12 de jul de 2016

Desaparecido, Aécio Neves virou o pato manco da política brasileira

É
Tecnicamente, a expressão lame duck, pato manco em inglês, se refere ao político cujo sucessor já foi eleito. Nos EUA, o termo é aplicado para presidentes em fim de mandato ou para os que não se reelegeram mas ainda têm tempo até entregar o cargo.

Num sentido mais amplo, é o político sem poder de fogo, uma carta fora do baralho, um morto em vida. Aécio Neves é o pato manco do Brasil.

Suas aparições públicas, sempre indignadas com a da corrupção do PT, foram escasseando na mesma medida em que se avolumaram as citações na Lava Jato.

Aécio hoje se comunica com um público um pouco maior que a sua plateia cativa através de sua coluna na Folha, que repercute menos e menos. Há três semanas ele falou do Brexit; depois, do aniversário de 22 anos do Plano Real.

Seu perfil no Twitter foi atualizado no dia 9 de julho. Fotos com um Zico obscenamente barrigudo acompanhavam a legenda papo furado sobre ele “ainda bater um bolão fora do campo”.

Aécio desapareceu em sua manquitolagem. Foi vítima, sobretudo, de sua ambição e da crença de que era intocável. Crença esta, aliás, amparada na realidade, já que sua carreira na impunidade atravessou décadas.

Não era o ele esperava. Afinal, Dilma foi afastada e Lula tem de lidar com Sérgio Moro. O impeachment deve muito a Aécio, que não aceitou a derrota em 2014 desde a primeira hora e apostou todas as fichas na instabilidade.

Aécio preside, por enquanto, o PSDB, mas vê a sombra de Alckmin crescer sobre seu jardim. Não há delação em que não apareça: na do doleiro Alberto Yousseff, na de Delcídio Amaral, na do ex-deputado Pedro Corrê, na do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

O escândalo de Furnas, cuja lista a Veja trabalhou tenazmente para desqualificar, ressuscitou com toda a força. Machado disse que ajudou-o a levantar 7 milhões de reais, em 1998, e distribui-los entre 50 tucanos na campanha de Aécio para a presidência da Câmara. De onde veio isso, tem mais.

Aécio tentou responder à maioria das acusações, até que chegou o momento em que simplesmente não deu conta diante da quantidade e do impacto.

Teve de engolir Michel Temer roubar seu papel de comandante do golpe. Temer representava menos risco. Uma cena emblemática marcou esse fim de linha: sua expulsão, aos gritos de “ladrão” e “filho da puta”, da manifestação coxa na Paulista em 13 de março. Aquilo doeu. O protesto era dele. Aquele era seu povo.

Atualmente, age nos bastidores. Para quem viveu sob os holofotes, é uma mudança triste. Isso era para o Cunha, ora. No domingo, jantou com o interino no Palácio do Jaburu para falar sobre a eleição do presidente da Câmara.

Em junho, Sonia Racy escreveu, em sua coluna no Estadão, que ele “tem lembrado a amigos que nunca foi a favor do impeachment”. A antiga blindagem na imprensa caiu, Serra dá suas cacetadas como ministro, Alckmin tem falado por aí, sem fazer questão de esconder de ninguém, que “sobrou” ele no partido. Nem FHC menciona mais o seu nome.

O bonde de 2018 está perdido e sua desconstrução segue firme. Napoleão observou que do sublime ao ridículo é apenas um passo. Aécio Neves foi de futuro da nação a pato manco de um só golpe.

Kiko Nogueira
No DCM

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