18 de jun de 2016

Fomos todos delatados por Sérgio Machado


O Brasil está em choque com a delação de Sérgio Machado. Mas não é pela extensão ou o tipo do esquema de corrupção revelado. Não. Também não é com o PMDB. É com o fato de alguém, simplesmente, estar contando tudo isso com tabelas, entregando intocáveis como Renan e Sarney. É difícil acreditar que isso está acontecendo.

Aceitamos durante anos que a corrupção financiasse nossa democracia. De repente, Machado está tirando dos brasileiros o direito de fingir que estão sendo enganados. De fingir que o financiamento privado não exige “contrapartida” às “doações” das empresas. De fingir que se indignam com a corrupção enquanto votam em candidatos que fazem campanhas milionárias. De fingir que a propaganda do João Santana e as campanhas milionárias do PT foram possíveis porque os empresários descobriram que lucravam mais com um governo “socialista”. De fingir que as campanhas milionárias do PSDB eram fruto da identidade ideológica do empresariado com o tucanato. E com o PMDB, PP, PR, PTB, PSD… Quando mesmo é que chegamos a acreditar que alguém doaria algo para essas confederações de mercenários por amor ao Brasil?

Já era. Fomos delatados. Nossa casa caiu. Já procuramos as soluções de sempre. Bodes expiatórios. Os candidatos de sempre são os políticos, uma espécie de Geni universal. Eles são os culpados pela nossa desgraça moral. Sérgio Machado? Corrupto. Renan Calheiros? Satanás. José Sarney? O avô do diabo. Aécio? Playboy delinquente. Lula? O inventor do clientelismo. É um lugar comum. Mas será que eles são, realmente, psicopatas? Pessoas muito diferentes de nós? Será que não amam suas famílias? Será que todos só querem roubar e ficar ricos?

Esses políticos não vieram de Marte, nem dos EUA (apesar de Serra nos deixar em dúvida). Também não foram eleitos por marcianos ou yankees. Vieram todos da sociedade brasileira, e foram eleitos por ela. Tiveram que se enquadrar no sistema para competir.

Nenhum governo ou sistema político jamais eliminará todas as formas de corrupção. Ela tem entre muitas outras causas, a própria natureza humana. Mas é claro que há muito mais coisa errada com o sistema político brasileiro do que a nossa natureza. Também sabemos que a democracia no regime capitalista é corrompida pelo poder do capital. Mas nenhum país europeu está no nível de degradação em que nós estamos.

Existe um componente ainda mais explosivo que esses na corrupção brasileira. Nós. Nós somos eleitores corruptos. Nós, por preguiça, desinteresse ou desesperança, não participamos ativamente da vida política e nos orgulhamos disso. Muitos inclusive discursam que só é decente a pessoa que não se mete na vida pública e só se ocupa de sua vida.  Nos anestesiamos com a ideia de que o problema se resume àqueles que não obedecem a lei: os corruptos. Trabalhando muitas vezes nas próprias empresas corruptoras, justificamos as mesmas como vítimas de extorsão da classe política. O corruptor é a vítima. O corrompido, o único vilão.

Mas atribuir aos agentes públicos toda culpa pela corrupção é menos um ato de ignorância do que de má fé. Sempre que um agente público se corrompe, é porque um agente privado o corrompeu. Por definição. Ora, o que é a corrupção senão o desvio do bem público para benefício privado? O poder esmagador do capital, que opera desde os veículos de informação de massas até os grandes bancos e empreiteiras, tem o poder de subjugar governos, parlamentares, partidos, funcionários públicos. Financiando-os, chantageando-os e finalmente difamando-os. Nesta ordem.

Nós permitimos durante décadas que a vida política fosse degradada por bancos, indústrias, empreiteiras e empresas de ônibus contribuindo para campanhas eleitorais. Para o sistema, são dois coelhos mortos com uma cajadada: a garantia que o capital controle a vida política não permitindo mudanças estruturais nas leis e na sociedade, e a submissão de todas as pessoas que se dedicam à vida pública ao esgoto do financiamento privado de campanha.

Nós sabíamos muito bem que o financiamento privado de bancos era o juro da dívida pública que comia nossos impostos, que o de planos de saúde era nosso SUS sucateado, que o de empresas de ônibus era nosso engarrafamento, nossa falta de metrô, nosso ônibus lotado. Mas agora, não podemos mais fingir que não sabemos.

Fomos todos delatados por Sérgio Machado. Todos. Eleitores de Aécio ou de Bittar, de Renan ou de Agripino Maia. Mas ele está nos dando, assim como as delações das empreiteiras que virão (ainda que seletivas e desonestas), uma oportunidade de mudar nosso país. Ele não fez isso por amor ao Brasil, mas por amor a sua família. Nisso também não é muito diferente de nós. O que é diferente é sua conta bancária e o fato de que ele foi um dos que operou o modo como escolhemos financiar nossa democracia.

Democracia é caro. Campanha é caro. É trabalho muito duro, aliás, nunca conheci trabalho mais duro. São milhares de encontros. Centenas de viagens. Centenas de entrevistas e gravações. Staff 24 horas por dia, material, ligações telefônicas, gestão de comunicação. Temos que decidir agora como vamos mudar isso e financiar nossa liberdade política, ou aceitar das duas uma: uma ditadura, ou um país corrupto e injusto. E eu quero uma democracia. Você quer?

Gustavo Castañon é professor de Filosofia e Psicologia na Universidade Federal de Juiz de Fora.
No Viomundo

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