6 de jun de 2016

Mídia transforma mágoa de Cerveró contra Delcídio em culpa de Dilma

Acostumado a fazer negociatas para saquear os cofres públicos chegando a admitir em delação ter recebido mais de meio bilhão, isso mesmo, meio bilhão em propinas desde o governo do tucano, o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró é colocado como vítima pela grande imprensa para lançar ilações contra a presidenta Dilma Rousseff, na semana em que se discute a celeridade do processo de impeachment.

Nesta segunda-feira (6), a Folha de São Paulo e a Rede Globo, entre outros veículos, divulgaram trechos de um vídeo da delação premiada de Cerveró, em que ele se diz “magoado” com a presidenta Dilma Rousseff, pois, segundo ele, foi "sacaneado" e "jogado no fogo".

Apesar da manipulação da grande mídia, o vídeo de Cerveró evidencia o real motivo dessa “mágoa” quando ele disse que desconfiou das promessas do ex-senador Delcídio do Amaral de que o governo Dilma iria tirá-lo da prisão.

"Primeiro que eu conheço a Dilma, e aí eu fiquei muito cabreiro [sobre a promessa de interferência de Delcídio]. Embora eu conheça a intimidade da Dilma com o Delcídio, se a Dilma gostasse tanto assim de mim [como dizia Delcídio], ela não tinha me sacaneado — desculpe a expressão — há um ano, quase dois anos atrás, quando fugiu da responsabilidade dizendo que tinha aprovado Pasadena porque eu não tinha dado as informações completas", disse.

Perceba que Cerveró desconfiava de seu “amigo” Delcídio, que prometia a “interferência do governo” para tirá-lo da prisão. Quando Cerveró diz “eu conheço a Dilma” e em seguida afirma estar “cabreiro”, quer dizer que ele sabe que as promessas de Delcídio de que a presidente iria salvá-lo não passavam de bravatas.

Manipulação criminosa

De forma criminosa, a imprensa transforma a fragmentação de um depoimento como uma declaração de cumplicidade e, portanto, de culpa, já que ele diz que conhece Dilma “há 15 anos”.

Cerveró continua a destilar sua mágoa e manipular fala para atender aos procuradores e tentar reduzir a sua pena. Foi com essas e outras afirmações que conseguiu fechar acordo de delação que garantiu que ele possa deixar a prisão no próximo dia 24, se comprometendo a devolver mais de R$ 17 milhões, apesar de ter admitido que recebeu R$ 564,1 milhões em propina.

Disse que Dilma “sabia de tudo” sobre Pasadena e que, estatutariamente, a responsabilidade na empresa pela aquisição de ativos é do Conselho, que foi comandado pela presidenta quando ministra. A tentativa é associar Dilma aos seus atos criminosos e pior, sem apresentar provas.

“Quer dizer, ela me jogou no fogo, ignorou a condição de amizade que existia, que eu acreditava que existia, trabalhei junto com ela 15 anos, e preferiu, para livrar, porque estava em época de eleição, tinha de arrumar um Cristo. Então: 'ah, não, eu fui enganada!' Mentira! É mentira! Eu estou dizendo isso aqui, isso não tem importância para homologação, Dilma sabia de tudo o tempo todo", disse.

Vamos aos fatos: Cerveró diz que trabalhou junto com Dilma há 15 anos. Mas a presidenta Dilma assumiu o Ministério de Minas e energia em janeiro de 2003, portanto há 13 anos.

Quando a presidenta chegou ao ministério e antes mesmo disso, quando ainda era secretária de Minas e Energia do Estado do Rio Grande do Sul (1994 a 2002), Cerveró já era funcionário da Petrobras. Engenheiro químico, Cerveró entrou na estatal em 1975 por meio de concurso. Em 1998 - durante o governo de Fernando Henrique Cardoso -, ele coordenava a assessoria de Novos Negócios e Parcerias da Petrobras e, em 1999, passou a ser gerente de Projetos em Termelétricas, área sob forte influência de Delcídio do Amaral, nessa época filiado ao PSDB.
Quem é amigo de quem

1975
Cerveró, engenheiro químico, ingressa na Petrobras por concurso público

1986
Dilma assume a Secretária Municipal da Fazenda de Porto Alegre (Rio Grande do Sul)

1992
No governo de Itamar Franco, Delcídio foi secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia

1993
Dilma assume a Secretaria de Minas, Energia e Comunicações do Rio Grande do Sul, no governo de Alceu Collares.

1994
Delcídio assume o Ministério de Minas e Energia do governo Itamar.

1998
Durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, Cerveró passa a coordenar a assessoria de Novos Negócios e Parcerias da Petrobras. Nesse mesmo ano, Delcídio assinou sua filiação ao PSDB.

1999
Cerveró, também no governo FHC, passa a ser gerente de Projetos em Termelétricas.
Dilma, por sua vez, mantém sua gestão a frente da Secretaria de Minas, Energia e Comunicações do Rio Grande do Sul Rio Grande do Sul

2000
Delcídio do Amaral é indicado por FHC para a diretoria de Gás e Energia da Petrobras, período em que passa a trabalhar diretamente com Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, dois dos delatores da Operação Lava Jato.

2001
Com a impopularidade de FHC e a perspectiva de vitória de Lula, Delcídio se aproxima do PT. Assume a secretária estadual de Infra-estrutura e Habitação do governo de Zeca do PT no Mato Grosso do Sul e se filia a legenda.

2002
Delcídio elegeu-se senador pelo PT

2003
Influente na Petrobras, Delcídio mantém Cerveró na diretoria da Petrobras, agora como diretor da área Internacional.

Nesse mesmo ano, Dilma é convidada por Lula a assumir o Ministério de Minas e Energia, cargo que ocupou até 2005, quando passou a ocupar a Casa Civil, também no governo Lula.

2010
Dilma é eleita presidenta da República e assume o cargo em 2011, se reelegendo em 2014.
Delcído, por sua vez, por ser filiado ao PSDB foi convidado para ser Diretor de Gás e Energia pelo então ministro Rodolpho Tourinho, do governo FHC (1999 a 2001). Como se vê, o grau de relação de amizade que ele e a mídia, subliminarmente, tenta atribuir a presidenta Dilma, na verdade está em Delcídio do Amaral.

Delcídio saiu do PSDB para se filiar ao PT em 2001, se elegendo senador em 2003. Diante da influência que exercia por ter ocupado o cargo durante o governo FHC, Delcídio admitiu em delação que atuou dentro do PT para manter Cerveró na diretoria da Petrobras, agora como diretor da área Internacional.

O próprio Cerveró diz na delação aos investigadores que não foi indicado pelo ex-presidente Lula para a área internacional, mas segue dizendo que interpretou como se fosse, pois, alguém disse a ele que Lula teria dito ao José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras na época, Dilma, então ministra, que ele “quebrou o galho” do PT e “arrumou milhões para pagar a dívida” que a legenda tinha. A pergunta que fica: Será que a fonte dessa afirmação foi o amigo Delcídio?

Em outro depoimento, Cerveró também disse que o amigo Delcídio teria recebido repasses de US$ 10 milhões sobre contrato de turbina de US$ 500 milhões, em 2001, ou seja, durante o governo FHC. Ele afirmou que o pagamento foi feito pela Alstom — mesma investigada pelo esquema do trensalão tucano em São Paulo — por conta da compra de turbinas para uma termoelétrica, a TermoRio, no contexto do apagão que ocorreu no governo de FHC entre 2001 e 2002.

Pasadena

No trecho divulgado nesta segunda, em pelo menos dois momentos, Cerveró reclama da acusação que pesa contra ele sobre a compra da refinaria de Pasadena (EUA), que está sob investigação sob suspeita de ter representado prejuízo.

Dilma, na época ministra, era presidente do Conselho de Administração da Petrobras, e afirmou que a compra só foi aprovada porque não tinha todas as informações disponíveis e que confiou no resumo executivo apresentado por Cerveró.

A estratégia de incriminar Dilma não é de hoje. Desde 2014, os advogados de Cerveró utilizavam esta estratégia para contestar a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) — o mesmo que reprovou as contas da presidenta em 2014 — de inocentar Dilma de qualquer responsabilidade. Os advogados de Cerveró se apegam no argumento formal de que o estatuto da Petrobras responsabiliza o conselho de administração por qualquer aquisição.

Apesar de dizer que categoricamente que Dilma sabia, Cerveró disse depois que é “impossível Dilma não saber” que políticos do PT cobravam propina de diretores da Petrobras.

A presidenta Dilma, por meio de nota, rebateu as declarações de Cerveró e afirmou que já foi "demonstrado que a decisão adotada pelo Conselho de Administração [da Petrobras] de compra de 50% das ações foi baseada nas informações do resumo executivo. A responsabilidade por tais informações era do diretor da Área Internacional".

"Fica claro que o Conselho de Administração não tinha como ter conhecimento dos fatos e, portanto, agiu inteiramente dentro da legalidade", disse Dilma.

O que é fato na delação de Cerveró? De acordo com os fatos revelados nos últimos dias, é possível apontar um uma correlação entre os fatos citados por Cerveró e os demais delatores.

O vazamento fragmentado de delação é o roteiro que assistimos desde as eleições de 2014: diante de um evento decisivo, a central de vazamentos aparece com trecho fragmentados de uma delação, seja por transcrição, áudios ou vídeos, para insuflar os interesses da direita. A diferença é que agora, numa tentativa de tirar o carimbo de seletivo, o foco não é mais só governo Dilma, ainda que o real objetivo continue sendo o mesmo: legitimar o golpe.

Dayane Santos
No Vermelho

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