12 de jul de 2016

Brazil, capital Dallas: o país de Temer e Serra

Quem precisa de projeto de desenvolvimento é o povo; a plutocracia já tem o seu: a taxa de juro mais elevada do mundo


Negros desarmados mortos por policiais brancos compõem um postal da identidade norte-americana.

Explosões de protestos contra a violência policial, como as deste final de semana, depois que dois negros foram assassinados nos EUA — um no Minnesota, terça, dia 5, e o outro 48 hs depois,  na Luisiana, quinta-feira — desfrutam do mesmo estatuto.

São standarts da terra da Coca-cola, assim como as freeways, a CIA, Hollywood — e o protecionismo disfarçado de livre comércio.

Os dois casos ganharam singular evidência graças a um fator que veio para ficar.

Imagens impressionantes das mortes colhidas em celulares e viralizadas nas redes sociais, emprestaram dramaticidade testemunhal aos crimes, gerando um apelo convocatório de protestos com poder catártico imprevisível.

Não por acaso, na noite da mesma quinta-feira, em meio a um protesto em Dallas, cinco policiais seriam assassinados por um ex-militar negro, ele também morto em seguida, explodido por um robô acionado por agentes da lei.

Manifestações em diferentes pontos do país, neste final de semana, levaram o presidente Obama apelar para que se evite uma nova escalada de choques raciais, no momento em que o país vive uma das sucessões presidenciais mais polarizadas da história.

Sugestivo desse apelo retórico que não sabe bem o que fazer com a essência do problema, temas explosivos como a exclusão social, o empobrecimento da classe média e o estreitamento das oportunidades para os fragilizados do sistema  foram capturados pela agenda da extrema direita.

Por vias tortas, coube ao ultraconservadorismo trazer para o centro da política a dissolução do sonho americano, após quatro décadas de políticas neoliberais no coração do mundo capitalista.

Que essa encruzilhada se expresse pela boca de um bilionário assumidamente racista, como  Donald Trump, reforça a impotência do centro político para lidar novos e velhos conflitos sociais e raciais.

A sociedade mais rica plasmada pelas leis de mercado conseguiu eleger um presidente negro.

Mas ele fracassou em transformar o simbolismo dessa vitória em uma era de maior convergência social e racial.

Obama trombou com as leis de mercado.

Mais precisamente, com as novas condições de enrijecimento social impostas pela concorrência global e a supremacia asfixiante do poder financeiro sobre os parlamentos, os partidos, a mídia, o Estado e a democracia.

A engrenagem que lavou seus dois mandatos em um solvente de bom mocismo inócuo, alimenta agora a ressurgência da explosão racial nas ruas do país.

A novidade reside menos na reiteração do conflito e, sobretudo, no fracasso da panaceia que exacerbou o que prometia superar.

A anunciada redenção neoliberal iniciada com Reagan, e acelerada por Clinton, implodiu até a zona de conforto da classe média norte-americana, lançando uma luz pedagógica à disjuntiva enfrentada pela sociedade brasileira neste momento.

Construir uma referência própria de desenvolvimento ordenada pela democracia social, ou resignar-se a uma réplica de segunda categoria da regressão social norte-americana, dispensando à maioria da população aqui, o limbo que os negros e pobres compartilham dramaticamente lá?

Desenvolvimento dependente ou a soberania da justiça social?

Não por acaso o discurso extremista, racista, xenófobo e protecionista vocalizado pelo bilionário Donald Trump capturou a ansiedade de 40% dos eleitores norte-americanos nesta corrida presidencial.

A economia do país caminha a duas velocidades.

Festeja-se uma recuperação anêmica, cuja expansão anualizada abaixo de 2% mantém-se rigidamente distante do salto dos  4%, preconizado há anos pelos otimistas.

O consumo cresce, é verdade, o emprego também.

Mas um dos principais patrimônios dos EUA, a classe média afluente, derrete.

O paradoxo elucida a diferença entre a sociedade que aflora e aquela legada por Roosevelt, depois da guerra.

Os empregos são de baixa qualidade.

Os direitos — leia-se, a segurança social das famílias assalariadas — escasseiam.

A precariedade é a nova lei de ferro.

A curva de crescimento dos salários, comparativamente a dos lucros, mostra a relação mais baixa da história norte-americana.

Apenas um em cada sete adultos sem formação superior está empregado atualmente na maior potencial capitalista da história.

Impera a anomia social irmã gêmea das explosões incontroláveis de revolta.

As taxas de sindicalização despencam na razão direta da expansão da ferrugem nos cinturões industriais falidos, que Trump promete resgatar com doses de protecionismo que implodiriam a ordem mundial.

No jornal Valor desta 2ª feira, o economista britânico Adair Turner, um moderado, mostra como o aparente bom senso da lógica neoliberal se traduz, na prática, em rupturas violentas da coesão econômica e social, gerando respostas aparentemente insensatas, mas revestidas de justificativa política.

Ocorrências como Trump  e o Brexit, no seu entender, demonstram o fracasso das elites em convencer os eleitores de que a livre circulação de capital, produtos e pessoas costuma ser boa para todos.

‘Na verdade, não é, diz o britânico, ‘exceto se a liberação e a globalização forem acompanhadas de um equilíbrio na divisão da riqueza ampliada pelas novas práticas de mercado, que necessariamente produzem poucos vencedores e muitos perdedores’.

‘No mundo inteiro houve muito pouco equilíbrio na divisão desse saldo’, adverte o economista.

Turner, repita-se, um moderado, não avança na análise, mas o fracasso que sublinha reitera a incompetência do mercado e das vacas sagradas da desregulação para ordenar uma sociedade convergente razoavelmente inclusiva.

Quem faz isso é a democracia, quando dotada de instrumentos para afrontar os impulsos socialmente destrutivos da lógica capitalista.

Um dado resume todos os demais: após quatro décadas de fastígio neoliberal nos EUA, pessoas em idade de trabalhar compõem agora a maioria do contingente dependente do vale-refeição para sobreviver.

Trata-se de uma ruptura de padrão.

A norma, depois da depressão dos anos 30, era uma clientela predominante feita de crianças e idosos.

Mas não é um ponto fora da curva:

— o governo dos EUA gasta atualmente US$ 80 bi  por ano com ajuda alimentar — o dobro do valor registrado há cinco anos;

— desde os anos 80, a dependência de ajuda para alimentação cresce mais entre os trabalhadores com alguma formação universitária — sinal de que sob a égide  dos mercados desregulados, a  ex-classe média afluente não consegue sobreviver sem ajuda estatal;

— cerca  de 28% por cento das famílias que recebem vale-refeição são chefiadas por uma pessoa com alguma formação universitária;

— hoje o food stamps atende  um de cada sete norte-americanos;

— os salários baixos e a desigualdade  foram responsáveis por 13% da expansão recente do programa — contra  3,5%  entre 1980 e 2000;

— pesquisas relativas ao período de 1979 e 2005 (ciclo neoliberal anterior à crise de 2008) revelam que 90% dos lares norte-americanos viram sua renda cair nesse período; apenas 1% das famílias ascendeu à faixa superior a meio milhão de dólares;

— 21% dos menores norte-americanos vivem em condições de pobreza atualmente;

O fato de Obama, ao longo de dois mandatos, não ter conseguido reajustar o salário mínimo norte-americano — congelado há 17 anos e  20% menor em termos reais  do que o vigente no governo Reagan — diz muito sobre a natureza de um sistema que gera poucos ganhadores e muitos perdedores, de que fala o britânico Turner.

É nesse labirinto social claustrofóbico que os negros ocupam o corredor mais opressivo.

O desemprego nos EUA em torno de 5% (quase pleno emprego) lambe os dois dígitos entre os negros e hispânicos.

Negros formam 13% da população, mas representam mais de 40% da massa carcerária: um milhão, em um total de 2,5 milhões.

No ano passado, 30% das pessoas mortas por policiais nos EUA eram negras, quase três vezes a participação negra na demografia do país.

Nunca a desigualdade foi tão aguda.

E jamais a probabilidade de que isso solape as bases da sociedade foi tão presente.

Não é Sanders quem está dizendo.

O desabafo é de autoria da contida presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central americano, Janet Yellen.

Os abismos sociais no núcleo central do capitalismo atingiram o ponto em que, segundo a discreta Yellen, os americanos deveriam se perguntar se isso é compatível com os valores dos Estados Unidos.

‘A desigualdade de renda e riqueza estão nos maiores patamares dos últimos cem anos, muito acima da média desse período e provavelmente maior que os níveis de boa parte da história americana antes disso’, afirmou, repita-se, a presidenta do banco central norte-americano.

Alguém imagina um quadro graúdo do Itaú, como o interventor do golpe no Banco Central, dizendo isso por aqui?

O descarrilamento social produzido pelo neoliberalismo na sociedade mais opulenta da terra espeta o carimbo da temeridade no coração da estratégia de golpista para o Brasil.

Não invalida o fato de que o país precisa reconstruir a sua máquina de desenvolvimento.

Deixa claro, no entanto, que essa não é obra a se terceirizar aos livres mercados, como percebeu tardiamente um Obama engessado em tibieza pessoal, mas não só nela.

Numa economia longamente descarnada de sua base industrial, desfibrada por taxas de sindicalização operária as mais baixas da história, a correlação de forças reservou pouca margem de manobra ao primeiro presidente negro da sua história.

O paradoxo da recuperação com desalento social não impediria a sua reeleição, mas o devolve à história como o Presidente que não conseguir estar à altura do seu tempo.

Obama encerra seu ciclo à sombra de um bufão que melhor que ele consegue falar ao coração dos deserdados da esperança.

A sabotagem parlamentar mais obscurantista da história enfrentada pelo democrata encontra equivalente na barragem legislativa que paralisou Dilma no Brasil.

Uma aliança da escória com interesses plutocráticos descomprometidos da responsabilidade com a nação, e tão obscurantista quanto o Tea Party nos costumes, não hesitou em paralisar a economia e sacrificar a grande maioria da população para retornar ao poder sem o voto.

‘A economia precisa de um governo mais leve’, evoca a novilíngua  do jornalismo de arrocho.

Os conflitos raciais são a fumaça do vulcão que rumina no interior da sociedade mais rica da terra submetida a esse desígnio.

Em um país em que tudo ainda está por fazer, e suficientemente pobre para que erros históricos se transformem em tragédias definitivas, a terceirização do desenvolvimento aos mercados envolve um risco vulcânica ainda maior.

Devolver à democracia a prerrogativa de repactuar o passo seguinte da economia é a única apólice de seguro que resta à sociedade brasileira.

Não é um projeto que empolgue a riqueza financeira.

Esta já tem o seu país pronto: a taxa de juro real mais elevada do mundo.

O golpe visa justamente reforçar as muralhas em torno dessa soberania.

Raspar o tacho, ‘vender a mãe pátria’, como espetou o Papa Francisco na testa de seu conterrâneo, o presidente argentino amigo de Serra, Maurício Macri, é parte do arsenal bélico.

Quem precisa de projeto de desenvolvimento é o povo, os excluídos, os pobres e negros nos EUA, a vasta maioria da população no Brasil.

A resposta do golpe, ao contrário,  pressupõe um congelamento real de gastos sociais que encolherá a participação relativa da saúde, da educação, das aposentadorias e outros direitos na divisão da receita em anos vindouros.

O excedente subtraído ao bem-estar social, como já se disse neste espaço, será transferido ao bem-estar antissocial dos rentistas.

Um círculo de ferro pretende dobrar a resistência democrática sob o peso do desemprego e do desmonte da nação feito a toque de caixa.

Há um requisito: asfixiar o debate de uma agenda alternativa.

É preciso impedir que a resistência democrática seja portadora de um projeto mudancista que fale às ruas, às periferias, aos bairros pobres, às famílias assalariadas, à juventude, à classe média democrática, à inteligência nacional, à cultura e ao empresariado produtivo.

O medo desse efeito catalisador é indisfarçável.

A supressão truculenta da publicidade estatal a toda mídia progressista é um sintoma dele. A sofreguidão para se aprovar a farsa do impeachment, outra. A barganha obscena com o interesse estrangeiro sobre as riquezas nacionais –pré-sal à frente—outra.

Trata-se de criar fatos consumados,  espremer, tanger os movimentos sociais, as centrais, partidos e organizações populares, obrigando-os a pensar pequeno.

Obrigando-os a participar até o fim da farsa do impeachment.

Para desse modo obrigá-los a admitir um futuro menor que o país.

Que caiba em um orçamento menor que a população.

Menor que as possibilidades e urgências da Nação.

Menor que a ponte necessária entre a resistência democrática difusa e a repactuação ampla do desenvolvimento, feita de prazos e metas críveis negociadas com o conjunto da sociedade.

Se pensar pequeno, se aquiescer à farsa, a resistência democrática corre o risco de se abastardar e acordar um dia em um país dizimado chamado Brazil.

Cuja capital fica em Dallas.

Saul Leblon
No Carta Maior

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.