13 de jun de 2016

A traição da traição ou como se livrar de um cúmplice


Reportagem de hoje do Estado de S. Paulo dá conta de uma tentativa de atirar ao mar o grande arquiteto do impeachment, Eduardo Cunha.

“A estratégia para tirar Cunha de cena vem sendo chamada nos bastidores do governo e do Congresso de “operação mão do gato”, numa dupla referência ao gesto do felino de bater e recolher o braço imediatamente e ao ato de agir sorrateiramente. O medo do PMDB e do Planalto é de que Cunha, num gesto de vingança, possa fazer acusações contra Temer e o partido. No Planalto, a avaliação é de que Cunha se tornou um fator que só atrapalha o governo.

No Centrão, a convicção é de que a “criatura se tornou maior do que o criador”, conforme a definição de um líder ao falar do grupo e de Cunha. O objetivo do bloco é manter o poder sobre o comando da Câmara e fazer o sucessor do presidente afastado da Casa.

Cunha estaria, conforme os repórteres Alberto Bombig e Igor Gadelha, começando a dar sinais de desequilíbrio — muito incomuns em seu comportamento glacial — diante da possibilidade de que sua mulher venha a ser presa pelo juiz Sérgio Moro:

Dizem eles que dois deputados que lhe seriam próximos o teriam aconselhado  a renunciar, “pelo bem do governo do presidente em exercício Michel Temer”.  Eles relatam que o “pedra de gelo” se descontrolou e, aos gritos, disse que jamais tomará essa atitude porque o Moro promoveria um “cerco” a ele e a sua família.

Óbvio que Cunha sabe que isso não seria feito sem ao menos o beneplácito do Governo Temer, mas ainda crê que a força que possui na Câmara é razão mais forte para que Temer conserva com ele a cumplicidade que, afinal, levou a nulidade ao cargo de Presidente.

Mas também sabe que o stablishment, capitaneado pela Globo, quer livrar-se de Cunha o mais rápido possível, para que só reste ao grupo mais fisiológico da Câmara o alinhamento a Temer e se viabilize, sem sustos, a aprovação de medidas de restrição de direitos sociais e trabalhistas, pílula amarga para parte do tal “Centrão”.

É indisfarçada a pressão:

“O comportamento esquizofrênico [de Temer] fica mais evidente na relação com o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha. Todos os seus indicados para o governo federal foram nomeados e mantidos mesmo após seu afastamento. O governo não teve coragem de bancar a destituição de seu substituto, um drone cunhado pela prepotência de quem se sabe fora do alcance de retaliações. Mais do que isso, ajudou nas manobras para evitar a cassação de Cunha.”

Cunha é uma bomba que Temer tem de desmontar. Mas não é ele que controla o alicate que pretende cortar o fio como se fosse assim simples acabar com o poder de chantagem de alguém que, há mais de uma década, acumula cúmplices, como o é o próprio presidente interino.

Fernando Brito
No Tijolaço

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