10 de jun de 2016

Errei sim

Meus 17 leitores não perdoam. Não querem saber se o colunista está com escapamento de neurônios, e não aceitam a tese de que errar é humano. Quando avistam um erro, reclamam, e não adianta o colunista alegar que dormiu mal ou está preocupado com a seleção, ou pedir misericórdia por ser burro, e pronto. Há dias citei uma frase do filme O Terceiro Homem, aquela em que o personagem Harry Lime, vivido por Orson Welles, defende a sua própria falta de caráter, lembrando que durante 30 anos sob os Bórgias a Itália teve guerras, conspirações e assassinatos, mas, em compensação, também teve Michelangelo, Leonardo da Vinci e outras glórias da nascente Renascença, enquanto 500 anos de paz e ordem na Suíça só produziram o relógio cuco. Meu erro foi escrever Florença em vez de Itália e, portanto, confundir os Bórgias com os Médicis. Tudo bandido, mas os Médicis redimidos pelo generoso apoio às artes. Foi o que deu confiar na minha memória, em vez do Google. Minha ideia era comparar o espírito florentino do Brasil de hoje, com suas traições e intrigas de corredor, com o clima político da Florença renascentista, sem nenhuma das suas glórias ou compensações. Discutiu-se, no lançamento do filme, se a frase era do roteirista, Graham Greene ou do próprio Welles, que, claro, não confirmou, mas nunca negou que fosse o autor

Dias depois, escrevendo sobre o Dorival Caymmi e como sua música foi importante num momento das nossas vidas, citei a que é, na minha opinião, uma das frases mais bonitas do cancioneiro nacional, “os clarins da banda militar tocam para anunciar, que...”. Aí escrevi “a dona Dora vai passar...”. E vieram as correções. O certo não é “dona Dora”, mas, aparentemente, não existe um consenso sobre qual é a Dora certa. No “songbook” do Caymmi está “sua Dora”, o que não faz sentido, a não ser que o “sua” concorde com os clarins. Dora seria dos clarins, talvez a madrinha dos clarins. Para outros, o certo é “minha Dora”, o que já é um pouco mais aceitável. Mas, no começo da música, Dora é descrita como “rainha do frevo e do maracatu”. Se já é rainha, não pode ser rebaixada a madrinha.

Fico com o “dona Dora”, rainha, princesa, madrinha, o que for. Com o devido perdão do Caymmi pela parceria ousada, e com todo o respeito.

Luís Fernando Veríssimo

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