15 de jun de 2016

História: herança principal de Eduardo Cunha é Michel Temer no Planalto

Xifópagos, por Aroeira, hoje no Facebook
Engolfadas pela sofreguidão da história e contaminadas pela memória traiçoeira, muitas análises do revés de Eduardo Cunha no Conselho de Ética da Câmara têm omitido a herança mais relevante dos seus dias como deputado todo-poderoso: a influência decisiva para a substituição de Dilma Rousseff por Michel Temer no Planalto.

Seria tosco ignorar que certas forças sociais, políticas e econômicas foram determinantes para a deposição da presidente constitucional. Sem aquela coalização o impeachment não teria prosperado.

Sem a ação de Cunha, contudo, é provável que ainda nem tivesse sido votado na Câmara.

Não é preciso ter memória de elefante para lembrar as observações do deputado Paulinho da Força: “Tá indo por causa do Eduardo Cunha. […] O impeachment só tá acontecendo por causa do Eduardo Cunha''.

Enquanto o marido de Cláudia Cruz abreviou a tramitação do impeachment, o Conselho de Ética atrasou a deliberação sobre o pedido de cassação dele por mentir sobre contas na Suíça. Mudaram a composição do conselho, acumularam chicanas, assistiu-se a adesões descaradas ou dissimuladas. O acordão pró-impeachment da presidente estabeleceu pactos para a salvação de Cunha.

O plano sacramentado por parlamentares acabou implodido pela Justiça. A mesma Justiça que demorou a se pronunciar sobre a saída de Cunha da chefia da Câmara, permitindo que ele presidisse a sessão farsesca de 17 de abril, alvejou-o com tantas bombas nos últimos dias que provocou constrangimento excessivo até para aliados do outrora mandachuva. Formar ao lado de Eduardo Cunha equivaleria, para alguns, a suicídio político. Não estavam a fim de se suicidar.

Mesmo afastado da presidência da Câmara, Eduardo Cunha influenciou decisões de Michel Temer, como a escolha do líder do novo governo, vinculado ao — ainda — deputado do Rio.

Muita gente esquece o que não é irrelevante: Temer e Cunha são correligionários. O primeiro não seria hoje chamado de presidente se o outro peemedebista não se dispusesse a patrociná-lo.

No balanço sincero da história, registre-se que um deputado denunciado por crimes cabeludos foi indispensável para derrubar uma presidente contra quem inexiste acusação de gatunagem.

Mário Magalhães

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