11 de jun de 2016

Querem tirar o B dos BRICs

E dar o B de graça aos Estados Unidos


O Conversa Afiada reproduz do respeitado site russo SputnikNews, ligado ao Presidente Putin — que deveria ter dado uma aula ao Lula e à Dilma sobre "mídia técnica" —, artigo de Pepe Escobar sobre o tema "o Golpe-2016 nasceu em Washington".

Observe, amigo navegante, como ele trata o maior dos entreguistas, o Padim Pade Cerra:

Lista de matar: esmagar o "B" de BRICS

Comecemos pelo kafkiano tumulto interno. O golpe de Estado contra a presidenta Dilma Rousseff continua a ser tragicomédia político-midiática que parece recomeçar todos os dias. Também é caso de guerra de informação convertida em ferramenta estratégica para maior controle político.

Uma sucessão impressionante de vazamentos de áudios revelou que setores chaves dos militares brasileiros e seletos juízes da Suprema Corte legitimaram o golpe contra uma presidenta que sempre cuidou de proteger a investigação de corrupção chamada "Car Wash", que já dura dois anos. Até a mídia-empresa ocidental dominante teve de admitir que Dilma, que nada roubou, está sendo impedida e derrubada por uma gangue de ladrões. A agenda deles: fazer parar a investigação "Car Wash", que eventualmente pode vir a jogar muitos deles na cadeia.

Os vazamentos também revelaram a carnificina que ruge entre as elites brasileiras comprador — periférica e central. Essencialmente, as elites periféricas foram usadas como moleques de recados no Congresso, para fazer o trabalho sujo. Mas agora podem estar a ponto de se tornarem assaltantes de estrada — junto com o 'governo' ilegítimo, impopular, interino de Michel Temer, liderado por uma gangue de políticos corruptos até o cerne do PMDB, o partido que é herdeiro da única fachada de 'oposição' tolerada durante a ditadura militar brasileira (dos anos 1960s aos 1980s).

Conheça o chanceler vassalo

Personagem insidioso em toda a trama do golpeachment é o ministro interino de Relações Exteriores, senador José Serra do PSDB, social-democratas convertidos em operadores de forças neoliberais. Na eleição presidencial de 2002 — quando foi derrotado por Lula —, Serra tentava livrar-se das oligarquias brasileiras periféricas.

Agora contudo está cumprindo outro papel — perfeitamente posicionado não só para fazer regredir a política externa do Brasil, de volta para algum ponto do golpe militar de 1964, mas, sobretudo, no papel de homem de ponta do governo dos EUA dentro da gangue golpista.

A oligarquia em São Paulo é aliada chave do Excepcionalistão no Brasil. São Paulo é o estado mais rico do Brasil e capital financeira da América Latina. É a lista A do Brasil. É das fileiras dessa oligarquia que talvez 'surja' um eventual "salvador nacional".

Tão logo as elites periféricas tenham sido aniquiladas, não haverá nada que impeça a criminalização — e provável prisão — de vários líderes da esquerda brasileira, Lula inclusive. Em seguida se urdirá algum tipo de eleição fake, 'legalizada' por Gilmar Mendes, juiz da Suprema Corte e operador do PSDB.

Tudo depende do que aconteça nos próximos dois meses. O procurador-geral afinal ordenou a prisão de três altos quadros da elite periférica; os três são acusados de conspirar para impedir que avancem as investigações da operação "Car Wash" — rede extremamente complexa de agentes jurídico-políticos-policiais, de miríades de círculos concêntricos/sobrepostos.

Entrementes, o julgamento final do impeachment de Dilma no Senado deve acontecer dia 16 de agosto — 11 dias depois do início dos Jogos Olímpicos. Os golpistas sofreram um duro golpe, quando tentaram acelerar os procedimentos. No pé em que estão as coisas, o resultado é incerto; depois dos vazamentos, quatro de cinco senadores já estão oscilantes quanto ao voto, uma vez que os vazamentos implicam Temer, o presidente interino, pessoalmente. 'Líder' de uma gangue pesadamente envolvido em corrupção e com zero de credibilidade, Temer é alvo de várias investigações por corrupção, e acaba de ser declarado inelegível e impedido de concorrer a cargo político eletivo nos próximos oito anos.

O monopólio (cinco famílias) que controla a mídia-empresa dominante no Brasil, conhecido como PIG (sigla de "Partido da Imprensa Golpista") mudou de tom, deixando de lado o antiesquerdismo obcecado e agora se dedica a fazer campanha contra elementos selecionados da gangue de Temer.

Segundo a Constituição, se a presidência e a vice-presidência ficam vagas nos últimos dois anos de mandato, cabe ao Congresso eleger o novo presidente.

Essa disposição legal implica dois cenários possíveis. Se Dilma não for impedida e reassumir, vai-se configurando como muito provável que ela determine que se realizem novas eleições presidenciais ainda antes do final de 2016.

Se a presidenta for impedida, o PIG tolerará a gangue interina dos 'quadros' temeristas até, no máximo, janeiro de 2017. O passo seguinte seria o que Serra e o quase presidiário e 'líder' do Senado, Renan Calheiros, trabalham para conseguir: o fim de eleições diretas para presidente e o início de um parlamentarismo à brasileira.

O nome mais bem posicionado para ser o 'salvador' nacional nesse caso é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso — também ex-"Príncipe da Sociologia" e superstar (nos anos 1960s e início dos 1970s) da Teoria da Dependência, logo depois metamorfoseado em neoliberal ávido. Cardoso é parceiro próximo de Bill Clinton e de Tony Blair. O eixo Washington/Wall Street é louco por ele. Cardoso seria 'eleito' pela mesma matilha de hienas que tramam o impeachment de Dilma desde 17 de abril.

Mas o núcleo duro do golpeachment brasileiro ultrapassa em muito as elites periféricas brasileiras. É constituído de um partido político (PSDB); do império Rede Globo de mídia; da Polícia Federal (muito próxima do FBI); do Ministério Público; da maioria dos juízes da Corte Suprema e de setores das Forças Armadas. Só o eixo Washington/Wall Street tem os meios e a necessária 'pegada' para arregimentar todos esses players — com dinheiro vivo, por chantagem ou com promessas de glória.

E isso se encaixa perfeitamente com perguntas chaves não respondidas relacionadas aos áudios vazados recentemente. Quem gravou as conversas. Quem vazou as conversas. Por que agora. Quem se beneficia com meter o país no mais total caos político, econômico, jurídico, com virtualmente todas as instituições completamente desacreditadas.

Neoliberalismo ou caos

Longe vão os dias quando Washington podia comandar impunemente aqueles antiquados golpes militares bem ali no quintal deles — como foi feito no Brasil em 1964. Ou no Chile, no 11/9 original, em 1973, como se vê no emocionante documentário sobre Salvador Allende, assinado pelo cineasta chileno craque Patricio Guzman.

A história, como se poderia prever, repete-se como farsa no golpe de 2016 que converteu o Brasil — a 7ª maior economia do mundo, e player chave no Sul Global — numa espécie de Honduras ou Paraguai (onde golpes apoiados pelos EUA foram bem-sucedidos).

Já demonstrei como o golpe no Brasil é operação extremamente sofisticada de Guerra Híbrida que ultrapassa em muito a guerra que se conhecia como guerra não convencional (ing. UW); guerra de 4ª geração (ing. 4GW); as revoluções coloridas; e os movimentos de R2P ("responsabilidade de proteger") e o ápice do smart power; até se converter em golpe político-financeiro-jurídico-midiático soft a que os brasileiros estão assistindo em câmera lenta. Eis a beleza dos golpes, quando promovidos por instituições democráticas!

É possível que o neoliberalismo tenha falhado, como até o setor de pesquisas do FMI já percebeu. Mas o cadáver putrefato ainda faz feder o planeta inteiro. O neoliberalismo não é só um modelo econômico; sub-repticiamente ele cobre também todo o campo jurídico. Eis mais uma faceta perversa da doutrina do choque: o neoliberalismo não sobrevive sem uma implantação firme no quadro jurídico-legal.

É quando as atribuições constitucionais são redirecionadas para o Congresso que mantém sob controle o Executivo, ao mesmo tempo em que gera uma cultura de corrupção política. O político foi subordinado ao econômico. Empresas privadas engajam-se em campanhas eleitorais — e é quando compram políticos, para poderem influenciar qualquer poder político, por mais 'eleito' que seja.

Washington trabalha precisamente assim. E aí está também a chave para compreender o papel do ex-líder da Câmara de Deputados no Brasil, Eduardo Cunha. Cunha montou uma rede de financiamento de campanhas eleitorais dentro do próprio Congresso, onde controla dúzias de políticos, ao mesmo tempo em que lucra de incontáveis proverbialmente gordos contratos de empresas fornecedoras do Estado.

Os Três Patetas no que chamei de República das Bananas dos Escroques Provisórios são Cunha, Calheiros e Temer. Temer é mero fantoche; Cunha permanece uma espécie de primeiro-ministro 'nas sombras', comandando o show. Mas não por muito tempo. Já foi suspenso do cargo de presidente da Câmara de Deputados; embolsou milhões de dólares daqueles contratos gordos e meteu-os em contas secretas na Suíça; agora é só questão de tempo, até que a Suprema Corte levante todas as provas e — mas nada é garantido! — o meta no xilindró.

OTAN vs. BRICS, a pleno vapor, por todo o planeta

E isso nos traz outra vez para O Grande Quadro, no qual acompanhamos uma análise de Rafael Bautista, presidente de um grupo de estudos da descolonização em La Paz, Bolívia. É dos melhores e mais brilhantes analistas sul-americanos, sempre muito alerta ao fato de que qualquer coisa que aconteça no Brasil nos próximos meses determinará o futuro, não só da América do Sul, mas de todo o Sul Global.

O projeto do Excepcionalistão para o Brasil é nada menos que impor aqui uma doutrina Monroe remixed. O principal alvo de uma planejada restauração neoliberal é separar a América do Sul, dos BRICS — quer dizer, essencialmente, da parceria estratégica de Rússia e China.

É uma breve janela de oportunidade em todos esses anos do continuum Bush-Obama, quando Washington viveu obcecada com o MENA (Middle East/Northern Africa [Oriente Médio/Norte da África]), também conhecido como Oriente Médio Expandido. Agora, a América do Sul volta a ocupar o centro estelar no teatro da guerra (soft) geopolítica. Livrar-se de Dilma, Lula, Partido dos Trabalhadores, custe o que custar, é só o começo.

Volta tudo ao de sempre: a guerra que definirá o século 21: OTAN contra os BRICS, Organização de Cooperação de Xangai e, afinal, contra a parceria estratégica Rússia-China. Esmagar o "B" de BRICS traz, de brinde, o esmagamento do Mercosul (o mercado comum sul-americano); a Unasul (União Política das Nações Sul-americanas); a ALBA (Aliança Bolivariana); e toda a integração sul-americana, além de acabar também com a integração com atores emergentes chaves no Sul Global, como o Irã.

A desestabilização do "Siriaque" combina perfeitamente com esse Império do Caos: não havendo integração regional, a única alternativa é a balcanização. Mas a Rússia já demonstrou graficamente aos estrategistas de Washington que não poderão vencer guerra alguma na Síria; e o Irã já demonstrou depois do acordo nuclear que não será vassalo de Washington. Assim sendo, o Império do Caos pode tratar de garantir-se pelo menos no próprio quintal.

Um novo quadro geopolítico teve de ser parte do pacote. É onde entra o conceito de "América do Norte", apoiado pelo Council on Foreign Relations e concebido, principalmente, pelo ex-superastro do surge no Iraque David Petraeus e ex-honcho do Banco Mundial Bob Zoellick, hoje a serviço de Goldman Sachs. Pode-se dizer que é um mini quem-é-quem do Excepcionalistão.

Ninguém lera notícia alguma, nem será anunciado em público, mas o conceito que Petraeus/Zoellick imaginaram como "América do Norte" pressupõe mudança de regime e desmonte da Venezuela. O Caribe está definido como um Mare Nostrum, um lago norte-americano. "América do Norte" é, de fato, uma ofensiva estratégica.

Implica controlar toda a massiva riqueza de petróleo e água do Orinoco e do Amazonas, o que deve garantir ao Excepcionalistão predominância sobre a fronteira sul, para sempre.

O Caribe já é assunto resolvido; afinal, Washington controla o CAFTA. América do Sul é osso mais duro de roer, polarizada entre o que resta da ALBA e a Aliança do Pacífico comandada pelos EUA. Derrubado o Brasil para uma restauração neoliberal, acaba-se com o país como promotor de integração regional. O Mercosul acabará eventualmente absorvido na Aliança do Pacífico — especialmente com alguém como Serra, como principal diplomata brasileiro. Quer dizer: é imperioso anular a América Latina, em termos políticos, custe o que custar.

Restará para a América do Sul agregar-se — como atores marginais, parte da Aliança do Pacífico puxada pelos EUA — àquela OTAN de parcerias comerciais, TPP e TTIP. O "pivô para a Ásia" — do que a parceria Trans-Pacífico é o braço comercial — é o movimento da doutrina Obama para conter a China, não só na Ásia mas também em todo o Pacífico Asiático. Assim, é natural que a China (principal parceira comercial do Brasil) deva ser contida no quintal do hegemon, a América do Sul.

Do Atlântico ao Pacífico, e além

Nunca será demais destacar a importância geoeconômica da América do Sul. O único meio pelo qual a América do Sul pode ser plenamente integrada ao mundo multipolar é mediante uma abertura para o Pacífico, fortalecendo sua conexão estratégica com a Ásia, especialmente com a China. É onde se encaixa o movimento chinês para investir num massivo projeto de ferrovias para trens de alta velocidade unindo a costa Atlântica do Brasil e o Peru no Pacífico. É, em resumo, a interconectividade sul-americana. Com o Brasil politicamente anulado, nada disso jamais acontecerá.

Por tudo isso, todo e qualquer golpe é agora literalmente permitido na América do Sul: ataques indiretos à moeda brasileira, o real; propinas para as elites comprador com o apoio do sistema financeiro global; atentado concertado a favor de implodir simultaneamente as três principais economias: Brasil, Argentina e Venezuela. O Comando Sul dos EUA, SOUTHCOM chegou a ponto de produzir um relatório sobre "Venezuela Freedom" [Liberdade para a Venezuela], assinado pelo comandante Kurt Tidd, que propõe uma "estratégia de tensão" completada com técnicas de "cerco" e "sufocamento" e admitindo ação de rua com uso "calculado" de força armada. Aplicam-se aqui ecos do Chile, 1973.

Pode-se dizer que a América do Sul é hoje o mais importante espaço geopolítico onde o Excepcionalistão está lançando as bases para restaurar sua hegemonia sem rivais — como parte de uma guerra geofinanceira multidimensional contra os BRICS e que visa a perpetuar o mundo unipolar.

Todos os movimentos anteriores levaram a essa geoestratégia de implodir os BRICS e reduzir a América do Sul à situação de apêndice da América do Norte.

Wikileaks revelou como a Agência de Segurança Nacional dos EUA espionou a Petrobrás. Em 2008, o Brasil propôs sua própria Estratégia de Defesa Nacional, focada em duas áreas chaves: o Atlântico Sul e a Amazônia. Não era coisa que se desse bem com o SOUTHCOM. A Unasul deveria ter desenvolvido aquela estratégia para o nível continental, mas não o fez.

Lula decidiu garantir à Petrobras o primado da exploração dos depósitos do pré-sal — a maior descoberta de petróleo do século 21. O governo Dilma garantiu impulso firme ao Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS (baseado no BNDES do Brasil); e também decidiu receber pagamentos dos iranianos deixando de lado o dólar norte-americano. Qualquer um envolvido no comércio sul-sul que negocie deixando de lado o dólar norte-americano entra, imediatamente, numa lista de matar.

Hillary Clinton é a candidata de Wall Street, do Pentágono, do complexo industrial militar e dos neoconservadores à presidência. É a Deusa da Guerra — e, num continuum Bush-Obama-Clinton, ela irá à guerra contra qualquer ator no Sul Global que ouse desafiar o Excepcionalistão.

É isso. Os dados foram lançados. Saberemos com certeza quando houver novo presidente nos EUA — e provavelmente também um novo presidente não eleito no Brasil — no início de 2017. Mas o jogo estratégico permanece o mesmo: o Brasil tem de ser esmagado, para que a integração puxada pelos BRICS seja esmagada e, assim, o Excepcionalistão possa concentrar todo o seu poder de destruição no confronto de vida ou morte contra Rússia-China.

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