6 de jul de 2016

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 2ª parte

A PRIMEIRA MORTE

DA DEMOCRACIA BRASILEIRA


A ilustração do Latuff se refere à segunda vida da democracia brasileira. Discordando das efemérides apontadas na lápide, anteriormente resumiu-se a história dos 19 anos da primeira vida da democracia entre nós. Aqui se resume os primeiros 21 anos do tempo em que a democracia esteve sepultada, esperando haver talento para posterior discorrer sobre os oito anos restantes e, se ainda sobrar fôlego, rememorar a segunda vida da democracia brasileira. Período que não corresponde às datas indicadas na charge, mas de forma alguma a torna menos excelente e apropriada.

Não é de hoje que golpista não gosta de ser chamado de golpista. Mesmo quando os golpes promovidos no Brasil não angariavam tanto interesse da imprensa internacional, nunca ninguém quis vestir a carapuça de golpista. Mas é pelo evidente que são lembrados ao longo da história.

Militar, financeiro ou jurídico, todo golpe é indisfarçável seja qual for a fantasia tecida para enfeitar a nudez explícita, realçando o ridículo dos que fingem admirar o debruado do inexistente manto do rei.

Ao desnudo, golpe serve a interesses específicos e a história confirma que desse banquete não restará panelas a raspar, sequer aos que nelas batucaram sob o comando do apito da mídia.

Em verdadeiras democracias, se descoberto que o candidato eleito trapaceou para alcançar o cargo de forma fraudulenta, justificasse o tal impeachment. E, invariavelmente, foge da passarela como Richard Nixon, único presidente dos Estados Unidos a renunciar ao mandato.

Também pode ocorrer de depois de eleito, mesmo que não democraticamente, o golpista ser deposto por seus próprios criadores insatisfeitos em suas ansiedades. De nariz empinado o golpista abandona a passarela fingindo-se traído na dignidade que não tem. Se tivesse não seria golpista.

Todo apoio a golpe têm seu preço e se não imediata e satisfatoriamente recompensado, é o próprio alfaiate quem denuncia a inexistência da fantasia, conforme confessou Roberto Marinho para estupefatos britânicos ao cassar o “Caçador de Marajás”: “- Nós o pusemos, nós o tiramos”.

Daí ser bem provável que antes do que espera o aparvalhado que ainda festeja o golpe que apoiou e ajudou a tecer, se sinta mal retribuído. Desses há os de riscos de delação, como o Eduardo Cunha, e os ingênuos que realmente acreditam combater corrupção através de golpe à democracia. Dos últimos, muitos já se dizem decepcionados com a efetiva ascensão da corrupção ao poder.

Apesar disso, até uma Ministra do STF acredita nos debruados da fantasia, pois nunca faltam aqueles que reincidem na compra de bilhete premiado.

Jânio Quadros, como revelado na confidência tornada pública pelo próprio sobrinho, recorreu à renúncia com intenção golpista; mas os demais exemplos citados preferiram salvar a pele do rascar do sarjão do impeachment. E de narizes empinados por dignidades há muito escoadas pelos bueiros, postularam por novas oportunidades concedidas por eleitores que tornam cada eleição em sumidouro da democracia e do futuro da nação.

Em nosso histórico, a única renúncia por imposição e não para escapar de impeachment foi a do coitado do marechal Deodoro que insuflado por intrigas protagonizou o primeiro golpe da história, instituindo a república. Acabou sendo renunciado pela Primeira Revolta da Armada sob o comando de seu vice, conterrâneo e colega de farda e patente, o marechal Floriano Peixoto.

Como Marinho fez com o Collor, os mesmos intriguistas que o usaram para golpear Pedro II por causa da abolição da escravatura, dois anos depois, em 1891, com receio de que o arrependido Deodoro restaurasse a monarquia e chamasse Dom Pedro de volta da Europa; impuseram o Floriano.

De farda, toga ou em trajes civis, há sempre um golpe dentro do golpe. Os golpistas sabem disso e daí ansiarem pela renúncia do deposto, para na confirmação do poder realizar o que os motivou ao golpe e não seria aceito pelo voto em um pleito democrático.

Mas eis que quebram a cara com inesperada dignidade que não necessita de fantasias para apontar indignidades evidentes no próprio processo golpista. Indignidades acusadas internacionalmente e assumidas por seus mesmos executores, enquanto à insistência da dignidade intacta da primeira mulher a presidir o país e o primeiro presidente da república a não fugir da passarela para se esconder da farsa do impeachment, conferem-se plenos direitos de denunciar a nudez por baixo da fantasia dos que fiaram e costuraram o golpe.

Mais há a temer pelos do golpe, por saberem que todo golpe traz em si outro golpe como confirma a história dos 21 anos da ditadura militar em que as sucessões entre os próprios generais resultavam de golpes internos.

Castelo Branco só passou o cargo à Costa e Silva por pressão e o ter cedido não o livrou de colisão aérea em espaço remoto e sem tráfego de aeronaves. Um “acidente” até hoje inexplicável.

Apesar de ter promulgado o AI-5 em 1968, no ano seguinte Costa e Silva convocou uma comissão de juristas para elaboração de emenda constitucional onde se incluía a extinção do AI-5. Segundo o jornalista Carlos Chagas, o próprio Costa e Silva presidiu todas as reuniões da comissão anunciando a assinatura da emenda para o seguinte dia da Independência de 1969. Uma semana antes morreu de derrame cerebral, mas os que reportaram o velório não entenderam porque em momento algum se abriu o caixão nem se revelou o rosto para as derradeiras exéquias ao defunto.

A emenda de Costa e Silva não previa a redemocratização do país, mas ao menos tornaria a constitucionalizá-lo. Pois foi sumariamente suspensa no assumir de Junta Militar que promulgou outra, chamada “Constituição de 69”. Naquela, a primeira medida foi impedir a pose do vice, o jurista Pedro Aleixo, para empossar o general Emílio Garrastazu Médici.

Do velório de Médici, em 1985, João Batista Figueiredo foi expulso por familiares do defunto aos gritos e xingamentos de “Canalha!”.

A cada golpe dentro do golpe de 1964 aumentava a falta de liberdade, a censura, as prisões, as torturas, exílios e mortes. A covardia da barbárie que espantava ao mundo tentava se justificar como “Revolução” para evitar que no Brasil se repetisse a falta de liberdade, censura, prisões, torturas, exílios e mortes que ocorreriam na ditadura comunista de Fidel Castro.

Só não diziam que em Cuba se estuprava cidadãs cubanas, mas aqui isso era recorrente com jovens aprisionadas ou não. Inclusive filhas de colegas de farda como a do General Zerbini que apesar de nunca ter sido prisioneira da ditadura ou de qualquer outro regime, foi violentada em 1970 ao tentar visitar a mãe, Terezinha Zerbini, encarcerada por acolher ao Frei Tito quando aprisionaram mais de 700 estudantes no Congresso de Ibiúna. Contra a falta de liberdade do comunismo cubano, extinguiam a liberdade dos estudantes brasileiros. Também a dos artistas e intelectuais. Dos jornalistas inclusive. E, por que não, dos trabalhadores também.

Como toda fantasia golpista, a da “Revolução” não convenceu desde o princípio. Nem poderia! Em qual verdadeira revolução da história não se viu nem ouviu um só tiro?

Conforme identificou o jornalista Carlos Heitor Cony em crônica da época, na manhã do dia 1º de abril de 1964 interditaram a passagem de automóveis em determinado logradouro da cidade do Rio de Janeiro sobrepondo dois paralelepípedos, um sobre o outro. Entendeu Cony ter sido este o ato “revolucionário” do golpe de 64.

Dois paralelepípedos instituíram uma ditadura já de início tão enferrujada quanto a primeira ditadura da República, a do “Marechal de Ferro”. Após o golpe contra Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto decretou estado de sítio e também destituiu, prendeu e exilou opositores políticos, além de ameaçar os ministros do STF quando Rui Barbosa pleiteou habeas corpus em favor dos detidos: "- Se os juízes concederem habeas corpus aos políticos, eu não sei quem amanhã lhes dará o habeas corpus de que, por sua vez, necessitarão".

De farda, toga ou terno, a arrogância dos golpistas é sempre a mesma. E a falta de dignidade dos que os temem, também. Acovardado, o STF de então negou os habeas corpus solicitados pelo republicano Rui Barbosa por dez votos a um. Dessa forma, ao contrário de Deodoro, Peixoto venceu a Segunda Revolta da Armada voltando-se violentamente contra os próprios companheiros de farda que liderara contra seu antecessor. E para isso também recorreu à Marinha de Guerra dos Estados Unidos em 1894, como exatos 70 anos depois fez o embaixador Lincoln Gordon para proteger os oficiais de baixo relevo no Exército Brasileiro que havia comprado em notas de dólar.

Com a participação da Marinha de Guerra dos Estados Unidos se teceu a fantasia da “Revolução de 64” amontoando dois paralelepípedos. Um sobre o outro. Mas longe dos olhos civis do Cony, dentro dos quartéis se executaram as primeiras vítimas fatais do golpe. Só no quartel de Carapicuíba, interior do estado de São Paulo, executou-se todo um batalhão de legalistas.

O heroico legalista marechal Teixeira Lott, liderança de todas as armas brasileiras, num gesto exemplar recolheu-se da vida militar. No entanto, a despeito da admiração que lhe devotavam, nem todos os legalistas puderam se conter perante o uso da farda contra a constitucionalidade da pátria. Ao contrário de JK quando em 1956 anistiou os militares golpistas da Aeronáutica no levante de Jacareacanga, não foram perdoados pelos colegas golpistas.

Houve quem acusasse Lott e Jango de covardes por sequer esboçarem resistência à quartelada, mas só depois da abertura dos arquivos do Pentágono, neste século, é que se soube quais foram os verdadeiros covardes, pois além dos dois paralelepípedos documentados pelo Cony a fantasia da “Revolução de 64” só teve coragem de desfilar na passarela da história quando acobertada pela “Operação Brother Sam”, culminada com o descolamento da frota da Marinha dos Estados Unidos sediada no Caribe para as costas do Espírito Santo e Rio de Janeiro.

Segundo palavras do Congresso dos Estados Unidos, mais que um golpe a “Revolução de 64” foi um assalto armado à nação:

“O embaixador Lincoln Gordon admitiu mais tarde que a embaixada tinha dado dinheiro a candidatos anti-Goulart nas eleições municipais de 1962 e encorajado os conspiradores; que muitos agentes das Forças Armadas dos Estados Unidos e pessoal extra da agência de inteligência estavam operando no Brasil; e que havia quatro navios tanques e o porta-aviões USS Forrestal da Marinha dos Estados Unidos, numa operação de codinome Brother Sam. As forças estavam ao largo da costa e, em caso de necessidade durante o golpe de 1964, agiriam rapidamente.”

A “Operação Brother Sam” de fato foi deflagrada em 31 de março, quando a frota bélica estadunidense partiu do Caribe, mas os covardes paralelepípedos foram o maior “1º de Abril” no povo brasileiro. E por mais que se insista na fantasia não há como mentir nem omitir a nudez da covardia dos golpistas que, como tal, impudicamente entraram para a história envergonhando internacionalmente as Forças Armadas Brasileiras.

Com ou sem farda, de toga ou cotidiano traje civil, todo golpe está nu e tem medo da democracia que compromete a consecução de interesses escusos ou ameaça revelar atos ainda mais escusos. Mas qual seria o real interesse dos investimentos dos Estados Unidos?

Sem dúvida não haveria de ser a ditadura comunista de Fidel Castro, ali mesmo no Caribe de onde deslocaram seus vasos de guerra. Mas tampouco foi a Petrobras como em 1954, na tentativa do golpe frustrado pelo trágico suicídio de Vargas.

Ao contrário de quando se pretendeu privatizar a Petrobras como Petrobrax no ano 2.000, em razão das projeções indicarem a existência do Pré Sal, a segunda maior reserva do mundo; em 1954 não se tinha ideia do potencial petrolífero do subsolo brasileiro que entre 54 e 64 se comprovou insuficiente para a demanda do consumo interno, crescente com a implantação da indústria automobilística a partir de 1956.

De toda forma é possível imaginar que se ao invés do monopólio estatal se houvesse permitido que estrangeiros levassem nosso petróleo como então pretendia a UDN e hoje deseja o PSDB, não teríamos as enormes distâncias do país percorridas por automóveis e caminhões. Tampouco tantas estradas. Alimentos e produtos em geral seriam muito mais caros para compensar a importação de combustível.

Lembrando ainda que petróleo não é só combustível, mas matéria prima para confecção de quase tudo, inclusive como substitutivo de madeira. Ao contrário do que imaginam ecólogos desavisados ou estrategicamente utilizados, a degradação do meio ambiente seria ainda maior do que os recorrentes desastres na extração e vazamentos nos oleodutos, tão comuns nos anos do governo PSDB. Não há forma mais segura de evitar o desflorestamento amazônico do que o emprego do potencial petrolífero nacional como substituto de matérias-primas obtidas através de reais e profundos danos ambientais.

No entanto, segue a dúvida: Por qual motivo o investimento e custo do deslocamento da frota de guerra dos Estados Unidos? Apenas para não mudar o assunto, fiquemos na sequência do parágrafo anterior, lembrando de que na falta de qualquer controle do contrabando e exportação de madeira, o desmatamento amazônico alcançou recordes ao longo de toda a ditadura militar, provocando reiteradas advertências internacionais, sobretudo da imprensa do Canadá que mais denunciava o que então era considerado o maior crime ambiental praticado no mundo: o Projeto Jari.

Em área do tamanho do estado de Sergipe adquirida pelo megaempresário estadunidense e homem mais rico do mundo na época, Daniel Keith Ludwig, desde o Japão até a divisa do Amapá com o Pará se rebocou duas enormes plataformas flutuantes: uma fábrica de celulose e uma usina termoelétrica. Montadinhas e prontas para funcionar.

A imprensa mundial acusava o enorme crime ambiental permitido pela ditadura militar brasileira, enquanto a do Brasil, através de jornalistas como Elio Gaspari da Folha de São Paulo, protestava veementemente contra ingerências e exigências do governo ditatorial, considerando-as empecilhos à evolução de uma região pela qual nunca antes a Folha ou o Gaspari externaram a menor preocupação. Se é que sabiam em exatamente qual dos estados amazônicos se situava o Jari!

Por que a ditadura se incomodaria com Ludwig, se tão placidamente assimilava outros tantos empreendimentos como a instalação da Usina de Angra 1 pela Westinghouse que já apresentou problemas desde o início e por pouco não foi desativada? Talvez a realidade que a fantasia impedia Gaspari de enxergar tenha se desnudado quando de tanto a imprensa brasileira defender seus “bons propósitos”, repentinamente Ludwig desinteressou-se do negócio e o repassou para o governo da ditadura militar. Segundo o próprio trilionário, desde 1967 investira US$ 863 milhões. O general Golbery do Couto e Silva arrematou o empreendimento por US$ 1,15 bilhão em 1981. Um rendimento de mais de US$ 200 milhões em menos de 15 anos, como convém a quem em seu tempo construiu a maior fortuna do mundo.

Na onda das privatizações do governo PSDB, no ano 2000 a Jari Celulose passou a ser administrada pelo Grupo Orsa e desde então é considerada economicamente viável. Perdeu-se lá, acolá e aqui. Tirante comissões de praxe, quem ganhou? Ou, quem mais ganhou?

Foi em 1980 que, por mero acaso, um candango nordestino recém-chegado à São Paulo vindo do Jari me deu alguma pista para a resposta dessa pergunta quando quis saber o que fazia por lá. Laconicamente respondeu ter sido um “desmiola toco”. Dada a minha incompreensão, contou que ao longo de 6 meses (prazo máximo de contratação de serviços de brasileiros pelo empreendimento) retirou o centro de toras de árvores deixando somente o suficiente para sustentação da casca. Não pude compreender a utilidade e pacientemente discorreu sobre o preenchimento do oco das toras amazônicas desmioladas, com pedras. Dali transportada por barcaças que seguiam o rio até o porto de Belém de onde eram embarcadas em navio.

Não precisou dizer para onde e nem quais as propriedades ou valores minerais daquelas pedras, pois imediatamente recorri a um gravador acreditando haver encontrado um furo de reportagem que abalaria a imprensa canadense. Mas quando repassei a informação a outros colegas jornalistas, inclusive da Folha de São Paulo, sugerindo a publicação da entrevista-denúncia; perguntaram se estava pretendendo ser morto e que matassem o entrevistado?

Assim era ditadura por baixo da fantasia de “Revolução”. Mas quem de fato a rasgou não foi ninguém menos do que o General Ernesto Geisel: “...o que houve em 1964 não foi uma revolução. As revoluções se fazem por uma ideia...”.

Acuse-se Geisel do que quiser, mas dele não se esperasse afetados ademanes para tentar convencer que por não esconder nada nas mangas, teria condições de ser o mágico do picadeiro do circo de golpistas. Não é nas mangas que se esconde ou se evidenciam os truques de corrupção e Geisel assumia sua função de ditador. Mas numa democracia só tem condições de ser presidente quem o povo elege. Se o eleito comprovar não ter condições para o cargo, caberá ao povo depor a quem elegeu. Nunca a esse ou aquele Roberto Marinho.

Paletós de fino corte e ademane de ilusionista ou mágico de circo de horrores não dá condições de ser nada além de elemento decorativo de internacionalmente reconhecido golpe, posto que presidente democrático só se reconheça em condição de eleito. Ainda que o eleitor por vezes se iluda com fancarias de megalômanos como no caso de Adolf Hitler, Jânio Quadros ou FHC, condições para governar só necessitam os elegidos.

Numa ditadura militar não se trata disso. Nem mesmo se faz necessário Procurador da República para engavetar processos ou juízes para vazar seletivos segredos de justiça e premiar denúncias de roteiro pré-estabelecido. Ditaduras militares dispõem de censura prévia e nenhum general precisa ficar jogando mãozinha pra cá e pra lá, fingindo-se indignado por denúncias do que a todos é evidente.

Militares não se preocupam em enganar a ninguém. Apenas se escondem atrás de óculos escuros e encaram o povo na cara dura e de queixo erguido. Tinham a franqueza de admitir preferência pelos cheiros dos cavalos ao do povo, sem fingir preocupações ou interesse com a realidade social do eleitorado. “Um tiro na cabeça!” – foi o que Figueiredo recomendou aos assalariados quando o repórter perguntou o que faria se mensalmente percebesse o salário que seu próprio governo definia. Bem mais honesto do que tentar convencer o eleitorado de que a escravidão abolida em 1888 será melhor por garantir pleno emprego.

Eleitores são de eleitos, não de golpistas. Se tivessem eleitores não precisariam armar golpe. Que prometam a extinção das leis trabalhistas em campanha eleitoral!

Entre toga ou traje civil, as fardas mentem menos, pois além da força das armas se mantêm com eventuais fantasias como a que maravilhou espectadores de farsas ocasionais com o nome de “Milagre Brasileiro”.

Entre 1968 e 1973 a farsa do “Milagre Brasileiro” fez o PIB saltar de 9,8% para 14%, mas a inflação subiu de 19,46% para 34,55%. Ainda assim, menos aviltante e degradante do que a farsa da terceirização, mero neologismo para moderna escravidão.

Em 1970 o Brasil se sagra tricampeão de futebol e aos ruídos da realização da fantasia esportiva do povo se misturaram os dos festejos pelo “Milagre Brasileiro”, encobrindo os gritos dos torturados nas masmorras ao longo dos chamados “Anos de Chumbo” quando a censura mais profundamente tolheu a liberdade de expressão, aumentaram os exílios, as prisões, os desaparecimentos e as mortes.

Por fim, quando se apresentou a conta o país descobriu-se com um déficit de US$ 8 bilhões. Os 5% mais ricos da população aumentaram a participação na renda nacional em 9%, detendo 36,3% do montante do rendimento do que era produzido no Brasil. Enquanto a participação dos 80% mais pobres diminuíra 8,7%, dividindo 36,8% do rendimento.

Aos 15% da classe média restou a divisão entre si de 26,9% da renda nacional. Mas como então cantava Gonzaguinha: “A classe média ainda aplaude, ainda pede bis. A classe média só deseja ser feliz.”

O que cantará a classe média terceirizada? Quanto restará à classe média que bateu panelas em prol do golpe em curso? Psicólogos, médicos, dentistas, professores, administradores de cursos particulares e profissionais liberais das mais diversas áreas já sentem a redução de clientes, alunos, contratos e agendamentos pela incerteza de seus clientes sobre quando será oferecida oportunidade de trabalho e remuneração. Pleno emprego de quantos em quantos meses por trabalhador?

Aí o analista econômico da imprensa neoliberal convence seu incauto leitor de que se a qualidade e a demanda declinar, o próprio sistema pressionará pela reversão do modelo. Por que o sistema haverá de se preocupar com qualidade? Por que se preocupar com a demanda interna, se o baixo custo da mão de obra aqui garantirá o consumo do mercado externo onde existe democracia para o povo requerer direitos adquiridos ao longo de sua história?

Como pleitear seguro desemprego, atendimento de saúde, férias, e demais regulações que garantam alguma participação na mais-valia do que foi produzido ou do serviço prestado? A participação no lucro? Quem lucra, além dos financistas do golpe? Por que ou para que se financia um golpe?

Financiamento de campanhas políticas revelam interesses corruptos, mas não necessariamente antagônicos aos da população. Se não antagônicos à população, porque os interesses dos golpes não são democraticamente postulados para eleição de projeto de governo?

Se o financiamento de campanha política promove corrupção, financiamento de golpe político promove o quê?

Sobreviver será o milagre. Enfim, a concretização da profecia de Ernesto Geisel: “- Vocês ainda sentirão saudade da ditadura.”

Durante a farsa do “Milagre Brasileiro se realizaram as chamadas “obras faraônicas”: Ponte Rio-Niterói, Usina de Itaipu, Angra 1 e a Transamazônica que 4 décadas depois continua não levando nada a coisa alguma. Até 1985 tudo isso provocou um aumento da dívida externa que era de US$ 4 bilhões em 1964 para o valor de US$ 100 bilhões que causticou o viver do povo brasileiro até 2005.

O que construirá o governo deste golpe em curso? Em 21 anos, apesar de uma dívida de U$ 100 bilhões ao menos deixaram uma estrada ainda que sem serventia, uma ponte que continua sendo a mais extensa do país, uma usina hidroelétrica que embora já não seja a maior é a mais produtiva do mundo e uma usina nuclear que agora funciona. Em oito anos o governo do PSDB elevou essa dívida para US$ 231 bilhões e construiu o quê?

O que construirão os do golpe em curso? Ou também irão apenas privatizar? Dos tais tantos ministros e do próprio golpista que os preside, todos acusados de desvios na Petrobras, quantos deram quantos interessados em ser redimir das corrupções cometidas?

Se por mágica se tornam insuspeitos, por que não tentar ilusionismos para nas urnas conquistar eleitores? Afinal, não foi o ilusionismo da mídia que elegeu o Caçador de Marajás?

Concluindo: apesar do bloqueio internacional que faz de Cuba um dos países mais pobres do mundo, anualmente a Ilha caribenha é indicada pela Organização Mundial de Saúde como exemplo internacional em atendimento de saúde pública e seus médicos participam de programas de cooperação internacional firmados com mais de 40 nações, inclusive capitalistas como o Reino Unido.

Há cerca de uma década Cuba também é anualmente indicada pela UNICEF como exemplo internacional de alfabetização e educação pública. E seus programas de cooperação internacional em alfabetização, firmados com países da África e da América Latina, também são notabilizados pelas entidades internacionais de educação.

Do golpe de 64, fantasiado como “Revolução” contra o comunismo cubano, herdamos uma ponte, uma usina hidroelétrica, uma estrada abandonada e uma usina nuclear que após onerosos reparos só pode operar em meados da década de 90. Com a dívida de 100 bilhões de dólares herdamos tudo isso ao derrubar a ditadura, afora a lembrança de centenas de pessoas mortas e desaparecidas e outras centenas de traumatizados e mutilados.

Cuba continua sendo comunista e agora com reatamento diplomático proposto pelos mesmos Estados Unidos da “Operação Brother Sam”. Mas o que interessa mesmo saber é o que herdaremos do golpe em curso?

Revoluções verdadeiras e até mesmo algumas ditaduras já promoveram reais e significativos avanços e conquistas sócio/econômicas, mas historicamente os golpes políticos, em quaisquer dos países onde se realizam, só deixam prejuízos que muitas vezes oneram várias gerações, inclusive as muito posteriores aos golpistas; comprovando que de farda, toga ou terno só o que há a esperar é o outro golpe que vem dentro de cada golpe.

E depois, mais uma vez, pagar a conta.

Raul Longo



Leia também:

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 1ª parte (de Getúlio à Jango)‏

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 3ª parte

A Morte e A Morte da Democracia Brasileira — 4ª parte

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Comentários com links NÃO serão aceitos.

Os comentários são de total responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do blog

Comentários anônimos NÃO serão publicados, como também não serão tolerados spams, insultos, discriminação, difamação ou ataques pessoais a quem quer que seja.

É vetada a inserção de comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem direitos de terceiros. O blog poderá retirar, sem prévia notificação, comentários postados que não respeitem os criterios impostos neste aviso ou que estejam fora do tema proposto.