7 de jul de 2016

Delegado Eduardo Mauat: foi por ideologia ou pelas diárias?

O vídeo inserido pelo movimento NasRuas, com o delegado federal Eduardo Mauat conclamando a sociedade a questionar medidas administrativas adotadas pelo Departamento de Polícia Federal (DPF) é algo sui generis. Confesso que em 42 anos de jornalismo não vi nada igual. Menos ainda sem qualquer reação da cúpula do DPF dfiante de um ato que soa – pode até não ser – uma insubordinação.

Curioso é que o próprio delegado fala que na instituição há profissionais capacitados para darem continuidade ao trabalho. Se ele próprio reconhece isso, o que o leva defender o questionamento público de atos meramente administrativos? Será que por detrás desta transferência existe outros fatores desconhecidos do público? Quais seriam?

Quem ouve o vídeo, que reproduzimos abaixo, verifica que o conselho do delegado é a bastante democrático:
“Espero que a Lava Jato deixe este legado, legado de questionamento, de inteiração, de protesto, de elogio, seja lá o que for. Que as pessoas questionem mais os problemas nacionais”



Não me cabe aqui questionar se a transferência dele foi ou não algum ato de retaliação. Mas, na medida em que ele sugeriu que “a sociedade é legítima para fazer o questionamento que ela entender pertinente para debater, interagir, para perguntar, o que cada ato vai repercutir no andamento da Operação”, me acho no direito de lhe fazer um questionamento direto. E desde já, como sempre, o espaço do blog está aberto para ele se manifestar da forma que quiser.

Documento de junho de 2014 anunciando a transferência de Eduardo Mauat para a Delegacia de Polícia Federal de Santa Cruz do Sul (RS). Foi uma transferência a pedido,mas ele, pelo que informaram na própria delegacia, pouco apareceu por lá. É normal, isto?
Documento de junho de 2014 anunciando a transferência de Eduardo Mauat
para a Delegacia de Polícia Federal de Santa Cruz do Sul (RS).
Foi uma transferência a pedido, mas ele, pelo que informaram na própria delegacia,
pouco apareceu por lá. É normal, isto?
O documento ao lado é de junho de 2014. Portanto, três meses depois das primeiras prisões da Lava Jato. Revela o resultado de um concurso interno de remoção, no qual se inscrevem os policiais que têm interesse em mudar de local de trabalho. Ninguém é forçado a nada.

Mauat, que em Curitiba viveu um período em união estável com a delegada Érika Mialink, escreveu-se no concurso de remoção e foi contemplado com a transferência para a Delegacia de Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul.

Mas, a pretexto de continuar atuando na Operação Lava Jato, Mauat recebeu a promoção e pouco apareceu no seu novo posto de trabalho. Não apenas era visto em Curitiba como na própria delegacia, por telefone, apuramos que ele ali pouco aparecia. E quando ia, ficava poucos dias, sempre justificando a convocação para a Lava Jato.

Se o próprio Maut pediu a sua remoção e se ele mesmo diz que na instituição há profissionais com capacidade para tocar a operação, sem que ela corra risco, é de se questionar o por que dele não ter efetivamente acatado a transferência pedida? Não soa incoerente pedir a transferência, ser atendido, permanecer aonde estava e depois reclamar quando a Direção Geral efetivamente o faz cumprir a remoção? Como, diante do seu próprio pedido de remoção, entender seu comentário que:
“Meu afastamento foi determinado pelo diretor-geral. Meu planejamento era continuar lá até agosto, para tentar encaminhar as demandas que estavam sob minha responsabilidade. Então, enquanto o Dr. Leandro (Daiello) for diretor-geral, eu não vou retornar à operação Lava Jato.
Provavelmente, por sentir a importância da Operação, talvez até por ideologia, ele tenha optado por permanecer ajudando a equipe da Lava Jato. Isso, porém, tem consequências. A vaga para a qual foi transferido estava aberta, o que significa que aquela unidade da Polícia Federal necessitava de um delegado. Se ele não assumiu, a vaga ficou vaga? Ou alguém foi mandado para lá para cobrir fazer o trabalho que ele deveria fazer? Pagaram diária a esse substituto?

Mauat, se permaneceu em Curitiba por opção, abriu mão da ajuda de custo de R$ 200,00/dia uma vez que continuou morando na mesma cidade onde estava? Ou não teve esse gesto altruísta e recebeu a diária prevista legalmente? Em um cálculo superficial, foram mais de 17 meses em que ele, lotado no Rio Grande do Sul, continuou trabalhando no Paraná. Se não abriu mão do dinheiro, fez jus a, no mínimo, R$ 102 mil (200x30x17) todo este período. Nada mal.

Surge, aí um outro problema, caso as diárias tenham sido efetivamente recebidas: a legalidade das mesmas. Pelas normas do DPF, um servidor pode, no máximo, receber 120 diárias/ano. É verdade que este prazo pode ser dilatado, e efetivamente isso acontece. Mas, como justificar o descumprimento de uma norma justamente por um policial que está atuando em uma operação que pretende passar o Brasil a limpo e acabar com corrupção e maracutaias?
É legítimo descumprir as normas internas do Departamento, recebendo diárias, sem sair da cidade aonde morava, mesmo depois de pedir para ser transferido e dizer que isto se deve ao combate à corrupção?
Ficam no ar estas questões para o próprio Mauat responder. O blog está aberto às suas explicações. Não precisa buscar o apoio do movimento NasRuas.

Marcelo Auler

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