10 de jun de 2016

Novas eleições e plebiscito, segundo Renato Rovai


Meus agradecimentos ao Renato Rovai.

Em sua análise acerca da entrevista concedida pela presidenta Dilma Rousseff ao jornalista Luíz Nassif, Renato Rovai deixa absolutamente claro o raciocínio de quem defende novas eleições.

O ponto de partida do raciocínio está resumido nas seguintes frases: “não há a menor possibilidade de o governo Temer dar certo. Até porque se trata apenas de um esquema, não de um governo. Mas o fato concreto é que Dilma, também por seus erros, não tem mais condições de voltar à presidência”.

Lendo e relendo estas frases, constato um dos motivos pelos quais alguns setores da esquerda tiveram (e seguem tendo) dificuldades para reagir ao golpe.

Afinal, que tipo de reação, que tipo de combatividade pode-se esperar de quem acha que “por seus erros” a presidenta Dilma “não tem mais condições de voltar”???

O curioso é que a mesma Dilma que — segundo Rovai — não tem mais condições de voltar, teria sido capaz de trucar Temer com uma proposta que vai sacudir o cenário político nacional.

Nas palavras de Rovai: “ao anunciar que o país precisa de um plebiscito para decidir se deve ou não ter novas eleições, isolou ainda mais o governo Temer na sociedade”.

Caso eu tenha entendido o raciocínio de Rovai, funcionaria assim: ao admitir que não tem condições de voltar à presidência, Dilma estaria isolando quem a tirou da presidência.

Como este raciocínio tem uma lógica excessivamente sofisticada, Rovai adiciona um argumento: Temer seria “presidente de um condomínio político destruído”; “não há a menor possibilidade de o governo Temer dar certo”.

Ou seja: Dilma, que segundo Rovai não teria mais “condições de voltar”, teria conseguido isolar “ainda mais” Temer, porque este na verdade já estaria muito isolado.

E qual a conclusão que Rovai tira desta análise segundo a qual nem Dilma pode voltar, nem Temer pode ficar? Nas suas palavras, “o país que sobrou precisa de um novo pacto político”.

Ou seja: o país não precisaria de um programa político-econômico que, tributando os ricos, golpeando o oligopólio financeiro e investindo no crescimento, permita voltar a crescer, gerar empregos e distribuir renda.

O que o país precisaria é um “pacto político”. Que, como a história do Brasil já demonstrou seguidas vezes, supõe que não se altere o status quo que beneficia o andar de cima.

E como seria construído este pacto?

Se entendi direito o argumento de Rovai, o ponto de partida do tal “pacto” seria um plebiscito onde “o povo tem que ser convidado a decidir se que quer novas eleições para presidente da República ou para presidente da República, Senado e Câmara dos Deputados”.

E como é que este instrumento ajudaria no tal pacto?

Rovai não explica, ao menos não neste texto.

O que ele explica, com um comovente entusiasmo, é que “ao assumir a defesa deste plebiscito”, Dilma se tornaria outra pessoa.

Deixaria de ser aquela que “por seus erros não tem mais condições de voltar” e converter-se-ia naquela cuja volta “significa devolver o poder de decisão à sociedade”.

Revelada a boa nova e comprovando que se trata de uma solução mágica, as “ruas se unirão em torno deste objetivo e não vai sobrar apoio algum à continuidade do governo Temer”.

Não vai sobrar apoio algum?

Unanimidade??

Nem tanto, admite Rovai.

Segundo ele, do outro lado teríamos “só os congressistas do golpe e a mídia golpista, que evidentemente não são poucos. Mas que não são suficientes para segurar o clamor popular”.

Serão as ruas que vão decidir, diz ele.

Mas para que as ruas se mobilizem, “os movimentos têm que chamar as manifestações com essa bandeira”, algo na linha “Plebiscito já contra o golpe”.

Ou seja: os movimentos não deveriam priorizar nem a derrota do impeachment, nem a defesa dos direitos ameaçados pelas medidas do governo Temer.

O que os movimentos deveriam priorizar é o tal “plebiscito contra o golpe”. Isto mobilizaria as ruas.

Ficou claro?

Rovai não para por aí.

Segundo ele, o “PT não deve pedir o plebiscito para ser contra novas eleições”.

Meio óbvio, não? Afinal, se a presidenta aceita a tese de Rovai (segundo a qual ela não teria mais condições de voltar), se a presidenta admite abrir mão de parte do mandato que recebeu de 54 milhões de brasileiros e brasileiras, como é que o PT poderia ser contrário à novas eleições?

Pelo contrário: segundo Rovai o Partido precisaria “ter desprendimento e coragem para dizer que o mandato de Dilma e o atual Congresso perderam a legitimidade para governar por conta de tudo o que ocorreu e que o país precisa de novas eleições para sair dessa situação”.

Fica a dúvida, neste contexto, para que mesmo é o plebiscito?

Não seria mais econômico, para os que defendem este tipo de posição, falar diretamente de novas eleições?

Ficaria mais prático, mas aí ia perder a graça. E a graça está na prestidigitação que vem a seguir.

Segundo Rovai, o PT deveria ter “desprendimento e coragem para dizer que o mandato de Dilma e o atual Congresso perderam a legitimidade para governar por conta de tudo o que ocorreu e que o país precisa de novas eleições para sair dessa situação. Se isso vier a ocorrer, o golpe será dinamitado e o Brasil poderá seguir em frente”.

Fácil, não?

Fácil, mas tem duas esquisitices.

A primeira diz respeito ao mandato de Dilma. Se fosse verdade que este mandato perdeu “legitimidade para governar por conta de tudo o que ocorreu”, é óbvio que então a acusação de que o impeachment é golpe perderia parte de sua força. Logo, fica difícil acompanhar a lógica segundo a qual abrir mão da legitimidade ajudaria a dinamitar o golpe.

A segunda esquisitice é que Rovai mesmo reconhece que “será muito difícil emplacar eleições gerais”. Ou seja: a única coisa garantida na visão de Rovai é que Dilma não volta e que ela deveria admitir isto e aceitar isto, pois afinal teria perdido “legitimidade”. Novamente, não consigo captar como o afastamento de Dilma e a não realização de eleições gerais ajudaria a dinamitar o golpe.

Aliás, não consigo entender por quais motivos deveríamos assumir a tese segundo a qual o governo Dilma teria perdido legitimidade, que ela não teria como voltar, que o país precisaria de novas eleições, mas já sabendo de antemão que os congressistas não vão aceitar renovar o congresso.

A explicação estaria, segundo entendi do texto de Rovai, no terreno da agitação.

Sim, da agitação.

Vejam o que diz Rovai: “ao lançar o plebiscito como solução, Dilma e os movimentos devolverão a esse grupo que assaltou o poder a batata quente. Eles terão que dizer ao povo que são contra que ele decida o rumo das vidas política do país”.

Tremei, golpistas.

Pegamos vocês!!!!

Ao dizer que são contra eleições gerais, ao “dizer isso de forma explícita, serão devolvidos ao seu exato lugar na história, a dos golpistas. E a história e o povo costumam não perdoar essa gente”.

Acompanhem o raciocínio: a gente diria que Dilma não tem legitimidade, a gente diria que o país precisa de eleições gerais, o lado de lá não aceitaria as eleições gerais e aí ficaria claro que eles são.... golpistas!!!

Novamente pergunto: se é para chegar neste ponto, não seria mais prático e econômico continuar a fazer o que já estamos fazendo? Ou seja, apontar que o impeachment é golpe, lutar para derrotar o golpe no Senado, defender o Fora Temer e lutar contra as medidas do governo golpista?

Para deixar mais claro o que estou querendo dizer, basta ler como Rovai termina seu texto: “Nas eleições, eles vão ver o que é bom para tosse”.

Entendeu, moçada?

A gente vai defender plebiscito, os golpistas serão contra, vão se desmascarar e aí vão perder as eleições.

Mas de quais eleições Rovai está falando?

Daquelas que os golpistas vão aceitar antecipar? Ou das eleições 2018?

Não fica claro. Assim como não fica claro para quem eles iriam perder as eleições.

Aliás, a única coisa que está absolutamente clara no texto de Rovai, do começo até o fim, é que na opinião dele Dilma “não teria mais condições de voltar à presidência”.

Linha de argumentar ("Dilma não tem mais condições") que facilmente pode nos conduzir a outra (Lula e o PT não tem mais condições) e daí para o suicídio político faltaria pouco.

Para concluir, um resumo:

1. A crise política é imensa e de difícil solução. Suas raízes são múltiplas: a crise internacional, a crise econômico-social nacional, a crise político-institucional. Qualquer que seja o resultado da votação de mérito no Senado, a crise vai prosseguir. E não será resolvida através de um pacto;

2. A situação é tão complexa e difícil, que proliferam, em todos os setores sociais e políticos, soluções mágicas, balas de prata e sortilégios que supostamente permitiriam as coisas voltarem a ser mais ou menos como eram antes. Mas há uma lei que diz: a pasta de dentes não voltará ao tubo de onde saiu;

3. As forças democrático-populares e socialistas sofreram uma grande derrota. Esta grande derrota é anterior a votação da admissiblidade do impeachment na Câmara e no Senado. A grande derrota de que falamos ocorreu quando deixamos de ter o apoio majoritário da classe trabalhadora. Enquanto mantivemos este apoio, ganhamos quatro eleições presidenciais seguidas. Quando perdemos este apoio, começamos a sofrer o impeachment;

4. Recuperar o apoio da classe trabalhadora é nossa grande tarefa estratégica. Ganhando ou perdendo a votação de mérito no Senado, esta tarefa continuará posta. Ela será mais fácil de cumprir, se voltarmos ao governo, sempre e quanto voltarmos ao governo conscientes de que nosso programa, nossa política de alianças e nossa atitude geral devem ser outras;

5. A luta contra o impeachment e em defesa dos direitos atacados pelo governo golpista não deve ser vista, portanto, como "a última batalha da guerra antiga". Ao contrário, devemos ver a luta pelo Fora Temer e em defesa dos direitos como "a primeira batalha de uma nova guerra". Portanto, queremos vencer esta batalha contra os golpistas, queremos por Temer para fora e voltar à presidência, orientados por uma nova estratégia;

6. Por tudo isto é fundamental que a presidenta Dilma Rousseff divulgue uma carta deixando claro o que fará, quando voltar à presidência. Por isto, também, torna-se fundamental colocar em discussão a necessidade de uma Constituinte e a luta por uma reforma política. Por isto não devemos aceitar supostas soluções "pactuadas" que relativizem o golpe nem que facilitem a vida dos golpistas;

7. Defender novas eleições, hoje, equivale a defender uma renúncia parcial ao mandato conquistado em 2014. Defender um plebiscito para decidir sobre a convocação de novas eleições é apenas uma variante mais complicada da mesma proposta. São propostas que podem vir a ser corretas, caso a maioria do Senado aprove o impeachment. Neste caso, será justo lutar para abreviar o mandato de um governo ilegítimo e golpista. Assim como é justo colocar em discussão um plebiscito para convocar uma Assembleia Constituinte e fazer a reforma política.

Finalmente: fora Temer, vamos reconquistar a presidência!

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