24 de jun de 2016

Bradesco, Safra e Gerdau sumiram da mídia


É impressionante como a mídia privada — nos dois sentidos da palavra — protege os seus bilionários anunciantes privados. As corporações empresariais podem cometer os maiores crimes — sonegação fiscal, evasão de divisas ou desvio de recursos públicos — , mas logo são absolvidas pela imprensa venal. No final de maio, a Polícia Federal indiciou o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, suspeito por fraudes na Receita. Meses antes, dirigentes do banco Safra e da Gerdau também foram denunciados por crimes fiscais. Nos primeiros dias, os escândalos corporativos não tiveram como ser acobertados. Na sequência, porém, eles simplesmente sumiram do noticiário dos jornalões, revistonas e emissoras de rádio e televisão. A cumplicidade explícita lembra o pacto dos mafiosos!

No caso do Bradesco, o maior banco privado do Brasil, Luiz Carlos Trabuco e outros dois executivos da instituição foram indiciados no inquérito da Operação Zelotes, que apura o pagamento de propinas para reverter multas na Receita. Também foram denunciados agentes do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf), órgão ligado ao Ministério da Fazenda, e sócios de escritórios de advocacia que participaram do esquema mafioso. Segundo relatório da Polícia Federal, a diretoria do Bradesco "teve contato" com os criminosos para obter sentenças que reduzissem suas dívidas no Fisco. Um dos encontros ocorreu na sede central do banco, na cidade de Osasco (SP), em outubro de 2014.

Temer, imprensa e a operação-abafa

Segundo as investigações, o esquema visava resolver um passivo fiscal de R$ 3 bilhões e recuperar créditos tributários do PIS e Cofins. De imediato, a direção do Bradesco negou a acusação e alegou desconhecer a maracutaia. Já a Polícia Federal reafirmou que a diretoria do banco estava ciente da intenção dos lobistas. "Não é crível que a alta cúpula de uma das maiores instituições do país aceite receber qualquer tipo de aventureiro ou mercador que venham bater a sua porta vendendo soluções milagrosas para dirimir débitos fiscais", afirmou em nota divulgada em 30 de maio. De lá para cá, nada mais foi falado sobre o escândalo, que sumiu da mídia corrompida.

O esforço para abafar o caso pode, inclusive, ter contado com o empenho direto do governo golpista de Michel Temer. Segundo matéria da Folha, "o indiciamento do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, gerou preocupação na equipe econômica do presidente interino pelo risco de provocar turbulência no mercado financeiro num momento delicado da economia brasileira. Apesar da preocupação, a orientação do Planalto é a mesma em relação à Operação Lava Jato, de que 'não cabe nenhum tipo de interferência' nas investigações". Será que alguém acredita nesta bravata da Folha?

Safra, Gerdau e as propinas milionárias

Antes do Bradesco, outras duas poderosas corporações já tinham se enroscado na Operação Zelotes. Em meados de maio, a Polícia Federal indiciou o presidente do Grupo Gerdau, André Gerdau, e mais 18 executivos e agentes fiscais envolvidos em mutretas junto ao Carf. Eles foram denunciados pelos crimes de "corrupção ativa, corrupção passiva, lavagem de dinheiro e tráfico de influência". Segundo as investigações, mesmo após a deflagração da Zelotes, a Gerdau seguiu praticando crimes, entre eles o de advocacia administrativa. A PF estimou que o grupo empresarial, com atividades em 14 países, tenha tentado sonegar R$ 1,5 bilhão, pagando propina aos conselheiros do Carf.

Já no final de abril, o alvo das investigações da Operação Zelotes foi o Safra. O acionista majoritário do banco, Joseph Safra, chegou a ser convocado para prestar esclarecimento à Comissão Parlamentar de Inquérito do Carf — a CPI que até hoje hoje não incriminou nenhum dos poderosos ricaços metidos em fraudes fiscais. Segundo o Ministério Público Federal, a instituição teria desembolsado R$ 15,3 milhões em propina para abortar três processos da JS Administração de Recursos, um dos braços do banco, que tinha multas no Carf que somavam R$ 1,8 bilhão. A exemplo dos presidentes do Bradesco e da Gerdau, o "acionista majoritário" do Safra segue livre e solto.

Mídia e publicidade: relação promíscua

A mídia privada, que adora promover a escandalização da notícia — somente quando ela enfraquece os órgãos públicos e as empresas estatais —, sempre evitou destacar aos escândalos das megacorporações empresariais. Esta omissão criminosa, que adultera o jornalismo e a ética, se dá por razões políticas e econômicas. Além da apologia ao "deus-mercado" e da negação do papel do Estado, a mídia privada mantém uma relação de cumplicidade com os anunciantes. Para estimular o consumo doentio, muita grana circula na publicidade. Corrompida, a imprensa comercial blinda os crimes dos anunciantes. E ainda tem gente que acredita na imparcialidade e neutralidade da mídia privada.

No ano passado, por exemplo, a compra de espaços publicitários em veículos de comunicação atingiu R$ 35,1 bilhões — excluídos os descontos praticados por jornais, revistas e emissoras de tevê e rádio —, segundo um levantamento da Kantar Ibope Media e Grupo de Mìdia. Somente a TV aberta recebeu 63% deste total. Reproduzo abaixo o ranking da publicidade em 2015 a partir dos diferentes meios:

* * *

TV aberta - R$ 22,064 bi (62,9%)

TV paga - R$ 3,215 bi (9,2%)

Jornal impresso - R$ 2,878 bi (8,2%)

Display (anúncios na internet) - R$ 1,824 bi (5,2%)

Revista impressa - R$ 1,599 bi (4,6%)

Search (resultados de mecanismos de busca) - R$ 1,578 bi (4,5%)

Rádio - R$ 1,279 bi (3,6%)

Mobiliário urbano - R$ 446 mi (1,3%)

* * *

É uma fortuna — o que explica a cumplicidade da mídia venal diante dos vários crimes cometidos pelo Bradesco, Safra, Gerdau e outras corporações empresariais. A maior parte desta grana, num país em que a ausência de legislação estimula a concentração e o monopólio no setor, vai evidentemente para a TV Globo. Não é para menos que os três filhos de Roberto Marinho são os maiores ricaços nativos, segundo o ranking da insuspeita revista Forbes. No ano passado, o Grupo Globo obteve uma receita de R$ 16 bilhões. Apesar da crise econômica que atingiu o país, o império global manteve a sua alta lucratividade. "O lucro líquido teve aumento real (descontada a inflação) de 30%, fechando o ano em R$ 3 bilhões", descreve uma reportagem da Folha de março último.

Altamiro Borges

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