20 de jul de 2016

Datafolha usou Lava Jato, nunca as pedaladas, para saber se Dilma merecia impeachment

Tanto faz se há crime fiscal que justifique o processo de afastamento, como manda a lei, porque o que Datafolha apura junto ao povo, desde 2015, é a corrupção como justa causa


Na semana passada, o Ministério Público Federal tomou mais uma decisão que coloca o processo de impeachment de Dilma Rousseff por crime de responsabilidade fiscal em xeque: analisou seis tipos de pedaladas e concluiu, com ressalvas, que não há dolo pessoal, nem desrespeito ao Congresso e muito menos afronta à Lei de Responsabilidade Fiscal por parte da presidente eleita.

O jurista Pedro Serrano avaliou, em entrevista à RBA, que se a Justiça Federal concordar com o MPF, a defesa de Dilma pode "matar" o impeachment no Senado, pois ficaria provado que o processo corre à revelia de embasamento jurídico.

A grande mídia decidiu simplesmente ignorar o peso da decisão do MPF. Mas no final daquela mesma semana, eis que surgiu na Folha de S. Paulo o resultado de uma sondagem do instituto Datafolha, afirmando que 50% dos entrevistados ouvidos em julho já preferem que o interino Michel Temer no cargo desde maio continue susbtituindo Dilma até 2018.

O mesmo levantamento apontou que hoje apenas 3% querem novas eleições, quando outros institutos aferiram, a poucas semanas atrás, que essa taxa era de cerca de 60%.

Nesta terça (20), o jornalista Glenn Greenwald revelou que a Folha cometeu uma "fraude jornalística" para dar legitimidade a Temer, manipulando a pesquisa Datafolha. O próprio instituto reconheceu que os dados publicados pelo jornal não podem imprimir a interpretação de que Temer é aceito por metade do povo brasileiro.

O relatório divulgado pelo Datafolha também releva outros dados. Um, em especial, talvez justifique o desinteresse da Folha e de outros grandes jornais por decisões relacionadas às pedaladas de Dilma.

Ao que tudo indica, tanto faz se não há crime fiscal nos atos da presidente afastada, porque o que o Datafolha apura, a partir de abril de 2015, é que Dilma merece ser derrubada por conta da Operação Lava Jato. A corrupção de políticos, empresários e servidores virou justa causa.

Pedaladas?


Em abril de 2015, a Datafolha foi às ruas, em meio a um constante tiroteio da Lava Jato, e sob as ameaças da oposição de usar decisões do Tribunal de Contas da União para afastar Dilma. Ao instituto, 63% dos entrevistados responderam que sim, Dilma deveria ser alvo de um processo de impeachment [33% disseram que não, e 4% que não sabiam]. A pergunta feita no caso foi: "Considerando tudo o que se sabe até o momento a respeito da Operação Lava Jato, o Congresso Nacional deveria ou não abrir um processo de impeachment, isto é, um processo para afastar a presidente Dilma da Presidência?"

Nas pesquisas de agosto e novembro de 2015, com 66% e 65%, respectivamente, favoráveis ao impeachment [ante 28% e 20% contra], a Folha apenas perguntou: "Na sua opinião, o Congresso deveria ou não abrir um processo de impeachment, isto é, um processo para afastar a presidente Dilma?" Àquela altura, decisões do TCU já eram um problema para Dilma, mas as famosas pedaladas ficaram longe do questionário usado com os entrevistados.

O impeachment foi acatado por Eduardo Cunha no início de dezembro de 2015.


Em 20 de março de 2016, faltando cerca de um mês para a Câmara decidir sobre o destino de Dilma, a Folha publicou resultado do Datafolha onde 68% dos entrevistados apoiavam a saída da presidente. A pergunta foi: "Como os deputados deveriam votar em relação ao afastamento da presidente?" Outros 27% foram contra.

Na última pesquisa, feita entre 14 e 15 de julho de 2016, denunciada por fraude, a pergunta era: "O Senado analisa um pedido de impeachment contra Dilma. Na sua opinião, os senadores deveriam votar a favor ou contra o afastamento definitivo da presidente?" Neste caso, 58% responderan sim, 35% não, 3% foram indiferente e outros 3% não sabem.

Desde abril de 2015, o Datafolha também pergunta: "Em sua opinião, Dilma vai ou não ser afastada da presidência por causa das denúncias de corrupção da Operação Lava Jato?", independente da posição pessoal do entrevistado. Eis a evolução dos resultados dessa questão até julho de 2016, quando 71% responderam que sim. Recentemente, com o avanço do projeto de derrubada de Dilma no Senado, a pergunta mudou para: "Na sua opinião, Dilma vai ser ou não afastada definitivamente?"


"Fraude jornalística"

O jornalista Glenn Greenwald denunciou, e o Datafolha admitiu "o aspecto enganoso na afirmação de que 3% dos brasileiros querem novas eleições 'já que essa pergunta não foi feita aos entrevistados'. Luciana Schong [do Datafolha] disse também que qualquer análise desses dados que alegue que 50% dos brasileiros querem Temer como presidente seriam imprecisos, sem a informação de que as opções de resposta estavam limitadas a apenas duas".

As perguntas pela última pesquisa Datafolha foram:

Você sabe o nome do atual ocupante do cargo de presidente da República? 

O presidente interino Michel Temer está completando dois meses de governo. Na sua opinião, Michel Temer está fazendo um governo: ótimo/bom, regurlar, ruim/péssimo, não sabe. 

De zero a 10, que nota você dá para o desempenho do governo Michel Temer? 

Aqui, a maioria (21%) deu nota 5 para Temer, que recebeu nota zero de outros 16%. Apenas 3% responderam nota 10. A média foi nota 4.


Na sua opinião, você acha que Dilma vai ou não ser afastada definitivamente da presidência?

Na sua opinião, o que seria melhor para o país: que Dilma voltasse ou que Michel Temer continuasse no mandato até 2018? 

Na sua opinião, qual o principal problema do país hoje?

Aqui, 32% responderam corrupção, 17% saúde e 16% desemprego.

Como você avalia o desempenho do juiz Sergio Moro na Lava Jato: ótimo, bom, regular, ruim ou péssimo?

Resposta: para 62%, ótimo/bom, 16%, regular, 13% de ruim/péssimo e 10% não sabem.

Cíntia Alves
No GGN

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