17 de jun de 2016

Cunha foi apenas um aprendiz de Aécio?

A delação premiada de Sérgio Machado, o "homem-bomba" do PMDB, detonou Brasília. Ela atingiu em cheio o golpista Michel Temer e o seu partido, fazendo aumentar as apostas de que o interino não vai durar muito tempo. Mas ela também respingou no PSDB e, principalmente, no cambaleante Aécio Neves. Num dos trechos vazados, já abafado pela mídia tucana, o delator afirma que participou de um "plano para eleger a maior bancada possível" para viabilizar a eleição de Aécio Neves à presidência da Câmara Federal. Ou seja: não foi apenas FHC que comprou deputados para bancar a sua reeleição. Nem foi o correntista suíço Eduardo Cunha que inventou este esquema no Congresso Nacional.  

Segundo o delator, que em 1998 era líder do PSDB do Senado, o esquema foi montado em conjunto com Teotônio Vilela, então presidente nacional da sigla, e Aécio Neves, na época deputado federal. A forma encontrada, relatou Sérgio Machado em sua delação, foi "ajudar financeiramente" cerca de 50 deputados a se elegerem. Para isso, os três pediram à campanha nacional de FHC recursos para ajudar as bancadas. Decidiu-se destinar entre 100 e 300 mil reais para cada candidato. Para obter os recursos ilícitos, além de contatos com empresas, eles procuraram o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça, que garantiu que parte dos valores, orçados em 4 milhões de reais, viriam da campanha de FHC.

Ainda de acordo com o delator, parcela da grana ilegal era proveniente do exterior e foi entregue em espécie. O recurso foi repassado aos próprios candidatos e a seus interlocutores. A maior parcela dos cerca de 7 milhões de reais arrecadados à época "foi destinada ao então deputado Aécio Neves, que recebeu 1 milhão em dinheiro", disse Sérgio Machado. O ex-presidente da Transpetro ainda afirmou em sua delação que o atual senador tucano recebia, "com frequência", esses valores por meio de um "amigo de Brasília que o ajudava nessa logística". O delator detalhou quem seria o intermediário: "jovem, moreno e que andava sempre com roupas casuais e mochila”.

Sérgio Machado também confirmou a existência da "Lista de Furnas', que os tucanos ainda insistem em negar. Num dos trechos da delação, ele disse ter ouvido do ex-ministro Sérgio Motta que Dimas Toledo era afilhado político de Aécio Neves e que "todos do PSDB sabiam que Furnas prestava um grande apoio ao deputado". Estes e outros esquemas teriam viabilizado a eleição de 99 deputados da legenda, a segunda maior bancada da Câmara Federal — o que garantiu a vitória de Aécio Neves na disputa pela presidência da Casa.

Diante de tantos detalhes, o colunista Bernardo Mello Franco, uma das poucas vozes críticas na Folha tucana, concluiu que a delação premiada de Sérgio Machado desmascara de vez o cambaleante líder do PSDB: "Ao acusá-lo de financiar cerca de 50 deputados para comandar a Câmara Federal, Sérgio Machado sugere que Eduardo Cunha não inventou nada — foi apenas um aprendiz".

Altamiro Borges

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