5 de jun de 2016

Dora

Lembrança remotíssima: Dorival Caymmi na nossa casa. Naquela época, pré-televisão, pré-cadeias de rádio, os artistas viajavam e faziam programas nas rádios locais. O apresentador do programa normalmente prefaciava cada música com um pequeno texto poético, insuportável. Depois de um desses programas numa rádio de Porto Alegre, Caymmi foi visitar meu pai, que tinha reunido um grupo de amigos para recebê-lo. Caymmi levou o violão e cantou.

Lembro-me de alguém que o tinha ouvido no rádio comentar: ele tem a cara da voz. Aquela cara não podia ter outra voz, aquela voz não podia ter outra cara. Nunca ouvi voz parecida — até conhecer outro baiano, o João Ubaldo Ribeiro. Diziam que a voz do João Ubaldo era plágio da voz do Caymmi. E o João Ubaldo também cantava muito bem. Segundo ele, só não cantava profissionalmente para não humilhar o conterrâneo.

Lembrança não tão remota (só 52 anos): Lúcia e eu num sítio em Araras emprestado ao jovem casal para sua lua de mel pelo escritor Vianna Moog. Durante toda a nossa estada no sítio, a eletrola só tocou um long-play. Do Caymmi. Faixa mais repetida: “Dora”. A rainha do frevo e do maracatu.

Todos nós temos algumas frases musicais guardadas no peito. Um arquivo de frases musicais perfeitas, que se carrega até com um certo ciúme de proprietários. Qual é a frase musical definitiva do Caymmi? Para muitos é o “oh insensato coração, por que me fizeste sofrer”, de “Só louco”. Para outros, é o “e assim adormece esse homem que nunca precisa dormir pra sonhar”, de “João Valentão”. Eu escolho a frase musical declaratória sem igual do Caymmi ,“os clarins da banda militar, tocam para anunciar, que a sua Dora agora vai passar...”

Cinquenta e dois anos. Além da eletrola e do long-play, aquele também era tempo de golpe (o militar, lembra?) iminente e incertezas mudas. Mas nos nossos poucos dias no sítio de Araras os clarins não pararam de tocar.

Luís Fernando Veríssimo

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