16 de jun de 2016

O vazio

A NRA, Associação Nacional do Rifle da América, repete sempre o mesmo refrão a cada novo massacre com armas que qualquer americano pode comprar até pelo correio, graças à força do seu lobby. Segundo a Associação, armas não matam pessoas, pessoas matam pessoas. A óbvia resposta a este raciocínio cínico é que pessoas matam pessoas com armas que compram na loja da esquina, mas é inútil apelar para a razão contra uma organização que cresce a cada novo atentado, tem o apoio da maioria dos congressistas americanos e dinheiro sem limites para influenciar eleições. Até hoje, com milhares de mortes diretamente atribuídas à facilidade de se comprar armas nos Estados Unidos, a NRA venceu todas as suas batalhas contra o bom senso.

Advogados da Associação, na busca de um argumento menos cínico em defesa da insensatez, lembram que o direito de possuir e carregar armas está na Segunda Emenda da Constituição americana. Mas, na época em que a Emenda foi redigida, não existia nem rifle de repetição. Os tais Pais Fundadores estavam inaugurando uma nação ainda semisselvagem, sua permissão era menos para o direito individual de cada um defender sua vida e sua propriedade, e mais para o direito da população de organizar-se em milícias, como forças auxiliares do Estado. Os Fundadores foram maus profetas. Assim como não previram malucos matando 50 de uma vez com armas compradas na esquina, tiveram pouco a dizer sobre o status e os direitos dos escravos na nova nação, salvo considerações genéricas sobre liberdade para todo o mundo. Todos eles eram escravocratas.

Se o acesso fácil a armas não vem de uma devoção reverencial às liberdades asseguradas pela Segunda Emenda, ou de alguma coisa na água, resta especular sobre a origem desse gosto americano por entrar atirando. Não é coisa só de americanos, mas é, principalmente, de americanos. Por quê? Há teorias pouco convincentes sobre resquícios da violenta conquista do “Wild West”, o oeste doido, no sangue americano. Combinado esta ânsia atávica com a facilidade de comprar um AK de último tipo e está feito outro massacre. Ou talvez seria uma coisa apenas sensorial, o prazer de aninhar um rifle novo no peito, a satisfação estética com o próprio desenho do rifle ou da pistola, finalmente o vazio, antes de começar a atirar.

Luís Fernando Veríssimo

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