18 de jun de 2016

Sobre Vazamentos e Enquadramentos


No dia 23 de maio de 2016, o jornal Folha de São Paulo publicou trechos de conversas do então ministro do Planejamento do governo interino de Michel Temer, Romero Jucá, com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e ex-senador pelo PMDB. Nelas, os dois discutiam a possibilidade de deter o avanço da Operação Lava Jato caso a presidente Dilma Rousseff sofresse impeachment.

O vazamento do grampo de um ministro de Estado não é exclusividade do governo Temer. Em 15 de março de 2016, ainda no governo Dilma Rousseff, o site da revista VEJA divulgou conversas do então ministro da Educação Aloísio Mercadante com um assessor do senador cassado Delcídio do Amaral, na qual o ministro teria supostamente oferecido ajuda ao senador em troca de seu silêncio.

Ambos os episódios foram apresentados pela mídia, no dia do vazamento e no dia seguinte, como tentativas de obstruir o andamento da Operação Lava Jato. A cobertura, entretanto, foi bastante dissimilar, principalmente no que toca o tratamento da relação dos ministros com os respectivos presidentes da República, tal qual veremos a seguir.

No dia 15 de março de 2016, o site da revista VEJA divulgou conversas entre um assessor do senador cassado Delcídio do Amaral com o então ministro da Educação, Aloísio Mercadante, na qual os dois negociavam um possível apoio do ministro ao senador. No dia seguinte, Mercadante e Delcídio estavam presentes nas capas dos jornais.

As manchetes dos três jornais, Folha de S. Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo, destacavam em alguma medida a homologação da delação de Delcídio, de perspectivas distintas: do PGR, do STF e da própria Lava Jato. Mesmo competindo com dois outros temas importantes à época — o conteúdo da delação de Delcídio e a nomeação de Lula como ministro — o caso de Mercadante ainda obteve espaço relevante nas capas.

Ao analisarmos os textos que acompanham as manchetes podemos notar uma característica comum nas coberturas: a insistência em ressaltar que o ministro da Educação era próximo à Presidenta da República. Este fato foi, inclusive, utilizado por articulistas para contradizer a justificativa de “ação pessoal” apresentada por Aloísio Mercadante quanto à oferta de ajuda a Delcídio. Assim, os jornais associaram o escândalo diretamente a Dilma Rousseff, mesmo que ela tivesse desmentido tal ilação.

Seria essa atitude agressiva em relação ao ministro e à presidenta, que faz inclusive uso de ilações sem comprovação concreta, uma característica geral do comportamento dos jornais em relação ao poder estabelecido ou um tratamento especial reservado a Dilma e ao governo do PT?

Para responder a essa pergunta é necessário avançarmos no tempo até 23 de maio. Michel Temer completava seu 10º dia como Presidente da República interino, quando a primeira grande crise de sua administração eclodiu. Segundo denúncia do jornal Folha de S. Paulo, Romero Jucá, então ministro do Planejamento, mantivera conversas com Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro e ligado ao PMDB, sobre a possibilidade “um pacto para deter a Operação Lava Jato” em um futuro governo Temer.

No dia seguinte ao vazamento, os três jornais — Folha de São Paulo, Estadão e O Globo — estampavam a queda de Romero Jucá, causada pelo vazamento da gravação. Nos textos que acompanhavam as manchetes, o foco esteve no peemedebista, sem mencionar a proximidade entre Jucá e Temer. Por sua vez, o presidente interino foi citado apenas em três oportunidades: como alguém que era desafiado pela situação, que elogiara Romero Jucá em sua saída e também que fora chamado por petistas de golpista em sua visita ao Senado Federal.

Mesmo que Jucá e Michel Temer fossem aliados próximos, como os jornais em diversas oportunidades reforçaram, não houve em nenhum momento a tentativa de associar o conteúdo da delação com o presidente interino, ainda que existissem falas do próprio Jucá que associavam o governo Temer à possibilidade de influenciar o andamento das investigações da Operação Lava Jato. Além disso, o afastamento do então ministro do Planejamento foi apresentado como uma ação positiva do governo Temer contra a prática da corrupção, mesmo que se lembrasse o fato que o próprio Romero Jucá já era investigado na Operação Lava Jato antes de assumir o cargo.

Assim podemos notar que os dois ministros são representados de forma negativa, dotados da mesma intenção: impedir os avanços da Operação Lava Jato. No entanto, as perspectivas apresentadas são distintas: Aloísio Mercadante é apresentado tal qual um fantoche a serviço do Governo Federal e de Dilma Rousseff, mas que assume todo o ônus de sua ação como forma de protegê-los, enquanto Romero Jucá é representado como o político que age sem o apoio ou conhecimento de Michel Temer, mesmo que seu objetivo explícito fosse conduzir o último ao poder.

Em suma, o tratamento dado a Dilma e a Temer pela grande mídia foi bastante distinto. Uma sendo alvo de ilações e o outro sendo poupado de qualquer associação aos malfeitos de seu comandado e aliado. Esse comportamento se verificou nos três jornais, de maneira similar. Resta saber até quando permanecerá esse estado de coisas.

Eduardo Barbabela e João Feres Júnior

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