25 de jul de 2016

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 4ª parte‏

A ARMA DO GOLPE


Reportamos o nascimento da democracia brasileira em 1945. Depois sua morte em 1964. E identificamos o equívoco do cartunista Carlos Latuff recordando que a ressurreição da democracia não se deu em 1985, pois então não houve voto direto. Mas também lembramos que o voto de cabresto, com uma arma apontada para a cabeça, não tem validade democrática. No entanto o revólver não é a única arma utilizada para se cometer crime. Não é apenas com a Quarta Frota dos Estados Unidos ou Forças Armadas que se realizam golpes contra a democracia. Com que armas deram continuidade à ditadura até 1995?

Claro que há brincadeiras inocentes de 1º de Abril, pequenas mentiras de “pegadinha” infantil. Mas universalmente todo golpe é considerado uma farsa, uma mentira com intenções criminosas.

Ao afirmar que golpe político se caracteriza apenas pelo emprego de armas, a mídia, os políticos e ministros do STF denotam ignorância sobre o assunto ou se identificam como golpistas.

Golpe político sem o emprego de armas é tão antigo quanto à história da humanidade. Na Ilíada, Homero já contava dos golpes de Ulisses sem utilizar arma alguma, apenas através de seu talento ardiloso. Fingir-se de louco foi uma tentativa de golpe para se safar de proposição formulada por ele mesmo. E não deu certo, como não deu certo o cinismo de Eduardo Cunha arriscando a mulher e a filha no golpe para safar a si e sua quadrilha de investigações. Já a vingança pelo golpe jurídico e político que impôs o afastamento da presidenta eleita democraticamente, teve tanto sucesso quanto a vingança de Ulisses no relato da tragédia de Eurípedes, Ifigênia.

Nos dicionários há vários sentidos para a palavra golpe, mas nenhum deles se refere a armas, civis ou militares. Afora os golpes físicos de um corpo contra algo ou vice-versa, no sentido político ou financeiro os dicionários significam golpe por “estratagema, ardil, trama”. Também como “ação ou manobra desleal; rombo, desfalque”.

No de Antônio Houaiss, por exemplo, não há referência a tropas e quartéis. Nem tanques e porta-aviões. Mas o filólogo, crítico literário, enciclopedista, diplomata e ministro da cultura; sabia perfeitamente que todo golpe se baseia na farsa e na mentira.

E a mentira que mais evidencia o golpista é a de se negar como golpista.

No entanto, se Houaiss tinha razão quanto à desnecessidade de armas para consumação de um golpe, a manutenção de um governo ilegítimo sem dúvida haverá de necessitar de poderosa arma para convencer o maior número de pessoas a se manter sob as ordens de um governo golpista. A Quarta Frota dos Estados Unidos não poderia ficar indefinidamente fundeada nas costas do Brasil exigindo que todos brasileiros se submetessem às ordens dos militares e golpistas por 2 décadas. Era preciso algo mais do que a força das armas estadunidenses para convencer os brasileiros à sujeição, à submissão. Subserviência.

Além do terror implantado por organismos de repressão oficiais ou para-oficiais: OBAN, ROTA, DOI-CODI, PARA-SAR e Esquadrão da Morte; muitas manobras políticas como a instituição de mandatos biônicos para garantir maioria de votos no parlamento foram sendo criadas enquanto se desenvolvia arma de maior alcance.

O uso de estratégias da comunicação como arma de condicionamento de massas é milenar. Na Antiguidade envolvia arquitetos incumbidos de condicionar na consciência dos dominados a concepção da natureza divina dos dominadores através de gigantes estátuas e esculturas que convenciam pela impressão causada por suas enormidades. No decorrer da Idade Média, além da grandiosidade de seus templos o Império Católico ampliou o processo utilizando-se de outros meios e métodos mais individualizados, prometendo recompensas celestes aos mais servis. Para promover tais crenças a Igreja ocultou e destruiu muito do que até então se produzira em informação e conhecimentos das realidades humanas.

Com o advento das grandes concentrações populacionais, a partir da industrialização do século XIX novos meios de difusão surgidos com a evolução tecnológica dão às informações o protagonismo do processo, seja no cuidado de omitir as verdadeiras ou na repercussão das falsas e inventadas por peritos em manipulação e distorção de fatos. Isso acabou resultando na maior importância da desinformação do que na real informação em si.

Não mais se trata apenas de impressionar os sentidos para convencer coletivamente a inviabilidade de reação perante um poder divino ou recompensas extraterrenas à abnegação e obstinação de individual sofrimento sobre-humano. Mais do que vida melhor depois da morte, é preciso convencer de que por ruins que sejam as reais condições de vida, ainda pior sob outro sistema.

Quais sejam as reais condições de vida sob o outro sistema pouco importa, pois uma vez convencido de que aquele outro seja o inferno, se dará a preferência a ser desgraçado no céu. Ou seja: a base do processo de condicionamento continua sendo a mesma ignorância há milênios explorada e incentivada pelos detentores do poder.

Assim como o “homem do saco” amedrontou criancinhas que nunca o conheceram, é preciso convencer que o outro sistema está à espreita em cada esquina como ameaça permanente. O que importa não é conhecer o “homem do saco”, pois será mais temível quanto menos se o conheça.

Descrito dessa forma sinóptica parece inadmissível que um simples manipular de informações resulte em condicionamento de consciências em uma era onde através de seus televisores e dentro de seus lares todas as crianças do planeta puderam testemunhar os primeiros passos do homem sobre a superfície da Lua em 20 de Julho de 1969. Mas se hoje poucos recordam daqueles passos de Neil Armstrong que culminaram a Corrida Espacial iniciada em 1961 pelo primeiro homem a percorrer a estratosfera em volta do planeta, o russo Iuri Gagarin; muitos são os cidadãos que pela própria ignorância continuam ocupando a internet para alertar contra o avanço do comunismo na América Latina.

Por vezes esses anacronismos provêm à necessidade de justificar participação em estupros, torturas e assassinatos; mas embora nenhum dos golpes políticos, armados ou não, jamais tenham elevado ao poder governos escolhidos pela liberdade de votos democráticos, há os que realmente se acreditam livres. E se acomodam nessa crença satisfatoriamente, evitando mudar de posição para não serem despertos pelo ranger das correntes que denunciariam suas reais condições.

De uma ou outra forma se aprisionam aos tempos em que mísseis soviéticos evitaram ataques dos Estados Unidos à Cuba em 1961, apesar do comunismo internacional não haver interferido na América Latina nem mesmo para defender o presidente socialista do Chile do bombardeio ao Palácio de La Moneda, quando Richard Nixon e Henry Kissinger decidiram a morte de Salvador Allende em 1973.

Allende foi livremente eleito pelo voto democrático dos chilenos, mas o poder de condicionamento através de manipulação de informações ainda hoje faz “as criancinhas” encarceradas nos calabouços da ignorância encolher de medo do “homem do saco” comunista sem perceberem que o verdadeiro “homem do saco” os mantêm encarcerados à tela da TV de suas próprias casas e os acompanha de dentro de suas mentes para onde quer vão. Não está a espreita na esquina, mas dentro deles mesmos.

Se apesar de globalmente a mais produtiva região em alimentos e minérios, qual a real ameaça às miserabilidades de Latino América? Somos um dos continentes de piores condições de vida do planeta e a única nação comunista do continente, apesar de pobre, ainda é preservada por seu povo enquanto os dos demais assistem passivamente a entrega de seus maiores patrimônios e potenciais públicos.

Crível por ser absurda, como na proposição teológica de Tertuliano, a grande arma de todos os golpes consegue incutir nas consciências das massas o medo que impulsiona à manada ao abismo. Foi assim durante o poder dos imperadores da Antiguidade, foi assim durante o poder da Igreja, é e será assim enquanto perdurar o poder de condicionamento de consciências através da manipulação de informações e ignorâncias.

Poderes construídos através de sistemático e cotidiano processo de rebaixamento de capacidade de análise e raciocínio para promoção de medo, pânico e instabilidade emocional. Conturbação de personalidades, condicionamento de conceitos e promoção de sentimentos supérfluos, mesquinhos e individualistas; até que consideráveis massas atinjam a ideal estupidez e boçalidade apontada pelo apresentador do telejornal de maior audiência no Brasil em seu próprio público, ao compará-lo ao Homer Simpson, personagem ícone da idiotia da classe média estadunidense.

Quanto mais transformado em perfeito idiota, maior a impossibilidade do indivíduo em reconhecer-se condicionado e maior sua facilidade de odiar os que através de informações da realidade consigam raciocinar livremente.

Pela arrogância com que transfere suas evidentes e próprias limitações o condicionado aparenta até se orgulhar em ostentar sua ignorância e desconhecimento, mas em verdade apenas reage à informação e ao conhecimento com à uma ofensa pessoal. A prepotência é a expressão da dor da própria insuficiência e preguiça de se informar além das farsas que lhe foram condicionadas. E assim se desenvolve a cultura do golpe na própria vítima do golpe. É a dor do que se imaginou ludibriador ao comprar um bilhete premiado. A profunda dor que se nega a enxergar em si o real ludibriado.

Em toda a história nenhum exemplo mais crasso de produção do efeito de condicionamento de massa do que a promoção do fascismo entre o povo privilegiado pelo alto nível intelectual e científico de seus pensadores. Em massa se tornou idiotamente servil ao nazismo, do que ainda hoje se envergonha e se envergonhará por muitas gerações, embora muito anteriormente alertado por um de seus pensadores, Arthur Shopenhauer, quando comparou o ócio do ignorante ao comportamento do gado.

Perante tais exemplos históricos, por que nem duas décadas depois do verdadeiro final da última ditadura brasileira, ainda tantos brasileiros preservam a mesma arrogância fascista?

Apenas pela manutenção da impunidade dos crimes praticados na ditadura? Mas se sociedades de países vizinhos como a Argentina exigiram a condenação de seus criminosos políticos, por que no Brasil, apesar da repreensão de organismos internacionais como a OEA, tantos ainda se mantêm alheios como se a ditadura militar não constituísse uma enorme vergonha para nosso povo e sobretudo para as Forças Armadas Brasileiras?

O eminente historiador inglês Eric Hobsbawm, entre outros notáveis observadores do Século XX, também classificou as ditaduras militares latino-americanas como francamente nazifascistas. Enquanto manifestações pró-nazistas são ridicularizadas e oficialmente proibidas em todo o mundo, no Brasil até parlamentares ocupam a tribuna pública para exaltar criminosos como Himmler ou qualquer outro dos condenados em Nuremberg. E pela internet pululam livremente assumidos neonazistas de ocasião exortando o retorno da ditadura militar.

Na Europa, inclusive na Alemanha, os que integraram a resistência contra o nazismo são relembrados e enaltecidos como heróis. Aqui no Brasil, os que lutaram contra os crimes da ditadura nazista continuam sendo divulgados como criminosos e condenados sem provas por ardis jurídicos, sob uma sociedade totalmente passiva.

Em 2011, um ex-presidente que deixa-se decair à condição de golpista divulga por diversos meios de comunicação impressos uma nova versão da famosa máxima de Joseph Goebbels, o mentor intelectual do nazismo, versando a repetição da mentira por mil vezes até que se torne verdade em “repetir, repetir e repetir ao estilo do publicitário beba Coca-Cola”. E dá a essa e outras recomendações o título de “O Papel da Oposição”, confirmando entender por oposição política a promoção de fascismo.

Por que se preserva na sociedade brasileira uma mentalidade tão execrada entre todas as demais? Em um mundo onde a partir do final da Guerra Fria muitos governos e organismos internacionais procuram promover uma relação política mais democrática entre anseios das elites econômicas e as necessidades de sobrevivência das populações, por que o Brasil direciona-se no sentido inverso?

Ainda que com profundos retrocessos de experiências mal fadadas como o neoliberalismo, o nazi-sionismo israelita e a promoção do fundamentalismo religioso pela OTAN no Oriente Médio; não há como não enxergar reais e ingentes esforços internacionais em busca de um futuro mais seguro e promissor para as próximas gerações da humanidade.

O Brasil que ainda ontem se inseriu exemplarmente nesse processo, sendo reconhecido em 2014 pela retirada do país do Mapa Mundial da Fome, pela elevação de seus índices de desenvolvimento humano, por inúmeros programas de reconstituição de justiça social; hoje se torna escândalo mundial pelas propostas de evidente retrocesso aquém da segunda metade do século passado por notórios corruptos internacionalmente afamados e classificados de reles golpistas. E a população brasileira assiste a articulação do golpe, como se não fosse a vítima! Como se suas próximas gerações não fossem as grandes prejudicadas pela entrega dos maiores patrimônios e potenciais brasileiros à espoliação estrangeira! Como se o povo e o país fosse o inimigo de si próprio e não aqueles que o mantiveram no atraso e na miséria por tantas décadas!

Como se condiciona tamanha parcela de uma população à passividade perante o prenúncio e evidência da própria desgraça, enquanto demais países manifestam indignação ao golpe contra o Brasil e os brasileiros?

37 Parlamentares e 20 organizações dos Estados Unidos escrevem ao Secretário de Estado pedindo sanções ao interino governo corrupto do Brasil. O senado da França faz publicar um manifesto pedindo aos governos da União Europeia que não reconheçam o governo dos golpistas brasileiros. Os principais órgãos da imprensa internacional acusam de golpe a manobra política em processo no Brasil. A ONU, a OEA e demais organismos internacionais protestam e acusam. Analistas políticos e comentaristas condenam por telejornais da América, Europa, e Oriente Médio.

Por que brasileiros deixam-se em seus lares sendo tratados como Homer Simpson através de seus televisores ou páginas de jornais e revistas?

Qual a arma que mantêm refém a essa população?

A ameaça de uma explosão atômica? A truculência de tropas armadas nas ruas? Tanques e fuzis?

Neste momento, cada cidadão brasileiro empunha um revólver voltado contra a própria cabeça e a de seus filhos. E dos filhos dos filhos. A passividade é o movimento que a detonará. Mas que arma é essa?

Mais destrutiva do que os porta-aviões enviados do Caribe em 1964, uma arma está engatilhada para destruir o futuro do país neste ano de 2016 e esta geração será responsabilizada por todo o futuro de nossa história, mas a construção dessa arma se deu início há meio século atrás. Através da mentira de combate ao comunismo se começou a montagem dessa arma com o desmonte e saque ao maior conglomerado capitalista do país.

Torturaram, exiliaram e mataram os cidadãos que acreditavam no sistema sócio/político/econômico desenvolvido por cientistas e pensadores europeus do século XIX; e que não dispunham de mínima organização e condições de aqui implantar seus ideais. Proscrito há décadas, a principal organização comunista do país, o PCB, quando muito apoiava os projetos de promoção social do fazendeiro João Goulart. Os comunistas do Brasil não dispunham de qualquer apoio externo, de armamentos, articulação ou plano e estratégia. E muito menos capital.

E os golpistas de 1964, promotores dos interesses do capital estrangeiro, como primeira providência depois de executarem seus próprios colegas contrários ao golpe atacaram ao grande capital brasileiro. Apenas lutaram contra comunistas quando se formaram organizações de resistência ao assalto à pátria. Para isso os comunistas precisaram roubar armas do próprio exército brasileiro, assaltar bancos e promover sequestros. E há que se lembrar de que o Partido Comunista Brasileiro foi peremptoriamente contrário à esse movimento de resistência armada.

Por mil vezes que se repita a mentira de que o golpe de 64 foi uma revolução contra o comunismo a história é inequívoca em registar que o ato de primeiro momento foi de pirataria contra o então maior capitalista do Brasil, Wallace Simonsen.

O processo se iniciou assim que instalado o governo golpista através de Herbet Levy, deputado pela UDN transferido para a ARENA, sócio da família Graça Setúbal no Banco Itaú e numa fazenda cafeeira. O udenista acusou a COMAL, maior processadora de café do país, de inadimplência em empréstimo realizado junto ao Banco do Brasil. A improcedência da acusação se evidenciava por Simonsen também administrar a WASIN COMPANY, uma das maiores exportadoras de café do mundo com escritórios em 65 países.

Num primeiro momento a diretoria do Banco do Brasil negou a ilação de Levy. Pressionados, os diretores do BB depois concordaram ou acordaram com o golpe ao capital do brasileiro descendente de ingleses, admitindo possibilidade de crime de responsabilidade contra normas financeiras.

Anos depois, ainda durante a ditadura, o STF julgou improcedentes todas as acusações de Levy, mas até então o homem mais rico do Brasil, atormentado pelas perseguições e injustas acusações, depois de um ano de sistemática campanha de difamação pela imprensa partidária do golpe, já havia se suicidado em 1965, antes de completar um ano do golpe de 1º de abril.

No pretenso combate ao comunismo, diversos empresários golpistas se beneficiaram com o desmonte daquele maior conglomerado capitalista do Brasil. Com o fim da maior editora de publicações de materiais didáticos, a Melhoramentos, teve início a ascensão da que desde 1951 ocupava uma garagem doméstica para produção da versão brasileira das revistinhas da Walt Disney: a Editora Abril

Rubem Berta, filho de Helena Lenz Berta que durante a II Guerra foi presa como traidora da pátria por ter sido flagrada no mais alto morro da cidade de Porto Alegre transmitindo mensagens de rádio ao inimigo exército nazista, passou a operar as principais rotas internacionais imediatamente quando sem qualquer explicação ou justificativa o governo de Castelo Branco suspendeu os voos da PANAIR, até então única do Brasil com autorização dos organismos de controle aéreo de países que permitiam pouso e decolagem de aeronaves brasileiras em seus aeroportos.

Lembrada em versos de Fernando Brandt musicados por Milton Nascimento cantando: “descobri que a minha arma é o que a memória guarda dos tempos da Panair”, aquela era a maior companhia área do continente e surgiu quando Simonsen adquiriu a Pan American Airways.

Concomitantemente o empresário criou também a CELMA para manutenção de turbinas e aeronaves, empresa que se destacou internacionalmente na qualidade em prestação desses serviços às maiores companhias de aviação do mundo, inclusive as dos Estados Unidos.

Comprovando a boa situação patrimonial e financeira da empresa, além da confiança em serviços prestados durante décadas, naquele mesmo anos de 64 Simonsen entrou na justiça com pedido de concordata, requerendo algum tempo para poder atender as extorsões impostas pelo governo militar, mas o então ministro da aeronáutica, brigadeiro Eduardo Gomes, compareceu fardado perante o juiz que julgaria a petição obrigando a um inédito indeferimento em apenas 24 horas após a formulação do pedido. E a VARIG foi confirmada com o decreto da falência da Panair pelo então Ministro da Guerra, Arthur da Costa Silva, em mais um ato inédito na justiça empresarial brasileira que nunca antes teve decreto similar expedido diretamente pelo poder executivo.

Aeronaves e instalações da Panair, bem como todo o equipamento da CELMA, foram entregues para a VARIG sem qualquer indenização aos herdeiros do real proprietário da empresa. Um clamoroso saque. Roubo!

Além da produção e comercialização cafeeira, os sócios do Itaú também se beneficiaram com o fim das atividades de seu principal concorrente: o Banco Noroeste, do mesmo grupo de Wallace Simonsen que também criara a primeira rede de supermercados do Brasil: a Sirva-se. E surge o Pão de Açúcar de Abílio Diniz.

Na área da construção civil o fim das Cerâmicas São Caetano abriu espaço de mercado para os golpistas interessados no setor.

Em alimentícios, surgiram e cresceram os que se aproveitaram da retirada dos produtos da Biscoitos Aymoré.

Mas a arma que perpetuou o golpe de cada brasileiro contra si próprio se deu pelo desmonte de outro promissor empreendimento do grande capitalista: a TV Excelsior.

Para quebrar a hegemonia das oligarquias que comandavam os principais meios de comunicação do Brasil, assim que eleito em 1950, Getúlio Vargas ampliou as concessões públicas de ondas de transmissão de rádio. Naquele mesmo ano, o grande imperador das comunicações brasileiras, Assis Chateaubriand lançara a primeira emissora de TV do país; a Tupi.

O rádio continuou sendo o principal veículo de difusão de informações de toda a década até que a programação de uma nova emissora posta ao ar em 1960 começa a promover a emigração do interesse público com shows, seriados, novelas e programas humorísticos. Era a TV Excelsior que transformou os ouvintes brasileiros em assistentes.

Um dos beneficiados pelas concessões a novas emissoras de rádio e TV pelo governo Vargas em 50 foi Vitor Costa que iniciara com a Rádio Nacional do Rio Janeiro e então já adquirira a Rádio Mayrink Veiga. Com a disponibilização das novas concessões públicas, o radialista inaugurou a Rádio Excelsior em São Paulo e negociou a concessão da TV Paulista de Ortiz Monteiro, formando a OVC - Organização Vitor Costa.

No final da década Wallace Simonsen compra de Vitor Costa a concessão ainda não utilizada da TV Excelsior por 80 milhões de cruzeiros, valor então considerado muito elevado. Mas como em todos os demais setores de atuação de suas empresas, Simonsen previa possibilidades ainda não exploradas pelas emissoras então existentes e aluga o Teatro Cultura Artística na Rua Nestor Pestana, em São Paulo.

Importando grandes diretores de shows, programas humorísticos e musicais da Europa, também contrata consagrados artistas e novos talentos da música e do teatro nacional, lançando nomes como Chico Anysio, a dupla Didi e Dedé que posteriormente formou o grupo Os Trapalhões, Jorge Ben, Daniel Filho, Bibi Ferreira, Aizita Nascimento, Elis Regina e Gilberto Gil.

Em 1962, Simonsen constrói o então maior estúdio de TV do Brasil na Vila Guilherme, em São Paulo, onde são gravadas as cenas internas da primeira superprodução brasileira em telenovela: “A Deusa Vencida”, com direção de Walter Avancini e atores que se consagrariam definitivamente na teledramaturgia: Regina Duarte, Gloria Menezes, Tarcísio Meira, Edson França, Altair Lima, Ruth de Souza, e muitos outros.

O primeiro programa transmitido a cores no Brasil foi o “Moacir Franco Show”, pela Excelsior, em sistema NTSC. Era o ano de 1962 e poucos tinham aparelhos receptores importados, mas logo deixaram de ter utilidade quando por decisão do governo da ditadura o sistema NTSC foi suspenso e somente dez anos depois, em 1972, foi liberado à TV Globo o direito de transmissões a cores pelo sistema PAL-M. Poucos sabem que o Brasil preteriu o mais universalizado sistema NTSC com mais uma abordagem dos pirataria da ditadura contra o capital de Wallace Simonsen.

Em 1963 Simonsen adquiriu, também de Vitor Costa, a concessão do Canal 2 do Rio de Janeiro e entre as duas emissoras, a Excelsior do Rio e a de São Paulo, se deu a primeira transmissão em rede entre emissoras de TV brasileiras. Também primeira a utilizar o vídeo-tape, uma novidade para a época, a Excelsior consegue transmissão simultânea de sua programação entre as afiliadas de Belo Horizonte, Porto Alegre e Brasília.

A Tupi, apesar de integrar o maior grupo de veículos de comunicação do Brasil, que também detinha a TV Cultura de São Paulo, não conseguiu superar a crescente audiência da Excelsior entre 1960 e 1965. Muito menos suas concorrentes Record e a TV Paulista, ainda de Vitor Costa.

Bastante esvaziada em conteúdo a despeito da evolução tecnológica no setor, muito do que ainda hoje persiste na programação de TV do Brasil continua seguindo modelos criados e desenvolvidos na Excelsior.

Em seis anos, depois da morte de Simonsen, o saque à emissora prosseguiu até que em 1970, o jornalista Ferreira Neto invade o estúdio onde se transmite um programa ao vivo e anuncia ao público que o governo da ditadura militar determinara a retirada da emissora do ar a partir daquele momento.

Treze anos depois, o mesmo governo militar transfere a concessão da Excelsior ao Adolfo Bloch e o sinal é reaberto como TV Manchete. Mas já então, misteriosamente, muitos dos equipamentos e acervos da Excelsior, até mesmo o caminhão de gravação de externas, foram encontrados em posse de outras emissoras. Entre elas, a TV Globo.

A Rede Excelsior de Televisão não foi única vítima da pirataria da ditadura em comunicações. Embora o estilo chantagista como que Assis Chateaubriand construiu o império dos Diários Associados ter feito escola entre outros empresários de comunicação que ainda hoje negociam elogios ou críticas em troca de anúncios e matérias pagas, o centralismo e a desconfiança do empresário não deixaram herdeiros em seu próprio negócio. Acometido de trombose em 1960, tenazmente Chateaubriand continuou escrevendo suas rentáveis difamações e exaltações até falecer em 1968. Após desastradas administrações, em 1980 o governo cassa a concessão da primeira emissora de TV do Brasil e das rádios do grupo, transferindo-as no ano seguinte ao apresentador Silvio Santos.

Já agraciado pelo General Ernesto Geisel com a concessão do canal 11 do Rio de Janeiro em 1975, e tendo se associado a Paulo Machado de Carvalho na TV Record, Sílvio arremata o que restou dos estúdios da Excelsior na Vila Guilherme e cria a TVS. Mas é com a transferência das concessões do falecido Chateaubriand, através de amizade pessoal com uma lobista de peso: a então primeira-dama Dulce Figueiredo, que Silvio Santos lança o SBT - Sistema Brasileiro de Televisão. Posteriormente vende a TV Record para Edir Macedo, o empresário criador da Igreja Universal do Reino de Deus.

O sistemático desmonte e saque de meios de comunicação e condicionamento de massas atingiu o auge da desfaçatez com a espoliação da TV Paulista de São Paulo, uma concessão à Ortiz Monteiro repassada a Vitor Costa em 1955. Vitor trouxe para a TV nomes já consagrados em programas de rádio e rapidamente distribuiu novas emissoras pelo interior de São Paulo, mas com seu falecimento em 1959 os herdeiros dispõem concessões e equipamentos à venda.

Roberto Marinho, que em 1957 lançara a TV Globo no Rio de Janeiro por concessão anteriormente negada por Getúlio Vargas, mas concedida pelo governo Juscelino Kubistchek; alega haver comprado a TV Paulista do filho de Vitor Costa em 1964. No entanto a empresa não constava no inventário das propriedades do radialista porque o repasse da concessão de Ortiz à Costa nunca foi regularizado por órgão federal, conforme determina a legislação. Se Costa de fato vendeu, Marinho comprou uma propriedade que não existia.

Através de anúncios escondidos entre publicações de restrita circulação, Roberto Marinho convocou uma assembleia extraordinária dos acionistas das Organizações Vitor Costa em 1966. Em fase da evidente falta de quórum ele próprio presidiu a assembleia confiscando 48% das ações da empresa a um cruzeiro por ação. Declarados como mortos ou desaparecidos do recadastramento societário, alguns dos 673 acionistas lesados posteriormente entraram na justiça, mas o golpe de Marinho foi autorizado pelo Ministério das Comunicações recém-criado por Costa Silva.

Simultaneamente o então Ministro da Economia, Delfim Neto, por decreto concede linha de crédito público para aquisição de aparelhos televisores e isenta de impostos a importação de equipamentos de transmissão e produção para as empresas de rádio e televisão.

Também foi o General Arthur da Costa e Silva quem em 1967 contrariou a Constituição Brasileira que, como a de todos os demais países, impedia a gestão de capital estrangeiro em empresas de comunicação. O ditador aprovou acordo de 6 milhões de dólares entre Marinho e o grupo estadunidense Time-Life.

E assim a pequena TV Globo de transmissão restrita à cidade do Rio de Janeiro e sem alcance no interior do mesmo estado, vertiginosamente se tornou a atual Rede Globo de Televisão. Apesar de constarem no cadastro da Receita Federal como os maiores sonegadores de impostos do país, recentemente seus atuais proprietários, filhos de Roberto Marinho, foram separadamente considerados pela revista estadunidense Forbes como as maiores fortunas do Brasil.

Um detalhe paralelo, mas de significativa importância para ser entendido o processo de condicionamento de massas imposto pela ditadura militar é a lembrança de que no mesmo ano em que Roberto Marinho recebia aprovação oficial da ditadura militar para pratica de crimes financeiros e empresariais, além de suspeita de promoção de incêndio criminoso das instalações da TV Paulista para requisição de seguro e falsificações de assinaturas e produção de documentos datilografados em máquinas inexistentes por ocasião das datas suas assinatura - conforme perícias processuais - nas capitais do país estudantes eram espancados por ser manifestarem contra o acordo MEC-USAID, Ministério da Educação e Cultura e a United States Agency for International Development. Desde então o sistema de ensino público do ensino básico ao secundário, até então considerado superior ao privado, degradou-se a um dos níveis mais baixos entre as nações.

Em resposta a um requerimento do senador Roberto Requião, somente em 2014 o Ministério das Comunicações reconheceu não existir qualquer registro da compra da TV Paulista por Roberto Marinho. E a família Ortiz Monteiro ainda luta no STF na tentativa de obter alguma justiça.

Entre demais grandes veículos impressos da mídia brasileira, a história não difere. A exceção dos Mesquitas do “O Estado de São Paulo” que ainda quando “A Província de São Paulo” já apoiaram o golpe dos latifundiários escravocratas que depuseram Pedro II, e desde então constituíram considerável patrimônio apoiando todos os golpes subsequentes, inclusive o de 64; todos as demais oligarquias que monopolizam as comunicações no Brasil foram beneficiadas e promovidas pela ditadura. Como no caso do Grupo Folhas, adquirido de Francisco Matarazzo por Otávio Frias em 1962.

Considerado deficitário pelo próprio empresário que afirmava maior interesse na Estação Rodoviária de São Paulo criada por ele e Carlos Caldeira em 1961, os jornais do grupo abriram guerra contra o governo Abreu Sodré pela contratação do Coronel Américo Fontenelle, técnico especializado em trânsito que resolvera o intricado tráfego carioca.

A contundente e cotidiana campanha de difamação contra Fontenelle teve início quando as observações do técnico detectaram a razão do atravancamento de ônibus urbanos, caminhões e automóveis no centro da cidade; no permanente movimento dos avantajados ônibus interestaduais que de todo o país procuravam a rodoviária da Av. Duque de Caxias para embarque e desembarque de passageiros.

A evidencia do acerto da conclusão de Fontenele não o livrou de 2 meses de furiosas manchetes até ser obtida a demissão do perito, após a qual ao começar a responder à pergunta sobre o que a motivara em entrevista de programa de TV ao vivo, repentinamente o coronel se interrompe, olha fixamente para a câmera, treme e desaba. Morreu assassinado pela pior arma que existe no país: a mídia.

Em contrapartida à demissão de Fontenelle, o mesmo Abreu Sodré recebeu o apoio de Otávio Frias através do empréstimo da frota de veículos de distribuição das edições diárias do jornal para as atividades da Operação OBAN, uma das mais criminosas criadas pela repressão da ditadura militar, financiada também pelo empresário dinamarquês Heinning Boilesen da Ultragás, comandada pelo major Brilhante Ulstra e criada pelo próprio Sodré. A partir de então a “Folha de São Paulo” consegue concorrer com o “Diário Popular” e se aproxima à tiragem do “O Estado de São Paulo”, que talvez tenha ultrapassado mesmo antes da transferência da rodoviária para o Terminal Tietê em 1982.

A intimidade das relações entre a ditadura e os crimes da mídia hoje tão moralista com políticos e governantes que não atendem aos seus interesses, atingiu níveis tão escandalosos que alguns projetos não foram consumados conforme o planejado. Um desses casos foi o empreendimentos da Rede de Hotéis Quatro Rodas, erigidos nas mais turísticas praias do nordeste com financiamento da SUDENE, órgão de financiamento de obras e ações de combate aos efeitos da seca, e do BNH – Banco Nacional de Habitação. O golpe às finanças públicas veio a furo e a Editora Abril foi obrigada à vender as edificações já construídas à rede internacional Meredien.

Mas é em 1989 que o poder da mídia se consolida na consciência do povo brasileiro impedindo a realização democrática do que deveria ter sido a primeira eleição à presidência do Brasil desde a que em 1960 elegeu Jânio Quadro. Uma escolha errada, mas democrática e não por indução e condicionamento como qualquer voto de cabresto.

Em cerca de ano de massiva campanha por rádio, TV, jornais e revistas, as oligarquias da mídia brasileira transformaram um desconhecido governador de hábitos de consumo de produtos químicos não recomendáveis em herói de fantasias juvenis: “O Caçador de Marajás!”.

Filho do udenista e senador biônico pela ARENA, Arnon Afonso de Mello que dentro do Senado Federal, em 1963, disparou três tiros contra seu desafeto político do PTB, o militar Silvestre Péricles. Disparado de apenas de 5 metros de distância, nenhum dos tiros atingiu Silvestre, mas com um deles o pai do Caçador de Marajás assassinou o senador do Acre, José Kairala.

Arnon nunca foi julgado por seu crime, mas arma que projetou seu filho para dar continuidade a ditadura em 1989 foi certeira e sob o cabresto da mídia se elegeu à presidência do Brasil um dos maiores desastres políticos do país, dois anos depois cassado.

O degradante caráter do Caçador de Marajás acabou tornando-se um estorvo aos seus próprios criadores e, conforme o próprio Roberto Marinho declarou à equipe de reportagem da BBC, os que o colocaram como presidente, o depuseram.

Com aquele o fracasso do golpe da mídia de 1989 finalmente os brasileiros começaram a aprender a votar e em 94, enfim elegeram um projeto político. Mais tarde também se revelou o pior projeto já traçado para o país, mas ao contrário do retorno deste mesmo projeto neste ano de 2016, lá em 1994 aquele projeto, ainda que igualmente baseando-se em mentiras, foi de fato eleito e não imposto como golpe tal qual acontece agora.

A arma da mídia continua engatilhada e apontada para a cabeça de cada brasileiro, incentivando-os ao mínimo esforço de apenas puxar o gatilho sem defender seus direitos democráticos para trazer o mal fadado projeto democraticamente rejeitado pelos brasileiros em 2002, 2006, 2009 e 2014. Mais isso é outra história que talvez algum dia se conte.

Raul Longo



Leia também:

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 1ª parte (de Getúlio à Jango)‏

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 2ª parte

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 3ª parte‏

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