lava-Jato, o que apavora seus comparsas que tomaram de assalto o Palácio do Planalto.

Em um dos seus momentos de depressão e pânico, Eduardo Cunha chegou a enviar um recado ao Judas Michel Temer.

Segundo matéria do Estadão de 12 de junho, ele garantiu que, se cair, “levará junto outros 150 deputados federais, um senador e um ministro próximo ao interino”.

Não é para menos que o presidente golpista evita criticar o seu principal aliado na conspiração que derrubou Dilma Rousseff.

Os dois sempre mantiveram relações carnais nos bastidores do PMDB.

Um vazamento recente evidência a carga inflamável desta antiga relação.

Sem maior alarde, a Folha publicou no início de junho: “A força-tarefa da Lava Jato em Curitiba investiga um pagamento de R$ 591 mil realizado por empresa do grupo Libra, doadora do PMDB, à mulher do deputado afastado Eduardo Cunha. O pagamento foi detectado pelos investigadores nas contas da empresa C3 Produções Artísticas e Jornalísticas, de Cláudia Cruz. A Libra opera um terminal no porto de Santos, área de influência do PMDB e do presidente interino Michel Temer… A empresa já foi beneficiada por Cunha no Congresso. Uma emenda apresentada pelo deputado à medida provisória dos portos, em 2013, permitiu que a Libra aderisse a uma arbitragem para sanar sua dívida com a União”.

Descartado pelos comparsas após a concretização do “golpe dos corruptos”, Eduardo Cunha poderia até usufruir de algumas vantagens da “delação premiada” conferidas aos mafiosos, conforme ironizou recentemente o jornalista Bernardo Mello Franco. Vale conferir o seu artigo:

A tentação da delação

Folha de S.Paulo, 21/06/2016

A praia do Futuro é uma das mais procuradas por quem gosta de relaxar ao sol de Fortaleza. Em torno de suas areias cresceu o bairro Dunas, endereço de mansões protegidas por muros altos e cercas eletrificadas. É numa delas que repousa Sérgio Machado, o ex-presidente da Transpetro que abastecia políticos com dinheiro do petrolão.

Depois de delatar os comparsas, o peemedebista foi premiado com o regime de prisão domiciliar. Não passou um único dia na cadeia e foi autorizado a se recolher ao conforto do lar, onde poderá matar o tempo entre a piscina, a quadra poliesportiva e a churrasqueira. Ele ainda terá autorização para sair de casa em ao menos oito datas até 2018, quando se livrará da tornozeleira eletrônica.

Machado não é o único réu do petrolão a levar uma doce vida depois de fechar acordo de delação com a Lava Jato. Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras, habita um condomínio exclusivo em Itaipava, na região serrana do Rio. É vizinho de altos executivos e de um ministro do Supremo, que acumulou patrimônio como advogado de renome.

Pedro Barusco, o ex-gerente da estatal que organizava planilhas de propina, aproveita o mar em Angra dos Reis. No ano passado, foi fotografado à vontade numa cadeira de praia, dando baforadas num charuto e tomando cerveja. Ele cumpre pena em regime aberto, que dispensa a companhia da tornozeleira.

Eduardo Cunha, o deputado, levou uma vida de milionário no período em que a Petrobras era saqueada — na certa, uma coincidência. Hospedou-se nos hotéis mais caros do mundo, jantou nos melhores restaurantes e colecionou carros importados, alguns registrados em nome da empresa Jesus.com.

Agora Cunha está ameaçado de prisão e ouve conselhos para oferecer uma delação à Lava Jato, hipótese que assombra figurões no Congresso e no governo interino. Os exemplos de Machado, Costa e Barusco devem ajudá-lo a decidir.

PS do Viomundo: A primeira denúncia de corrupção contra Temer (ver abaixo) envolvia o Grupo Libra, que controla os terminais 34 e 35 do porto de Santos. É o mesmo grupo empresarial cujos donos, nas eleições de 2014, contribuiram com a caixinha para ajudar o vice a eleger apaniguados. A concessão dos terminais foi renovada recentemente graças a uma emenda apresentada à Lei dos Portos por Eduardo Cunha.

Altamiro Borges

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