26 de jun de 2016

Por fora


Senador, o senhor sabe por que nós estamos reunidos aqui. Lideranças de todos os partidos com representação no Congresso, membros do Judiciário, líderes de todas as denominações religiosas do País, chefes militares, empresários — enfim, a Nação.

Como o senhor também já sabe, fizemos um plebiscito interno no Congresso para escolher o mais íntegro e impoluto entre nós para resgatar a reputação dos políticos, esta classe tão desmoralizada e tão desacreditada, principalmente depois dos últimos escândalos. A escolha foi fácil, foi quase unânime, pois nenhum outro político brasileiro tem a sua reputação de seriedade e honestidade.

O que lhe oferecemos é uma espécie de ditadura branca. O senhor nos governaria, por um período a ser determinado, até que a classe política recuperasse seu bom nome e a população voltasse a confiar nos seus representantes. As instituições da República continuariam funcionando, não haveria censura ou qualquer outro resquício de uma ditadura real, mas o senhor teria a palavra final — sobre tudo, da política econômica à escalação da seleção.

Sua honradez é notória, mas mesmo assim precisamos sabatiná-lo, antes de nomeá-lo. Uma mera formalidade.

– Pois não.

– O senhor tem conta não declarada na Suíça ou em algum paraíso fiscal?

– Não.

– E trust?

– Nem sei o que é isso.

– O senhor foi delatado ou está sendo investigado pela Lava Jato?

– Não.

– E sua vida amorosa? Existiu algum caso que possa embaraçá-lo, se vier à tona durante seu mandato?

– Estou casado com a Josefa há 40 anos e nunca olhei para outra mulher.

– Acho que temos o homem ideal para governar o País. Não precisaremos de eleições. O País está cansado de tanta falcatrua e apoiará sua eleição por aclamação. O senhor aceita?

– Aceito.

– Seu salário, por sinal, será o de presidente da República.

– Epa. Não tem algum por fora?

Luís Fernando Veríssimo

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