19 de jul de 2016

As eleições municipais e a “normalização” do golpe


De desatenção também se morre. Nas últimas semanas, lenta e mais ou menos silenciosamente, o golpe patrocinado por Michel Temer e seus aliados começou a ser alimentado por um processo de “normalização” que, aos poucos, foi se alastrando também entre os combatentes do golpismo. Alguém já disse que, muitas vezes, os grandes acontecimentos são silenciosos e sutis. As massivas manifestações de rua para denunciar o governo ilegítimo e espúrio de Temer diminuíram de intensidade nas últimas semanas. Várias razões são apontadas para isso: ninguém aguenta tanta mobilização por tanto tempo, necessidade de uma reavaliação da conjuntura, bombardeio midiático em favor de uma retomada da “normalidade” no país, proximidade das eleições municipais, entre outros.

O fato é que os dias foram se passando e a denúncia do golpe começou a ser sutilmente substituída por propostas de novas eleições, plebiscito e, de maneira cada vez mais visível, pela agenda das eleições municipais deste ano. Aliados até há bem pouco tempo na denúncia do golpe nas ruas, começaram a trocar farpas e ofensas nas redes sociais como se o centro da conjuntura neste momento fosse, por exemplo, a disputa entre o PT e o PSOL nas eleições municipais. Há quem ache que seja mesmo, obviamente. Em páginas nas redes sociais convocando eventos contra o golpe, disputas eleitorais diretamente ligadas ao pleito deste ano começaram a minar a unidade que, até há bem pouco tempo, garantiu mobilizações massivas nas ruas. O culpado, é claro, é sempre o “lado de lá”, acompanhado de acusações de sectarismo, traição, etc.

O fato é que os dias foram se passando e a unidade contra o golpe e em defesa da democracia começou a ser minada por disputas relacionadas às eleições municipais deste ano, entre outras coisas. A dificuldade em perceber que o centro daquilo que está ameaçado é a democracia e um conjunto de direitos conquistados arduamente nos últimos anos ajuda a entender também a relativa facilidade com que o espúrio e ilegítimo governo de Michel Temer foi se instalando. A ausência de direção política sempre cobra o seu preço e a fatura pode ser bem alta. A dificuldade em entender que o centro da conjuntura política hoje não é a disputa envolvendo partidos como PT, PCdoB e PSOL, mas sim a defesa da democracia, de direitos humanos sociais e trabalhistas e de políticas públicas como o Mais Médicos ou o Bolsa Família é o maior indicador de ausência de uma direção política à altura dos problemas e desafios do presente.

Essa ausência é um dos principais trunfos com que Temer conta para dar continuidade ao seu governo espúrio e ilegítimo. Quanto mais as disputas eleitorais municipais dividirem aqueles que estavam juntos na rua contra o golpe, mais ganha a força o processo de “normalidade” que, a cada dia, ganha novos ingredientes. Quanto mais as disputas eleitorais centralizarem o debate e as energias dos envolvidos, mais “normalidade” teremos. É uma falsa normalidade, obviamente. Temos professores sendo afastados e demitidos pela expansão do embuste ideológico fascista chamado “Escola Sem Partido”, um físico argelino naturalizado francês sendo deportado do país por uma acusação de “terrorismo” extremamente frágil e duvidosa, para dizer o mínimo, militantes do MST sendo presos acusados de integrarem uma “organização criminosa”, jornalistas sendo presos e acusados por estarem realizando seu trabalho como aconteceu recentemente com Mateus Chaparini em Porto Alegre. Tudo isso, e muito mais, está acontecendo agora, por todo o país. Não há nenhuma normalidade, portanto, a não ser aquela que o governo espúrio de Temer e seus serviçais midiáticos tentam vender ao país.

O debate central, portanto, não é “a cidade que queremos” ou quem é o portador da novidade para as eleições deste ano, ou quem tem mais condições eleitorais de vencer. O que está em jogo é a democracia, a liberdade, a liberdade de expressão, a distribuição de renda, o combate à desigualdade social, a integração dos povos latino-americanos, as nossas empresas públicas e seu patrimônio, entre outros temas, não menos importantes. A dimensão de tudo isso é suficientemente grande e importante para subordinar disputas eleitorais e rivalidades que se tornam quase irrelevantes diante de tudo o que está em jogo. De desatenção também se morre. A arte da atenção não é simples, de fato. Ela exige práticas e valores que nem sempre encontram a desejável acolhida na política: visão de longo prazo, grandeza, generosidade, espírito de unidade e de agregação.

Muita gente que viveu 64 olha preocupado para o presente, identificando a presença de velhos fantasmas. Esses fantasmas também se alimentam da nossa desatenção que pode se manifestar de muitas maneiras. Uma delas é colocar aquilo que nos separa acima daquilo que nos une. É uma escolha simples que costuma ser feita silenciosamente. O que vamos privilegiar: o que nos separa ou o que nos une? A resposta a esta pergunta dirá o que pensamos sobre a natureza do enrosco em que estamos metidos. A trajetória da Frente Ampla, no Uruguai, já nos deixou alguns ensinamentos sobre isso. Nunca é demais ouvir e “reouvir”…

“Lo que importa es lo que nos une, no lo que nos separa” (Um dos lemas da campanha da Frente Ampla, no Uruguai, em 2009)



No RS Urgente

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