29 de jul de 2016

Arte

No seu livro de ensaios A Máquina da Literatura, Italo Calvino fala dos precursores da autoconsciência e da autorreflexão na arte moderna e cita a cena de Antônio e Cleópatra, de Shakespeare, em que Cleópatra imagina seu futuro como prisioneira de César em Roma, onde seu amor por Marco Antônio será objeto de apresentações teatrais e ela será representada por um menino de voz fina e verá sua grandeza “reduzida à postura de uma prostituta”. Na época de Shakespeare, mulheres não podiam atuar nos palcos. Quem interpretava Cleópatra se imaginando na pele de um menino de voz fina em Roma, era um menino de voz fina em Londres.

Um exemplo mais antigo, não citado por Calvino, seria o do mural de Giotto numa capela de Pádua que ilustra o texto bíblico (da Apocalipse de São João): “E o céu retirou-se como um pergaminho sendo enrolado”, em que anjos começam a enrolar as bordas da pintura – isso no começo do século 16.

O autorretrato disfarçado de Velázquez, As Meninas, pintado do ponto de vista do rei supostamente retratado e que só aparece vagamente num espelho no fundo do quadro, é um fantástico estudo sobre a arte e o poder, e um moderníssimo jogo de imagens.

Duzentos anos antes de Cortázar, Laurence Stern, em Tristram Shandy, também convidava o leitor para um jogo literário, e para explorar todas as implicações de ter na mão um objeto chamado “livro” cheio de mentiras e especulações. (Tristram Shandy) contém bolações gráficas fora do texto que devem ter enlouquecido os tipógrafos da época.

A autoconsciência levou a arte moderna à abstração e teria levado à paralisia terminal se não fosse o pós-moderno, que recuperou o faz de conta depois do seu desmascaramento. Fica combinado que tudo é só tinta no papel ou na tela, e que só porque todo o mundo conhece os truques não é razão para aposentar o mágico.

Luís Fernando Veríssimo

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