12 de jun de 2016

Decepção

Temos todo o direito de nos sentir logrados. Primeiro, foi a decisão de poupar o Neymar e não convocá-lo para a Copa América, privando-nos da sua arte num time notoriamente carente de artistas. Depois, veio a suspensão da Maria Sharapova dos torneios de tênis por dois anos. Dois anos sem aqueles cabelos loiros esvoaçantes, dois anos sem aqueles saiotes curtos, dois anos sem aquelas pernas longas. Nos sonegaram a maravilha. E agora ficamos sabendo que não veremos, nos jornais, a fotografia que, de certa maneira, sintetizaria este momento da vida nacional: Eduardo Cunha sendo conduzido para a cadeia pelo Japonês da Federal, o popular japonês bonzinho.

Nenhum dos dois compareceu ao encontro histórico, para nossa grande decepção. O japonês porque descobriram que andava facilitando contrabando do Paraguai, para complementar o soldo da polícia, e não está mais no serviço de escolta; e o Eduardo Cunha porque — pelo menos até a hora em que escrevo isto — ganhou uma nova sobrevida política do Conselho de Ética da Câmara, cuja maioria concluiu que ele é um ético com trusts secretos na Suíça, mas um ético assim mesmo. Não sei se aconteceu o que se previa, que o voto da deputada evangélica Tia Eron foi o decisivo para inocentar Cunha, seguindo a orientação do bispo Marcos Pereira, da Igreja Universal, mas se isto aconteceu, foi coerente com todo o espantoso resto — se é que alguma coisa ainda espanta neste circo.

Tia Eron, uma personagem, como o japonês bonzinho, projetada no nosso cotidiano e no nosso anedotário pelas circunstâncias, teve o apoio do bispo para seu voto pela ética do Cunha, mas também o dessa entidade abstrata chamada “o Planalto", por razões ainda misteriosas. “O Planalto" precisa de Cunha forte e ativo. Às favas com os escrúpulos, como disse certa vez, para justificar outro golpe, o Jarbas Passarinho.

O mais importante é que não veremos a foto, tão esperada, do Cunha conduzido pelo japonês bonzinho. Não precisaria ser condução coercitiva, não pediríamos tanto. Mas fomos logrados pelas éticas, a que faltou para o japonês bonzinho, a que foi homologada pelos seus pares, do Cunha. O japonês bonzinho será punido por facilitar contrabando do Paraguai. Se tivesse só trusts secretos na Suíça, não precisaria se preocupar.

Luís Fernando Veríssimo

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