5 de jun de 2016

“Às favas, senhor presidente, com os escrúpulos de consciência”

11 de janeiro de 1920 - 05 de junho de 2016





http://www.revistaforum.com.br/rodrigovianna/plenos-poderes/as-favas-senhor-presidente-com-os-escrupulos-de-consciencia/

1 de março de 2009

Não sei se você já ouviu esta frase aí em cima. No dia 13 de dezembro de 2008, completaram-se quatro décadas, desde que o governo dos generais mandou às favas os escrúpulos, e decretou o AI-5. Foi o golpe dentro do golpe. A ditadura sem pudor, escancarada. Sem escrúpulos.

A frase foi dita por Jarbas Passarinho (na época, Ministro do Trabalho de Costa e Silva), durante a reunião que decretou o Ato Institucional, em 13 de dezembro de 68. Eu já tinha lido sobre a frase algumas vezes. Mas, uma coisa é ler, outra é ouvir, da boca de quem a proferiu. Alguns meses atrás, eu fui entrevistar o Passarinho, pra uma série de reportagens que fizemos no Jornal da Record, sobre “1968 – O Ano que Mudou o Mundo.”

O ex-ministro é hoje um senhor alquebrado, que anda com dificuldade. Atencioso, camarada, Passarinho não faz o estilo militar durão. A gente acaba simpatizando com ele. Enquanto Passarinho descrevia o clima da época, eu refletia sobre a fragilidade de todos nós: o homem poderoso, capaz de mandar às favas os escrúpulos, hoje é um velhinho de quem a gente quase sente pena.

Na conversa, ele repetiu a frase. Nós botamos isso na edição da matéria. E reproduzimos o áudio da reunião em que Costa e Silva e os ministros mergulharam o Brasil em noite profunda e duradoura. Não sei se o impacto é grande para o telespectador. Pra mim, foi enorme. Na hora em que Passarinho repetiu a frase de 40 anos atrás, esqueci que ele está velho, esqueci que o tempo passou, e quase tive vontade de gritar: “Não, não!” Tive vontade de voar no pescoço dele...

Mas, meus “escrúpulos de consciência” falaram mais alto. Disfarcei a raiva, controlei-me e segui a entrevista.

Esse tumulto todo me atordoou um pouco. Tumulto provocado pelo fato de, num primeiro momento, simpatizar pessoalmente com aquele homem que ajudou a construir uma ditadura perversa no Brasil. Tumulto aumentado pelo fato de, no minuto seguinte, sentir raiva dele. Tudo bem, o Passarinho, pelo que se sabe, não foi torturador, não é um assassino cruel. Mas, abriu caminho para que outros assassinos fizessem o serviço. Isso tudo passou pela minha cabeça em 30 segundos, enquanto Passarinho falava, e a câmera registrava tudo.

Esse pequeno tumulto interior, minhas emoções contraditórias: nada disso entrou na reportagem. Ou melhor, não entrou explicitamente. Porque, na edição final, ficou claro o que o AI-5 significou para o país.

Se o jornalista deve – sempre – fazer um esforço para escutar as várias partes envolvidas num acontecimento, não pode se iludir com o discurso da “neutralidade” que muitos tentam vender como a marca da profissão. Neutralidade não existe. Isso é besteira. É uma forma ideológica de mascarar os intereses envolvidos na produção e reprodução das notícias (depois, voltarei a esse tema, lembrando reflexões do grande Cláudio Abramo sobre o assunto).

Como ser “neutro” diante do AI-5?

Posso – e devo – ouvir personagens como Passarinho e Delfim Neto (outro que assinou o AI-5), abrindo espaço para que eles expliquem suas razões ao público. Mas, não posso aceitar o que eles fizeram. Tenho posições claras, como cidadão e como jornalista (espero que na reportagem sobre o AI-5 isso tenha ficado claro).

Por isso, não tenho problema nenhum em afirmar com todas as letras:

“às favas, senhores leitores, com qualquer escrúpulo de neutralidade”.

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