10 de jul de 2016

Carta aberta a Fontana, Pepe, Pimenta e Paulo Teixeira: a hora de Samuel Johnson

Caros companheiros:

Baseado numa relação de respeito mútuo e companheirismo político, que nos identifica com ideais comuns, reporto-me a vocês através desta “carta aberta”, que farei circular amplamente nas redes sociais. Pela relevância e urgência do assunto, creio que vocês compreenderão, porque o faço. Não é novidade para os filiados do nosso Partido e seus militantes mais próximos, que o PT e uma boa parte da esquerda  no país, enfrentam uma crise de identidade política e moral, que tem nos abalado fortemente. Esta crise não foi inventada pela mídia nem pelos Procuradores. A mídia oligopolizada e uma parte não significativa, em termos quantitativos, do Judiciário e de outros aparatos do Estado — opositores radicais do projeto que representamos — souberam, isto sim, manipular nossos erros políticos, equívocos de gestão e mesmo a ilusória sensação de impunidade (que às vezes leva ao delito), que afetou em alguma medida parte de companheiros nossos. Manipulando contra toda a evidência, porém, vincularam  artificialmente a Presidenta à corrupção e assim  promovem a sua derrubada, colocando no Poder uma Confederação de Denunciados e Investigados.

Isso só poderia ser feito com a produção política de uma nova hegemonia, dentro da democracia política. O oligopólio da mídia, a direita neoliberal, a extrema direita militarista, o conservadorismo oligárquico espalhado na maioria dos partidos, a intelectualidade autoritária das classes médias superiores e as velhas lideranças regionais — algumas ainda originárias dos estertores do regime militar —  trataram de se agendar como os cruzados contra a corrupção. Fariseus que são, escolheram um alvo: o PT e, em especial a sua liderança mais importante, o Presidente Lula. Era um Partido que vinha para o “front” eleitoral da democracia com um viés moralista e com um projeto de mudanças, especialmente em políticas sociais, que melhorou a vida de dezenas de milhões de pessoas mais pobres e teve um enorme sucesso, por um certo tempo A melhoria da vida das pessoas mais pobres e dos setores sociais mais necessitados, porém, não aumentou a capacidade das classes sociais “de baixo” influenciarem significativamente o Estado, e o nosso Partido, consequentemente, assimilou em grande parte os métodos de fazer política dos nossos adversários, sem compreender que entrava num caminho sem volta. Iniciávamos a percorrer um novo roteiro, sem criticar inclusive os métodos políticos usados para obter os resultados generosos.

Com as estruturas políticas atuais, a política brasileira, o Estado brasileiro, os partidos no país, não funcionariam sem corrupção, sem fisiologismo. Nem se moveriam sem o clientelismo secular, que formou nosso Estado e a nossa tradição política. Imersos em alianças para governar, vários dos nossos fugiram das boas regras do republicanismo e nos atolaram nas formas tradicionais de governabilidade, pragmatismo e financiamentos de mandatos. Os procedimentos, em cada período, foram transformando alianças pontuais em alianças estratégicas, confiança entre indivíduos em confiança entre grupos políticos, necessidades em virtudes, quando então os programas se diluíram,  personalidades até então opostas se fundiram e o republicanismo definhou. Estamos -se ainda não nos tornamos em definitivo- à beira de nos tornar, unanimemente, um partido igual a qualquer outro, o que só ainda não ocorreu pela grandeza da nossa militância intermediária e de base que, sem ter qualquer responsabilidade  pelos erros do PT no Estado, mantém acesa chama libertária da igualdade e da democracia, que está na nossa origem. A grande metástase do tradicionalismo, ao mesmo tempo em que invade o PT esconde os nossos adversários. Eles se abrigam na mídia complacente e na exceção persecutória, que nos trata de maneira desigual: contra os principais líderes do PT, vazamentos seletivos, conduções forçadas e prisões sem recurso. Contra os líderes da reação e do conservadorismo, menções de pé de página e inquéritos que não andam.

O grande erro de concepção dos grupos hegemônicos do PT, partindo de um juízo de boa vontade a respeito dos seus objetivos,  foi iludir-se que as classes dominantes brasileiras — aquela parte mais ligada ao rentismo e aos negócios e negociatas globais-  iria permitir que o PT gerisse o Estado com os métodos que eles mesmos sempre geriram-no, para acumular dentro e fora da lei, usando-os — da nossa parte — para distribuir renda e dar substância  à democracia social. Nossa omissão para promover a reforma política, a democratização da mídia  e para acabar com a regressividade dos impostos, está na essência da nossa crise e na nossa impotência de equilibrar politicamente o pais, para novos avanços na geração de renda, na produção de empregos, na democratização das decisões públicas, no enfrentamento com o modelo liberal-rentista.

O PT foi escolhido como alvo, todavia,  pelo que ele tem de bom, e não porque seja o “partido mais corrupto”. Os mais denunciados e investigados do Governo do PT, fizeram uma aliança com os mais investigados e denunciados da Oposição e estão governando com a generosidade da grande mídia e o silêncio cúmplice de vários setores empresariais e das classes médias. Mas, independentemente dos seus erros e concessões, o PT ainda é um obstáculo para arrochar os pobres, congelar salários, acabar com as políticas sociais e de transferências de renda, negações que vem por dentro do ajuste radical, que garante os privilégios dos credores da dívida pública e só é aplicável  com o estrangulamento da democracia. Os companheiros de Partido, que estão pagando pelos erros de um sistema de poder que veio de dentro do Partido — e devem pagá-los na forma da lei- tem apenas parte da responsabilidade sobre o que está nos acontecendo. A grande responsabilidade vem da omissão dos nossos grupos dirigentes majoritários, que viram nosso projeto definhar sem dizer uma palavra de revolta, em nome da estabilidade e da conciliação com os atrativos do poder. Não podemos esquecer que ainda são muito recentes as palavras de um líder parlamentar nosso, na Câmara Federal, dizendo que  Eduardo Cunha era um “parlamentar honrado”, que dignificava aquela Casa, na vã esperança de comprar apoio político com o recurso inflacionado do elogio retórico.

Faço estas observações, porque já corre um rumor que a nossa bancada Federal estaria, neste momento, negociando com parte da base governista e golpista, a sucessão na Mesa da Câmara. Em nome, desta feita, da “governabilidade” da nossa situação de oposição, do “não isolamento”, do pragmatismo das relações reais de poder,  inspirado pelos cargos na Mesa, fatores que poderiam ser importantes — se transparentes — numa outra situação política de normalidade e com outros agentes políticos, mas que, no bojo da “exceção” não declarada que estamos vivendo (e dentro do golpismo já consolidado) passa a ser uma capitulação política e  moral. São os mesmos métodos que fragilizaram nosso projeto, a partir da segunda metade do primeiro Governo Dilma, período em que  o PT transitou para um pragmatismo e um eleitoralismo sem princípios em vários Estados – deixando de apoiar Flávio Dino, por exemplo — e pelos quais o  “ajuste” já  assomou como necessidade. Com esta visão, o “centro” — que segundo os defensores da estratégia estabilizaria a “aliança” —  só poderia ser a pior parte do PMDB, cujo objetivo,  em algum momento, seria governar sem intermediários.

Caros companheiros, sei que vocês não compartilham desta nova etapa da estratégia aliancista já  falida, mas é necessário que falem alto sobre isso. Denunciem publicamente este novo capítulo de destruição do PT e digam, claramente, que, se isso ocorrer, o PT perde a oportunidade de — reiniciando por um isolamento digno — compor, com outras forças políticas, personalidades, frações de partidos (que ainda guardam uma certa dignidade) e lideranças da sociedade civil, um novo campo de alianças. Um campo que nos liberte da tutela do pragmatismo e das relações de conveniência sem princípios, iniciando — agora — por um critério simples e com alta visibilidade política: não entabular negociações com partidos, personalidade ou frações de partidos golpistas — em nenhuma hipótese —  nem que isso nos afete, a ponto de termos que apresentar uma Chapa que some, ao final,  só 80, 90 ou 100  votos, na escolha da Mesa da Câmara. É preferível ter  poucos votos, com uma Chapa republicana, composta por pessoas sérias, declinando de uma aliança com Rodrigo Maia e seus companheiros de “ideais”, ou sermos identificado com os dissidentes do golpismo, que querem apenas uma parte maior do botim neoliberal?  Parece-me que a primeira hipótese é digna e tem futuro. E que a segunda é sombria e suicida. E mais: seria uma demonstração que não aprendemos nada com os nossos erros e que não estamos dispostos a mudar em nada.

Não se trata, hoje,  caros companheiros, sequer de sermos “mais” (ou “menos”) de esquerda, mas de sermos mais consequentes, em função dos nossos compromissos de resgate da cidadania e de luta contra todas as opressões, com atitudes que pautem a esperança no imaginário político de todos os democratas, inclusive daqueles que apoiaram o impedimento da Presidenta e hoje compreenderam que foram enganados. O fato de estarmos na defensiva, nos dias que correm, não nos “relaxa” para  tolerar alianças com inimigos históricos do pensamento democrático, conspiradores das elites mais reacionárias do país, que, na verdade, jamais tiveram qualquer preocupação em combater a corrupção ou com a instituição de mecanismos de transparência e democratização do Estado, como os que foram instalados durante os Governos Lula.  Caros companheiros, não concordo com a noção de Samuel Johnson — aliás defendida por Emerson — que “não existe história, apenas biografia”. É verdadeiro, porém, que em alguns momentos da vida, algumas biografias se somam e orientam a História para a dignificação dos homens na política, nas artes e na ciência. Creio que este episódio — que vocês enfrentarão na eleição da Mesa da Câmara — pode ser um deles:  somem as biografias de vocês e resgatem a dignidade da política, sem temer ser minoria. Não troquem a dignidade de uma solidão com futuro, pela falsa alegria dos vencedores sem propósito.

Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.
No Sul21

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