24 de jul de 2016

10 regras para não ser um idiota em debates


O estudo das argumentações e as maneiras de aperfeiçoar um debate filosófico têm seus conhecimentos advindos do campo da Lógica, na Filosofia.

Você é livre para expressar suas ideias e defendê-las, mas é necessário saber defendê-las de maneira correta. Para que ideias sejam aceitas é necessário saber mostrar que as mesmas são — plenamente — válidas.

Para defendermos uma opinião ou um possível fato utilizamos premissas e argumentos.
As premissas são pontos de partida para um raciocínio. As bases de uma tese, necessárias na formação de um argumento. Para cumprirmos com um raciocínio correto é necessário estar atento a dois detalhes: 1 – As premissas devem ser verdadeiras. 2 –  O argumento deve ser válido para que a conclusão se siga das premissas, caso contrário teremos uma inconsistência.

Segue um exemplo:

Nada existe, se A não existir.

Mas B pode existir sem que A exista.

(A afirmação acima consiste na falácia Non Sequitur.)

Falácias são erros de raciocínio formal que visam enganar as pessoas a fim de fazê-las aceitarem ideias, persuadindo-as de maneira um tanto desonesta (quando proposital). Para as evitarmos devemos estar atentos à forma que raciocinamos problemas e soluções.

Disse Schopenhauer, em sua obra incompleta sobre dialética erística, publicada postumamente:

"Como em qualquer disputa, em uma discussão o que está em ação não é o desejo pela verdade, mas o desejo pelo poder. E o ser humano, que não é um ser especialmente nobre, revela seu lado mais sombrio: a vaidade e a hipocrisia triunfam. Desafiar uma convicção soa como desvalorizar a personalidade; uma refutação é considerada acusação de inferioridade  intelectual. Portanto, cada um se agarra desesperadamente às suas afirmações; mesmo aqueles que duvidam da legitimidade de sua causa, fazem todos os esforços para, pelo menos, parecer vitoriosos. Assim atacam muitas vezes de maneira intencional, e outras tantas vezes de forma parcial ou completamente passional com todos os tipos de truques e subterfúgios dialéticos. E eles são numerosos e variados, mas repetem-se por toda parte: nas conversas diárias e nas polêmicas dos jornais, em debates parlamentares e em processos judiciais; e até mesmo em discussões acadêmicas, deparamos hoje com os mesmos truques e subterfúgios utilizados há séculos." [1]

Para conseguirmos manter uma boa postura em meio a debates é necessário aprender algumas regras básicas, como segue:

Regra n° 1: Seja sensato. 

Sensatez é de suma importância nesses momentos. Quando perdemos a sensatez em meio a discussões passamos a utilizar da emoção, e, por conseguinte não conseguiremos acessar e transmitir as ideias de maneira plenamente racional/lógica. Você não pode ser emotivo e nem tentar — desesperadamente — despertar o senso emotivo de seu oponente de debate, pois isso demonstra uma certa preocupação em fazer com que ele veja as coisas pelo lado emocional, e não o racional. E quando você faz isso de maneira apelativa está cometendo uma falácia lógica.

Há uma falácia bem comum chamada de Ad Passiones (apelo à emoção) que é mais ou menos assim:

João é contra a redução da maioridade penal.

Já a Maria, sua amiga, não.

Maria ao tentar desesperadamente defender sua ideia profere a seguinte frase: “Quando você for assaltado ou alguém da sua família for morto por um menor de idade, você vai concordar comigo”

Mas veja bem… A discussão sobre a maioridade penal é algo delicado a ser analisada com cautela tendo em vista conhecimentos jurídicos, conhecimentos no campo da Sociologia, Psicologia etc. Maria, ao proferir isto, esqueceu que leis não são feitas para satisfazer o desejo de vingança de vítimas (desejos emocionais), e sim tentar trazer ordem à sociedade.

Ao apelar para o emocional de João Maria tenta com que ele mude de opinião ao deixar a emoção falar mais alto. Então qual seria o correto? O correto seria Maria explicar de maneira racional como a aplicação de tal lei seria positiva para sociedade, apresentando seu argumento embasado por dados verídicos de — por exemplo — psicologia juntamente de estatísticas, ou outras coisas que validem de maneira racional o seu interesse. E mesmo que não fosse capaz de embasar com dados científicos, que pelo menos defenda de maneira racional aquilo que é melhor para a sociedade.

Assim como João não pode defender sua tese na base da ‘pena’, Maria não pode fazer o mesmo por ‘revolta’.

Regra n° 2: Respeite o coleguinha.


Quando estamos numa discussão temos como foco ideias e argumentos. O nosso oponente de debate não tem que ser julgado. Se o seu colega disser que o Reino Unido fez bem ao separar-se da União Européia por motivos X, Y e Z, você não deve dizer que ele é um xenófobo safado e analfabeto, e sim mostrar a ele que os motivos X, Y e Z podem estar errados por motivos N, P e Q, cujos quais você terá que explanar. Num debate você precisa fazer o oponente analisar as ideias dele e não esquecer tudo e focar em suas características físicas ou psicológicas. Ok?

Atacar o oponente de debate quando se deveria atacar argumentos é algo chamado de Ad hominem, uma falácia também muito comum que contribui com o desrespeito e ódio (e não gera avanço intelectual nenhum, né não?)

Regra N° 3: Lembre-se que autoridades intelectuais não são oniscientes


No filme “Deus não está Morto” o professor ateu Jeferry ao discutir com seu aluno cristão, Josh, defende a não existência de Deus alegando que Stephen Hawking não acredita em Deus. Algo do tipo: “Stephen Hawking é um dos maiores gênios vivos e não acredita em Deus. Você está dizendo que Stephen Hawking está errado??”

Você JAMAIS deve tentar validar algo usando palavras de alguém importante, a menos que essas palavras sejam os argumentos consistentes utilizados por tal pessoa para defender algo.

Por exemplo:

Você não deve dizer que X é verdade porque um pesquisador de Harvard disse que é, e sim dizer que X é verdade porque o trabalho de um pesquisador de Harvard consistiu em analisar A, B e C, chegando à conclusão que X é verdade por N motivos. Ok?

O nome desta postura nada racional chama-se: Apelo à autoridade. E claro, também é uma grande falácia.

Regra N° 4: Não atribua dicotomias às idéias alheias

“Somente petistas falam mal do Bolsonaro.”

“Você não é comunista? Ahh. Então você acha o capitalismo um regime perfeito?”

As pessoas precisam entender que existem diversas opiniões pra diversos assuntos.

Não vivemos num regime bipartidário para dizer que fulano é tucano por falar mal do PT.

Não vivemos num mundo dividido entre marxistas e capitalistas. Há anarquistas, libertários, fascistas, sócio-democratas, comunistas e mais outras ideologias espalhadas por aí também.

Não vivemos num mundo dividido entre fãs do Windows Phone e fãs do Android. Há quem curte o IOS e há quem não curte smartphones.

Não vivemos num mundo dividido entre pessoas que preferem criar cachorros e pessoas que preferem criar gatos. Há quem prefira criar os dois ou até mesmo lagartixas (duvido nada hehe).

O que estou tentando dizer é: Antes de sair julgando um perfil ideológico com base em algumas poucas informações, tente entender mais um pouco. Conhecer mais as ideias que pretende atacar.  Não vá passar vergonha atacando aquilo que pode nem existir (como uma ideia x na cabeça de seu coleguinha).  Não crie falsas dicotomias.


Regra N° 5: Não jogue para alguém as suas responsabilidades

Sempre que for afirmar algo esteja ciente que é sua E SOMENTE SUA a responsabilidade de apresentar as provas.

Se você disser que a alquimia funciona e que consegue transformar outros metais em ouro, é você quem deve provar isto, e não apenas dizer “Duvida? Prove que eu não consigo!”

Conspiracionistas afirmam coisas absurdas com frequência, pois sabem que é quase impossível refutar uma afirmação conspiratória. Mas esquecem-se que eles devem apresentar as evidências e não sentar e falar besteiras enquanto esperam pela refutação. Eis a diferença da ufologia, para a astrobiologia, pois enquanto a primeira afirma que et’s existem e estão nos visitando e bagunçando nossas plantações, a segunda afirma que há uma possibilidade de haver vida extraterrestre, e, portanto a mesma deve ser pesquisada.

NUNCA afirme algo que não é capaz de provar. A responsabilidade está em suas mãos, e tentar fugir dela desta forma é praticar a falácia da inversão do ônus da prova.

Regra N° 06 – A verdade não é democrática

Por muitos anos durante a antiguidade, era considerável plausível e inquestionável o fato que a Terra era o centro do universo e tudo girava ao seu redor.  Até que Copérnico, ao colher a sementinha da ideia plantada por Aristarco de Samos passou a questionar tal afirmação levantando a hipótese do heliocentrismo. Galileu ao criar seu telescópio em 1609 passou a facilmente conseguir refutar a hipótese geocêntrica, ao observar Júpiter e descobrir seus satélites naturais. [2]

Muitas pessoas acreditavam no geocentrismo, mas isso NUNCA validou tal hipótese.

O fato de muitas pessoas acreditarem em algo significa apenas que muitas pessoas acreditam em algo, e só. Não é um número grande de crenças que validam alguma hipótese, e sim as evidências que devem seguir tal fato.

Então quando quiserem mostrar que algo é real, ou que estão certos ao afirmarem algo, não diga que devemos acreditar no que você diz porque muitas e muitas pessoas partilham da mesma ideia.

Numa rodinha de amigos um pode conseguir persuadir o outro, se combinar uma mesma mentira com a grande maioria.

Ao apelar para um número grande de pessoas enquanto afirma algo você comete a falácia ad populum.

A Terra nunca deixou de ser atraída pelo Sol por conta da crença de quem nela habita. E assim permanecerá.

Regra N° 07 – Alegações extraordinárias requerem evidências extraordinárias

Você sabe por que este site tem o nome “Bule Voador”?

Num artigo chamado “Existe um Deus?”,[1] Russell escreveu:

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados — em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal bule de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada.

Ateus não agnósticos e teístas cristãos proferem com frequência: “Não existe um Deus!” ou “Há um Deus”, mas ambos caem na falácia da negação ao tentar explicarem-se, pois o ateu não provará que Deus não existe, e o mesmo ocorrerá com o cristão no que se trata da existência do divino imaterial. É necessário ter em mente a diferença de afirmar que ''x não existe'', e afirmar que "não há indícios suficientes para a existência de x", deixando claro que como consequência a este fato,  teremos a descrença como fato compreensível de um ponto de vista lógico.

Portanto, não afirme com tanta veemência aquilo que não poderá provar. Lembre-se da regra n° 05.

Regra n ° 8 – Não se sinta ofendido numa discussão plenamente racional

Se você estiver participando de uma discussão que atende a todas as regras básicas de uma discussão saudável e plenamente sensata, e mesmo assim se sentir ofendido quando atacam suas ideias (com argumentos construtivos) há algo de errado com você!

Quando você passa a permitir que suas ideias se tornem quem você é, e entranhem-se em você, dificilmente você passará a conseguir o que se espera de uma boa discussão: uma síntese.

Para cada tese, haverá uma antítese, e só assim formaremos uma síntese. Porém se você é a sua tese, você não suportará ser contrariado, pois na sua cabeça isso é uma espécie de desrespeito.

Cito o exemplo de alguns religiosos que não suportam ver pessoas falando mal de algumas coisas não tão legais que as religiões podem trazer à vida das pessoas.

Ou ativistas sociais que se revoltam ao ver alguém atacar alguns pontos negativos de certas posturas do aspecto social-ideológico.
Isso não é saudável.

Antes de entrar numa discussão sobre determinado assunto, certifique-se de que está completamente desgrudado de suas ideias. Para que só assim você consiga não ter medo de mudar de opinião. E nisso seguiremos com a próxima regra:

Regra n° 9 – Não tenhas medo de mudar de opinião a partir de novas evidências.

Sócrates é considerado o pai da filosofia porque fez com que as pessoas pensassem sobre coisas até então ‘’inúteis’’ como alguns conceitos do cotidiano: como o amor, a política, a felicidade, a ética entre outros.

Trouxe ao mundo o espírito da filosofia: O amor e a busca pelo saber.

Hoje em dia há várias e várias fontes de conhecimentos, dos mais diversos tipos.  Mas ainda há aqueles que sentem medo de se desapegar do conhecimento mais agradável (porém falso) em troca do verdadeiro e — talvez — não tão confortante.

Se tu tens ao teu lado vários Sócrates que podem fazer com que tu repenses sobre teus conceitos acerca da economia, política, religião e outras coisas, ou se tu tens acesso ao Google que é capaz de te apresentar um mundo de dados, por que permanecer preso numa gaiola se pode ser livre para voar e contemplar o mundo e o conhecimento que nele se encontra?

Esteja sempre em busca da verdade. Ignore suas ideias absurdas, já refutadas ou simplesmente mentirosas para renovar sua cabeça com coisas limpas, verídicas e até mesmo mais interessantes.

Não permaneça preso às ideias. Permaneça preso à verdade.

Regra n° 10 – Apresente motivos. Não apresente Deus.

Na Bíblia temos a história de Moisés e os 10 mandamentos divinos de Deus para os homens. E nesses mandamentos encontramos alguns conselhos importantes para a nossa existência tornar-se mais agradável. Por quê? Porque há motivos para tal. Exemplificarei abaixo:

Não devemos praticar o adultério por contribuir com a desconfiança e a infelicidade de um casal.

Não devemos roubar por não termos o direito de invadir o espaço alheio e tirar proveito do trabalho das pessoas, pois isso as prejudica injustamente.

Devemos respeitar nossos pais para que haja um bom convívio no núcleo familiar.

Em Eutífron, Sócrates defende o ‘’correto’’ como sendo aquilo que os deuses mandam. Mas ele mostrou que este não pode ser o fundamento último da ética. Recomendou que devemos distinguir duas possibilidades: ou os deuses têm boas razões para o que ordenam, ou não. Se não, então as suas ordens são meramente arbitrárias — os deuses são como tiranos mesquinhos que mandam as pessoas fazer isto ou aquilo apesar de não terem boas razões para tal. Esta é uma heresia que os crentes não estão dispostos a aceitar.

Mas você pode estar se perguntando: O que isso tem a ver com o tema do texto?

Bom... Se você é aquela pessoa que enquanto discute, defende seu discurso de ódio e profere sentenças desrespeitosas, e quando questionado fala que está apenas dizendo o que Deus ordena ou algo do tipo, saiba que você está tendo uma postura bem insensata. Se quiser defender seu discurso baseando-se na bíblia, procure os argumentos nela, ou pelo menos use alguns adequados. Nem a sociedade e nem seu adversário de debate são obrigados a acatarem o discurso arbitrário de sua religião. Procure bons motivos para defender o que defende, ou permaneça calado.

Vivemos num mundo moderno, iluminado principalmente por filósofos do séc XVIII. Então não pense e nem aja como um ignorante da idade média preso à escuridão intelectual. Aprenda a utilizar as suas capacidades cognitivas para manter-se numa evolução constante. Discutir de maneira correta, enquanto aprende e compartilha opiniões e informações é um ótimo meio de evoluir intelectualmente.

Então encerro este texto com uma frase curta que pode te fazer refletir um pouco:

Não seja um idiota!

Matheus Carlos
No Bule Voador

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