12 de jun de 2016

O jantar

Falavam-se maravilhas daquele novo chef espanhol. Que sua comida chegara a fronteiras nunca antes imaginadas de requinte e originalidade. Tanto que um grupo de ricos se reuniu para trazer o chef ao Brasil. E o recebeu com um único pedido:

– Assombre-nos.

O chef fez algumas exigências. Pagamento adiantado. Reais? Jamás. Dólares ou euros. Ele também precisava saber para quem iria cozinhar. Eram pessoas sofisticadas? “Díssimas” responderam. Todas conheciam sua reputação, sabiam da sua cozinha diáfana e queriam prová-la. Estavam pagando uma fortuna para pode dizer que a tinham provado a quem nunca a provaria. Bien, disse o chef.

Ele trabalhava sozinho. Ninguém na cozinha, salvo ele. Suas receitas eram secretas. No seu restaurante, na Espanha, seus ajudantes assinavam um termo de confidência que, se rompido, significaria a morte por garrote vil.

E uma última exigência: a música de fundo na cozinha.

– Mozart.

Segundo o chef, Mozart estabilizava os molhos.

No local escolhido para o jantar, não mais do que 12 pessoas. O próprio chef traz os pratos do que chama de Menu Evanescente, que começa com uma roda de pequenas colheres vazias num prato vazio, que ele descreve como “Evaporaciones mediterrâneas” e prossegue com uma sequência de pratos vazios, todos elaboradamente descritos pelo chef (“sueño de conejo con evocación de almejas”, etc.), até o último, que vem com uma espuminha na borda que ele avisa para não comerem porque é enfeite.

Depois de se entreolharem, na chegada do primeiro prato vazio, sem saber o que fazer, as pessoas pegam os talheres e começam a “comer” com mímica, algumas fazendo “mmm” a cada garfada. No final, depois da sobremesa — desta vez uma tigela vazia, “crema hipotética de frutijas ausentes” segundo ele — o chef é aplaudido.

– Maravilha! Maravilha!

Depois do jantar, o grupo se reuniu num McDonald para matar a fome e comentar a comida do espanhol. 

– Foi a mais insólita experiência gastronômica da minha vida.

Transcendental, transcendental.

Alguém disse que fora, afinal, um grande jantar, pois 80% do prazer da boa mesa está na expectativa, e o espanhol só servira expectativa. E todos combinaram fazer um pacto. Não contariam a ninguém que tinham comido vento. O importante era dar inveja.

Luís Fernando Veríssimo

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