1 de jun de 2016

Serra pede ajuda da polícia, mas mesmo assim é alvo de “escracho” em Paris


Desde o início da manhã, eles aguardavam a passagem do carro de Serra perto do local onde acontece o fórum da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), do qual ele participa, munidos de faixas e cartazes contra o político e contra o golpe no Brasil.

O ato, contudo, poderia ter sido maior se não fosse uma tentativa do próprio Serra de desmobilizar os brasileiros. Após ter sido informado do envio de uma carta a membros da OCDE pedindo a anulação de sua participação, o ministro interino pediu intervenção da polícia com medo de “represálias”. Alguns brasileiros receberam telefonemas da polícia francesa dizendo que o político estava se sentindo “ameaçado”, e querendo mais informações sobre a organização de alguma manifestação contra José Serra. Apesar da tentativa de repressão por parte do ministro interino, os brasileiros não se intimidaram e saíram às ruas para protestar. “Alguns de nós nem estávamos pensando em participar, mas depois dessa tentativa de nos calar, decidimos vir”, disse uma brasileira que participou do protesto.

Por volta das 10h, Serra “fugiu” do evento que reúne ministros do mundo todo, e foi visto já de volta ao hotel.

A carta que gerou o pedido de proteção policial por parte de José Serra foi enviada pelo MD18, no dia 31, aos membros da OCDE. Nela, o grupo pedia a anulação da participação de Serra no evento devido à situação política crítica do Brasil e a sua falta de representatividade. No texto, o MD18 argumentou que “um ministro desse governo, que ataca a democracia, extingue ministérios das áreas sociais e diminui as verbas dos vários programas de inclusão criados nos últimos 14 anos (PROUNI, Ciência Sem Fronteiras, PRONATEC, Mais Médicos, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, PRONAF, entre outros), não deveria ser convidado a falar em um painel denominado ‘Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável’”.

Leia a íntegra da carta:

Paris, 31 de maio de 2016

Senhor Secretário Geral,

Senhora Presidente da Reunião Ministerial Anual da OCDE,

Senhores membros dessa reunião de cúpula:

Nós, brasileiros residentes na França, membros do Movimento Democrático 18 de Março,preocupados com a crítica situação política e econômica pela qual passa o Brasil, conclamamos essa importante Organização Mundial a rever a participação do Senador brasileiro José Serra na Reunião Ministerial Anual da OCDE.

Esse Organismo tem entre seus membros as mais importantes democracias do mundo e em seusprincípios, prega a importância de que os governos mantenham uma boa governança, em que asinstituições e a regulamentação jurídica e administrativa estejam em pleno funcionamento. Infelizmente, esse não é o caso do Brasil nos dias atuais. Nossa democracia foi duramente atingida por um golpe parlamentar, levado a cabo com o beneplácito do Superior Tribunal Federal, órgão máximo da justiça nacional.

A Presidenta Dilma Rousseff, eleita com mais de 54 milhões de votos, foi afastada de suas funções por um parlamento manchado por múltiplas e graves denúncias de corrupção e composto porparlamentares que defendem a ditadura militar, a homofobia, a misoginia e que, portanto, não podem ser considerados como membros de uma Democracia consolidada e moderna.Nossa Presidenta foi afastada de suas funções, mas não destituída. Assim, o Brasil tem hoje uma Presidenta eleita e um vice-presidente (Michel Temer) que assumiu interinamente o governo, situação atípica e desestabilizadora de nossas instituições. O governo interino conta com baixíssimos índices de aprovação da população, mas se propõe a fazer profundas reformas na economia e na administração pública brasileiras, implantando um projeto ultraconservador que foi reprovado nas urnas em 2014.

O Senador José Serra, participante de primeira hora das articulações subterrâneas que levaram aoafastamento da Presidenta, assume interinamente o Ministério das Relações Exteriores do Brasil,portanto, de forma ilegítima e pouco ética. O corpo ministerial de que faz parte, composto somente por homens brancos e oriundos da elite financeira do país, não tem o respaldo popular que o credencie a representar o Brasil nesta reunião.

Apenas doze dias após o início do governo interino de Michel Temer, o principal Ministro teve querenunciar por denúncias de corrupção e mais 6 ministros, sobre os quais pesam acusações, correm o risco de trilhar o mesmo caminho. O próprio vice-presidente tem contra si denúncias de participar do esquema de corrupção que ficou conhecido como “Lava-Jato”.

Temos, hoje, no Brasil um governo interino, ilegítimo e fragilizado. O Ministério da Cultura foi extinto e posteriormente recriado após a fortissima pressão dos movimentos culturais e da população, mascontinuam extintos os Ministérios da Mulher, da Igualdade Racial e de Direitos Humanos. Este últimofoi transformado em uma secretaria ligada ao Ministério da Justiça, hoje comandado pelo ex-secretário de Segurança do Estado de São Paulo, conhecido pelo altíssimo número de assassinatos cometidos por policiais e pela violenta repressão a manifestações populares durante sua gestão, com destaque para os estudantes que foram violentamente agredidos dentro de suas escolas quando protestavam contra a corrupção na compra da merenda escolar.

Dessa forma, conclamamos a OCDE a não aceitar entre os seus digníssimos membros um MinistroInterino e ilegítimo, de um governo que assumiu o país por meio de um Golpe Parlamentar,comprovado nos últimos dias por meio de escutas que revelam que entre os objetivos desse golpe estava impedir a continuação das investigações de corrupção no país.

Não é possível que um Ministro desse governo, que ataca a democracia, extingue ministérios dasáreas sociais e diminui as verbas dos vários programas de inclusão criados nos últimos 14 anos(PROUNI, Ciência Sem Fronteiras, PRONATEC, Mais Médicos, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, PRONAF etc), seja convidado a falar em um painel denominado “Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável”.

Esse governo e esse Ministro não nos representam. Nas ruas do Brasil o povo reivindica a volta daDemocracia, mesmo que nossos protestos sejam ignorados e escondidos pelas mídias pró-golpe,notadamente a Rede Globo.

Confiamos que os membros da OCDE, honrando sua tradição de mais de 50 anos, defendam ademocracia e as instituições brasileiras, principalmente as mais importantes delas: o voto popular e a vontade do povo.

Foto: Frédéric Pages
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