21 de jul de 2016

A cidade catarinense onde uma rua separa três cidades, três Estados e dois países

Setembrino é morador de Barracão, mas as cinco filhas dele residem na Argentina
Foto: Emerson Souza
Caminhar livremente por três cidades, três estados e dois países em apenas uma rua é o que possibilita o Extremo-Oeste de Santa Catarina. É lá onde fica Dionísio Cerqueira, a 700 quilômetros de Florianópolis, cidade que faz divisa com Barracão, no Paraná, e fronteira com Bernardo de Irigoyen, no Estado de Missiones, na Argentina. O município catarinense de 15 mil habitantes tem uma rotina dividida com os paranaenses e argentinos. 

Ao circular pela região, somente quem mora por lá sabe onde realmente está. A dica para os visitantes está nos postes de energia elétrica. Os redondos, vermelhos e verdes são catarinenses, enquanto os quadrados, verdes, azuis e brancos sinalizam a cidade paranaense.

Na terça-feira, no Diário Oficial da União, o Governo Federal reconheceu oficialmente um título que os moradores locais já usam há muito tempo. A publicação declara que Dionísio Cerqueira e Barracão estão na lista dos 33 municípios brasileiros considerados cidades-gêmeas. O ato do Ministério da Integração Nacional leva em consideração o crescimento da demanda por políticas específicas para as regiões de fronteira e a importância delas para a integração sul-americana, mas não aponta benefícios claros a curto prazo.

Na foto acima, à direita fica a Argentina, à esquerda o Paraná e à frente, no prédio, Santa Catarina
Foto: Emerson Souza
Cruzar do Brasil para a Argentina a pé não precisa de autorização ou fiscalização, basta atravessar a rua. No lado argentino, as lojas com produtos alimentícios são as mais procuradas. A travessia com carro, porém, precisa ser feita pela aduana. E é por isso que a todo instante turistas estacionam o carro do lado brasileiro e caminham até a Argentina para comprar vinho, doce de leite, azeite de oliva e outras coisas. Assim como são comuns as histórias de pessoas que moram em uma cidade e trabalham em outra.

O aposentado Setembrino Nunes de Proença, 67 anos, é gaúcho, assim como grande parte dos moradores da região. Mas reside em Barracão há 40 anos. Suas cinco filhas se casaram com argentinos e todas moram no país vizinho. Mesmo assim, Proença diz que não fala espanhol, mas elogia o lugar onde vive. Apesar de ser uma fronteira, região normalmente conhecida por insegurança, ele diz que nas cidades-gêmeas a situação é diferente:

— Um lado presta serviço para o outro. É um lugar bom de viver e seguro.

Outro ponto de travessia entre os dois países é o Parque Turístico Ambiental de Integração, construído em parceria entre as três cidades da região. Desde 2009, os municípios, incluindo também Bom Jesus do Sul (PR), distante oito quilômetros de Barracão, criaram o Consórcio Intermunicipal da Fronteira, que desenvolve ações e constrói obras na região. O responsável por fiscalizar o lado brasileiro do parque é um morador de Dionísio Cerqueira. Com um chapéu de palha para escapar do sol, Claudi Valentim dos Passos é responsável por manter a área limpa e organizada. Sob os olhos dele, os visitantes passam de um lado ao outro carregando sacolas.

— No verão movimenta bastante. Agora tem mais argentino vindo pro Brasil também, porque aqui algumas coisas são mais baratas para eles — contou o funcionário da prefeitura.

Claudi é o fiscal do parque de integração, que divide Dionísio Cerqueira de Bernardo de Irigoyen  
Foto: Emerson Souza
Crise brasileira afeta comércio argentino

A estrutura do comércio na tríplice fronteira não se compara ao que existe nas fronteiras do Rio Grande do Sul com o Uruguai e de Foz do Iguaçu com o Paraguai, por exemplo, mas ajuda a movimentar um milhão de turistas por ano. As lojas que mais atraem turistas são as de cosméticos, bebidas e produtos alimentícios. Porém, desde o começo do ano passado o movimento caiu consideravelmente por causa da crise brasileira. Além disso, as medidas tomadas pelo novo governo argentino desvalorizaram a moeda local.

O empresário Juan Alberto Junes, que herdou o supermercado da família criado em 1929, afirma que as vendas caíram consideravelmente:

— Nosso público é praticamente de brasileiros. Nós acompanhamos o Brasil e aqui um país depende do outro — explicou o comerciante.

O que são cidades-gêmeas:

A lei publicada ontem define critérios para que uma cidade seja considerada gêmea. Em SC, somente Dionísio Cerqueira foi classificada dessa forma:

— Serão considerados cidades-gêmeas os municípios cortados pela linha de fronteira, seja essa seca ou fluvial, articulada ou não por obra de infraestrutura, que apresentem grande potencial de integração econômica e cultural, podendo ou não apresentar um conjunto urbano com uma localidade do país vizinho.

— Não serão consideradas cidades-gêmeas aquelas que apresentem, individualmente, população inferior a 2.000 (dois mil) habitantes.

Ânderson Silva

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