20 de jun de 2016

Ciro Gomes: A única coisa estável no Brasil é a quadrilha do PMDB

Ciro quer se consolidar como terceira via
Disposto a enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva pelo voto dos eleitores de centro-esquerda nas eleições de 2018, o ex-governador Ciro Gomes (PDT) prepara sua terceira candidatura à Presidência.

Ciro, que coloca Lula como um dos responsáveis pelo impeachment e pelo esquema de corrupção na Petrobras, ao patrocinar a aliança entre o PT e PMDB, afirma que é necessária uma terceira via para romper a polarização entre petistas e tucanos que, em sua opinião, beneficia uma escória que agora tenta tomar o poder na marra.

Filiado ao PDT desde 2015, depois de passar por outras seis legendas desde que iniciou a carreira política, em 1983, Ciro aposta que a delação do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que coordenou sua campanha a prefeito de Fortaleza, em 1988, não deixará “pedra sobre pedra” no meio político, além de revelar ao povo as contradições do presidente interino Michel Temer ao apresentá-lo como um “homem da propina” pelo suposto pedido de repasses irregulares para a campanha a prefeito de Gabriel Chalita em 2012.

O ex-governador aponta erros na gestão de Dilma, mas a isenta de envolvimento na corrupção.

Após as eleições de 2014, nas quais não se envolveu, Ciro e seu irmão Cid Gomes, também ex-governador do Ceará, articularam junto com o ex-ministro da Casa Civil Aloizio Mercadante a formação de um eixo governista alternativo ao PMDB no Congresso.

Cid assumiu o Ministério da Educação, onde permaneceu por apenas dois meses e meio, se demitindo após se indispor com a base parlamentar do agora presidente afastado da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Aos 58 anos, garante que acumulou experiência para ser presidente e sem modéstia afirma que ninguém em sua idade tem a qualificação que possui para ocupar o cargo.

Ciro também foi ministro da Fazenda por quatro meses no governo Itamar Franco, governador do Ceará (1991-1994) e prefeito de Fortaleza (1989-1990).

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Depois de um tempo afastado, o senhor voltou a se envolver com política e tem sido ultimamente um crítico do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff. O que o tem motivado novamente?

Sofro da doença doída da lucidez. Resolvi não deixar por menos nessa fase. Estava quieto. A última eleição que disputei faz dez anos. Não tenho queixa do povo. Na ocasião, fui o deputado federal mais votado no Brasil proporcionalmente. Mas vivia cutucando os meus adversários. De um tempo para cá eu não aguentava mais a prática dos meus amigos. Por isso resolvi me afastar, tentar mudar de vida. Mas com o golpe fui convocado pelo PDT e achei que era minha obrigação moral com o país.

Por quê?

Me sentiria um covarde se, com a experiência e a vida limpa que tenho, com a compreensão e as conexões que tenho com o mundo acadêmico nacional e internacional, se me omitisse por qualquer razão ou conveniência.

Ainda tem esperança de que Dilma possa voltar a comandar o país?

Não me movo por esperança. Me movo por uma noção de dever. É dever de qualquer brasileiro dar o que puder para proteger a democracia. Luto por isso. Não me interessa se tem chance ou não. A probabilidade é pouca, mas existe. Por isso merece ser emulada, mas não em abstrato.

Como assim?

Estamos vendo concretudes. O povo é um elemento de instabilidade que pode ser muito fecundo e tem sido ao longo da história brasileira. Minha geração ganhou todas apostando nisso. Tínhamos uma agenda clara: anistia, eleição direta, constituinte. Produzimos pela política todos os milagres que lucidamente quisemos. Não deveríamos aceitar, custe o que custar, que à Presidência da República chegasse alguém que não fosse pelo voto popular.

A delação do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, que aponta uma suposta intermediação de propina de Temer para a campanha a prefeito de São Paulo de Gabriel Chalita em 2012, pode favorecer o ambiente para a volta de Dilma?

Antes de mais nada, não interessa se é a volta da Dilma, do Lula ou do PT. A gente precisa perceber o valor intrínseco da legalidade, da estabilidade das regras, para que o elemento maravilhoso que produz milagres ciclicamente, que é a presença do povo no processo político, aconteça, rompendo com a plutocracia escravocrata alienada que há no Brasil. O milagre de agora é o povo perceber as contradições do Temer.

De que forma?

O pulso moral tem visto ele citado como o homem da propina. Estou cansado de saber disso. Agora, será que as pessoas não estão vendo que estão afastando uma presidente decente, contra a qual inventam um pretexto injurídico, que é a tal pedalada fiscal, para colocar no poder, sem voto, uma quadrilha de ladrões, de bandidos orgânicos da vida republicana contemporânea brasileira? Não tem nenhum exagero no que estou falando. Conheço eles todos. Fomos contemporâneos nas diversas tarefas que tive, em antagonismo ou junto, porque o Lula me obrigou a ser parceiro desses calhordas. Isso eu não perdoo. Aliás, colocar o lado quadrilha do PMDB na linha de sucessão é uma responsabilidade do senhor Luiz Inácio Lula da Silva.

Qual o impacto que a delação de Sérgio Machado pode ter no meio político?

O Sérgio está falando a verdade. Se houver isenção no aparelho do Ministério Público e da magistratura, como eu insisto em acreditar, não fica pedra sobre pedra. Isso tudo é a crônica de uma morte anunciada. Brasília vive de segredo de polichinelo. Até as pedras do caminho sabiam que o Sérgio Machado estava ali onde estava, na Transpetro durante dez anos, posto pelo Lula em homenagem ao PMDB, para fazer o que fez.

Além de colocar o PMDB na linha de sucessão, como o senhor mencionou, qual foi o erro de Lula e Dilma que tornou a situação insustentável?

O erro tático e básico foi querer brincar de PSDB, copiando o modus operandi dos tucanos para resolver problemas de caixa de campanha. E o erro ancestral foi não ter projeto de país, mas um projeto de poder, que rigorosamente é a mesma coisa que fez o Fernando Henrique Cardoso. Com a força que tinham, FHC e Lula não apresentaram uma proposta, nem para ter a autoridade de dizer que propuseram e o Congresso não aceitou. A única coisa estável no Brasil é a quadrilha do PMDB. Romero Jucá foi líder do FHC, de Lula e Dilma. Na iminência do impeachment, Lula estava querendo impor Henrique Meirelles na Fazenda. O golpista derruba Dilma e coloca Meirelles como ministro da Fazenda. Tem alguma coisa errada nisso.

O governo cometeu equívocos na economia. Faltou um mea culpa?

Sem dúvida. Votei na Dilma. Não estou arrependido, mas não compreendo como que ela entra e mete um tarifaço de 72% na testa da população na conta de energia elétrica, além de produzir uma estagnação econômica com cara de depressão ao nomear uma pessoa sem o menor traquejo para cuidar da economia. Nosso povo está magoado com razão com o governo Dilma. Houve um retrocesso generalizado em todos os avanços que a população experimentou e eu não sei se nós teremos cinco ou seis senadores que estejam dispostos a se sintonizar com a história, colocar a mão na cabeça e separar seus honrados nomes dessa quadrilha de marginais que querem tomar o poder na marra.

Depois de pouco mais de um mês, qual sua expectativa em relação ao governo interino de Michel Temer?

O conjunto de forças que determinou o golpe não se reuniu em favor de Temer nem em prol de uma alternativa de neoliberalismo mofado. Foi uma coisa contra Dilma. Temer é um trambolho no caminho, a quem se dá um crédito, que está se esvaindo muito rapidamente, para que ele cumpra tarefas que só são conciliáveis em antagonismo.

Que tipo de tarefas?

O sindicato dos políticos quer o fim da Lava-Jato por razões óbvias. Isso não será entregue porque há um problema aí. O camarada faz uma delação premiada para se defender e atenuar sua pena e compromete os demais. A segunda tarefa, que também não será entregue, é ditada pelos rentistas, que querem gerar excedentes a qualquer preço, a qualquer custo, qualquer que seja a contradição. Só que Temer pensa o oposto. Ele é fisiológico e clientelista. Haja visto o aplauso que ele pede, quando o Congresso, na contramão desse ambiente, cria 14 mil cargos numa madrugada e dá reajuste para as grandes corporações.

Como o senhor vê a possibilidade de novas eleições?

Isso é um ‘marinismo’, muito nobre e charmoso. Afinal de contas, tem um bocado de safado em cima do muro. Acontece que essa história só tem dois lados. É legalidade e constitucionalidade com Dilma, com seus custos e contradições, ou golpe. O camarada que propõe novas eleições vai para um nobilíssimo muro defender uma coisa que é absolutamente impraticável.

Por quê?

É preciso uma emenda à Constituição com três quintos de votos da Câmara, um órgão controlado por uma maioria de ladrões e bandidos orgânicos a esta quadrilha que assaltou o país, chefiados ainda por Cunha. Depois tem que passar a mesma emenda no Senado, também por três quintos. Suponha que essa proeza aconteça, o vice eleito tem todo direito de postular junto ao STF uma Ação de Direta de Inconstitucionalidade, porque pelo menor direito brasileiro, nem sequer uma emenda à Constituição pode ferir a cláusula pétrea da irretroatividade do direito adquirido. Ele foi eleito pela população e tem direito de estar na Vice-Presidência

Mas o TSE pode votar a anulação das eleições e cassar a chapa toda.

Supondo que o TSE decidisse esse ano e ninguém recorresse ao STF, teríamos eleições diretas esse ano. Mas se passar de dezembro é eleição indireta.

A reforma política é sempre apontada como solução para crise. O que, na sua visão, deve ser alterado no modelo atual?

Nosso sistema político está em colapso. Não está nem Montesquieu, nem em nenhuma outra literatura. Jamais a ciência política imaginou uma maioria de corruptos. Por outro lado, nossa democracia tem 27 anos. É o mais longevo experimento da história brasileira e o estamos interrompendo. A lógica no Brasil é a ruptura e o autoritarismo. As pessoas querem democracia, mas vamos ter clareza, nossa elite odeia nosso povo. Diz que nosso povo não sabe votar, que a culpa pela vitória da Dilma é do Nordeste, como se ela não tivesse ganhado no Rio e em Minas. Ficam procurando solução despótica e esclarecida que nos subtraia a contradição da perseverança do caminho democrático, da tentativa e do erro, do respeito à regra, de votar bem e ganhar o benefício e votar mal e pagar o preço, que é o que qualifica as outras democracias.

Então, não há nada que possa ser feito?

Advogo duas providências. Primeiro, financiamento público e transparência em tempo real. Afirmar que vai ser financiamento individual, como decidiram para 2016, você está preparando a eleição mais fraudulenta da história. Campanha custa dinheiro. E dinheiro não precisa ser sujo. O poder econômico é um dado irremovível da realidade, e ele vai atuar ou de forma transparente, visível e controlada ou clandestina. Nós optamos por fazer uma farsa. A segunda proposta que defendo é o recall. Algumas países europeus o utilizam como mecanismos de democracia direta. O Brasil já institucionalizou plebiscitos e referendos, sem usar, porque a elite brasileira resolveu dizer que isso é chavismo.

Isso não pode provocar uma onda de recall?

O recall é um remédio como o impeachment, para não usar, mas é uma iminência que obriga a reduzir o hiato entre a promessa e o dia seguinte da eleição. Se as duas coisas forem feitas teremos uma mudança mais rápida em direção a uma democracia de cidadãos treinados. Hoje temos uma democracia de cidadãos sem treinamento.

O senhor será mesmo candidato ao Planalto em 2018?

Aceitei a tarefa do PDT de assumir uma pré-candidatura. Estou me preparando e conversando com a inteligência brasileira. Me considero obrigado a aceitar. Pedi demissão do emprego na hora que saiu o impeachment. Não sou contra ninguém, sou a favor de uma concepção e se eu for é para fazer história. Vou propor um projeto nacional de desenvolvimento. Na minha idade ninguém tem a qualificação que eu tenho. Isso é menos mérito meu e mais demérito absoluto do protagonismo que assumiu a política brasileira, que é uma seleção às avessas: quanto mais picareta e mais analfabeto mais poder adquirido.

Considera um problema enfrentar o ex-presidente Lula?

Nenhum problema enfrentar o Lula, pelo contrário. Uma das razões que me obrigam a ser candidato é que o Brasil não aguenta mais essa polarização entre PT e PSDB. Quem ganha com isso é a escória. Olhe para a história. O Temer era presidente da Câmara quando o presidente Fernando Henrique desvalorizou o câmbio, veio uma inflação, os juros subiram e o desemprego explodiu. Fernando Henrique se desmoralizou e Lula assinou um pedido de impeachment e criou um movimento Fora FHC. Na época, escrevi que isso era golpe, que remédio para governo ruim não é isso. Disse ao Lula que se a gente legitimasse isso, quando um de nós chegasse lá, eles fariam a mesma coisa.

Como o senhor enxerga o crescimento da direita no espectro político nacional? O deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) aparece com 8% das intenções na pesquisa Ibope.

Ao contrário da esquerda, vejo de forma positiva. Trata-se de um pensamento neopentecostal crescente no país, ultrarreacionário, ultraindividualista, protofascista. Esse eleitor estava no armário desde o golpe de 64, votando escondido em partidos que têm uma retórica que não é sincera, tipo o PSDB. A pesquisa mostra Marina competitiva com cerca de 20%, no mesmo patamar de Lula, que comemora o resultado depois de sair com 84% de aprovação. O que ninguém fala é que o PSDB não aproveita por causa do Bolsonaro, que tira voto deles.

Bolsonaro representa uma ameaça à sua candidatura?

Sua forma tosca nos ajuda, não assusta. Em 1989, houve a mesma coisa. Apareceu um médico de Goiás, com discurso conservador, que se fotografava em um cavalo branco, um vozeirão forte [Ronaldo Caiado]. A sociedade brasileira absorve isso com a maior simplicidade.

E como o senhor vê o PSDB nessa disputa?

O PSDB vai para autoimolação. O Napoleão Bonaparte dizia que os maiores erros estratégicos que cometeu foram porque supunha que um adversário conhecia seus próprios interesses. Assim está o Aécio no PSDB. Vai se acabar nessa brincadeira. O Serra, que é um grande mau caráter, aposta todas as fichas nesta eleição, porque é um velho, de 77 anos, obcecado por jogar a última cartada. Quer ser o Fernando Henrique do Itamar Franco, o que é uma ilusão grosseira. Nem ele é o FHC, nem Michel Temer é o Itamar.

Qual o futuro da esquerda?

O problema da esquerda é que nós estamos mal queridos pela população por essa mistura de fracasso econômico e de impotência no manejo da decência. O poder de compra do salário mínimo à equivalência do dólar com FHC no fim do governo estava em R$ 76, com Lula foi para R$ 320, e com a Dilma caiu para R$ 220. O crédito era 13% com FHC, subiu para 50% com Lula, focado nos interesses populares, e agora despencou para 20%. A rede de proteção social está defasada entre 15% e 20%. O Bolsa Família perdeu o poder de compra, sem reajuste. Acontece que só quem tem memória somos nós políticos. O povo vive o dia a dia e o cotidiano é retrocesso. A sensação é que falta dinheiro para tudo, menos para a roubalheira dos políticos. Precisamos nos conectar com a população.

Como o senhor avalia a gestão da economia no governo Temer?

Querem resolver todos os problemas, do desequilíbrio das contas externas ao subfinanciamento da economia doméstica, passando pelo custo monetário do manejo da dívida, com ajuste fiscal. Parece a propaganda do posto Ipiranga. Tudo é ajuste fiscal. Isso é mentira. Não há um precedente global que demonstre na teoria ou na prática que esses ajustes são a solução para a retomada do crescimento. A realidade negará essa retórica. Quando Joaquim Levy entrou no governo, o Banco Central aumentou a taxa de juros e derrubou o investimento brasileiro, o que quebrou a União e os Estados.

Qual sua expectativa em relação ao futuro da economia?

A próxima crise será a do setor financeiro. Ninguém paga ninguém no Brasil. A quantidade de provisionamento para créditos duvidosos aumentou exponencialmente. A quantidade de recuperação judicial está batendo recorde. A equipe econômica sabe disso. Os juros vão começar a cair, só que não na velocidade e profundidade suficientes para compensar a brutal queda de arrecadação que está acontecendo. Estão preocupados em reduzir o crescimento da dívida, que ainda não é explosiva. Só que querem fazer só com redução de despesas, sem aumento de receita.

Como devolver a economia na rota do crescimento?

Não é um ato voluntarista. Haverá um custo e contradições a serem administradas. A única forma de fazer inverter a tendência de galope explosivo que sinaliza para o futuro insustentável da dívida é fazer crescer a economia. Para isso você não pode ser contracionista. A DRU é uma anomalia, mas neste momento tinha que passar.

Um aumento de impostos é inevitável?

Absolutamente inevitável. A única saída estratégica é voltar a crescer. A CPMF deveria voltar, não porque é um tributo bom. É porque subtraíram do orçamento público a CPMF e 15 dias úteis depois a quadrilha que hoje comanda o Congresso votou a regulamentação da emenda 29, que define percentuais mínimos de investimento em saúde por União, aumentando em R$ 70 bilhões o gasto com a área.

Fernando Taquari
No Valor

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